Arrepios, suspiros, verdades.

Bem feito.

Publicado por: Letícia Nascimento em: 31 de maio de 2012

- Bem feito!

Desabou de cara no chão. Perdeu o texto que escreveu com carinho. Deixou o molho de chaves cair no vão da cama que não se move. Bem feito! Parece elogio, mas é prefácio pra desgraça. Bem feito pra mim. Eu que deixei o molho de chaves desabar em um vão impenetrável, perdi aquele lindo texto que escrevi com carinho e cai de cara no chão. Doeu. Porque essas coisas doem. A dor me atinge com tanta força, que tenho preferido ignorá-la à, sei lá, chorar. Eu ainda não consigo parar de reclamar, porque essa crítica exacerbada faz parte de mim, mas consigo segurar as lágrimas, sempre que possível. Hoje não.

Essa é uma história sobre a minha vida que só descobri há algumas horas. Inédita pra mim, ela me doeu o coração.  Em um quadro negro, desses de aprender tabuada, eu fiz um gráfico. Linhas tortas, admito – a beleza dos traços nunca foi o meu forte. Nesse gráfico coloquei todo o meu futuro. Fiz a minha própria concepção daquilo que eu iria reproduzir, caracterizar, induzir e assimilar nessa vida. Eu precisei de legendas absurdamente grandes pra dar conta de explicar tudo à pessoa que mais importava. Eu. Eu mesma.

Eu me vi, com essa idade material, 23 arrojados anos, rosto mais bonito e cabelos alucinantemente brilhantes e compridos, as pernas mais cheias, assim como os seios. Um senso insaciável de liberdade em contraste com uma responsabilidade induzida pelo medo do inferno. Eu me vi sempre sorrindo, um sorriso de boca vermelha, usando botas pretas, de saltos finos, daquelas que vão até o meio da coxa. Me vi tão linda, que esqueci de qualquer outra coisa. Apaguei as legendas do gráfico com o suspiro do desejo. Desejo de ser desejada. Desejo de não sentir mais aquela dor. A dor que arde atrás dos olhos quando se olha no espelho e termina com um golpe furioso no estômago. A dor de não ser aquilo que se espera que seja.

A dor continuou em mim assim que abri os olhos. Tentei correr atrás das letrinhas se apagando, com o pó colorido daquele giz roubado da professora da segunda série, e todos os seus pontinhos esvoaçando e indo pra outro lugar. Eu sempre quis ser um daqueles pontinhos, que vão brilhando até onde dá e não se cansam de pular de parede em parede, de roupa preta em roupa preta. Deve ser incrível ser assim, até porque se sabe que a morte virá em forma de um pano úmido (ou nem assim). Não tem essa espera humana inconstante .

Eu não conhecia essa história. Descobri-a, hoje, enquanto olhava bem fundo meus olhos no espelho. Nunca gostei de espelhos, eles ainda me representam dor. A história me deixou triste por eu não ter aquela bota e ficar bizarra com a boca pintada de vermelho. Me deixou também frustrada, por não apontar com legendas super explicativas como faço pra superar essas dores. Como faço para me manter no equilíbrio almejado ou como posso suportar a dor de assistir a uma vida totalmente insuportável – a minha, mas principalmente a dos outros – que eu não desejei viver ou fazer parte, mas acabo por viver e consentir, todos os dias. Queria respostas.

Se você me perguntar agora o que eu quero amanhã, vou ser rápida em dizer: eu quero a cura para todas as minhas dores. Não quero mais, patologicamente, sentir vontade de morrer por causa de tanta dor. Não quero mais sofrer quando sinto que meu carinho ou amor não são correspondidos. Não, porque idealizo e ao idealizar e não obter, me dói muito. Dói dentro do ouvido. O zunido que diz: “Você não nasceu para amar. Nasceu para sofrer”. Eu iria pedir a cura para o sofrimento, que eu sei que não é nem o décimo do que um sofrimento de verdade chega a ser. Mas dói, hein. Como dói.

Sim, eu ia pedir e nessa de fragmentar minhas dores por medo de um colapso, vou acabar sem afeto para oferecer. Vou terminar com a convicção de que eu devo ser sozinha mesmo. Que nenhum outro ser humano precisa compartilhar das minhas dores. De cabeça, de garganta, de gastrite, de nervos, de sangue. Eu estou deixando de me sentir especial, pelos motivos que um dia coloquei em um gráfico e deixei que o vento levasse.

Se um dia meu pedido fosse atendido, o mundo teria que acabar. Explodir em pequenos pedaços de cristal. Ao fundo, as dores saindo, a vida esvaindo e passando por mim, feito um trator e as palavras me batendo, vibrantes, violentíssimas.:

- BEM FEITO! Você apagou o seu futuro bonito.

Por enquanto estou aqui, caída, de cara no chão.

Sobre sentir.

Publicado por: Letícia Nascimento em: 27 de março de 2012

Quando vejo seus pés sumindo escada abaixo, junto com tudo o que ele representa pra mim, minhas sensações se dividem em saudade imediata e felicidade por ter tido sua companhia até aquele momento. O adeus, que é um “volta o mais rápido possível”, é a parte mais difícil dos dias em que o vejo, mas basta saber que em breve abrirei a janela pra jogar as chaves em algum lugar da grama, que fica mais bonita quando ele espera, que fica tudo bem. Me sinto em um conto de fadas, desses em que o amor se faz possível nas situações mais adversas e que a mocinha passa metade da história sorrindo, chora em determinado momento e não consegue largar seu príncipe, para sempre.

Quando era mais nova, bem mais nova, uma menina de aparelho que sentava no chão da locadora pra decidir o que assistir numa terça-feira chuvosa, que assustava o pai – e principalmente se assustava – quando ele chegava mais cedo do trabalho e a flagrava dublando qualquer pérola verdadeira da música nacional, enfim, quando eu não pensava em muita coisa além do que surgia naturalmente na minha cabeça, imaginava se um dia encontraria alguém especial, se as histórias de gente apaixonada eram mesmo reais, se as pessoas ficavam tão abobadas e emotivas quando gostavam de alguém, se não era só invenção de Hollywood mesmo. Encontrei. Sem esperar, quando não esperava mais nada dessa vida, aliás.

Hoje, nessa linda madrugada chuvosa, em que sinto aquela vontade de estar envolta em seus braços, constato mais uma vez que ele não apenas preencheu um vazio que eu tinha dentro de mim desde sempre, mas nutriu todo o meu ser, com a revolta compartilhada, as madrugadas, manhãs, tardes e noites de cumplicidade, dedicação e risadas, me renovou com seus pensamentos tão vanguardistas, criativos e excepcionalmente inteligentes, tem me dado força pra encarar esse meu cotidiano complexo, entre a falta do que fazer e a necessidade de muito fazer, tem feito parte de mim, dividindo tudo, sendo o próspero guardião do meu corpo, da minha alma, responsável direto pela minha felicidade.

Em qualquer outro momento da minha vida eu teria muito medo de dizer tudo isso, abertamente, sem rasuras. Mas me sinto tão apaixonada, que é o mais correto a fazer: expôr a quem quiser saber que me sinto emocionalmente completa, pronta para viver belíssimos anos compartilhando tudo com uma só pessoa, a mais especial desse mundo. Se eu me sentia diferente de todos, dentro das minhas perspectivas do que eu sempre quis/tentei ser, foi ele quem me fez enxergar que eu podia ser feliz nesse mundo maluco, porque havia essa única pessoa tão parecida comigo. Ficou muito mais fácil respirar. E o medo de estar cometendo um crime fica em segundo plano, assim como o medo de que tudo termine em algum momento, sem explicação ou preparo. Tudo com você é melhor.

“Um sonho sonhado por você é mais lindo
Seu autorretrato está sempre sorrindo porque gosta de te ver
Sorrio também

ai ai, eu sei
você é o meu lugar
meu reino encantado, meu ninho, minha sala de estar
ai ai, nós dois
oi oi, num cartão postal, quero estar contigo até o final

Na sua memória o passado é perfeito
A linha da vida da sua mão toca no meu peito
Vai me acompanhar
Já não tem mais jeito não”.

(Teu perfume – Ludov)

Um domingo qualquer.

Publicado por: Letícia Nascimento em: 25 de março de 2012

Têm dias em que você acorda e sente ausência de vida no corpo. Em dias assim, costumo ter a necessidade de comprovar com sensações que ainda faço parte do planeta, que meu corpo ainda não evaporou em um lugar escuro e frio, que o sangue corre quente, por mais que eu não compreenda o sentido de tudo isso. 

Em dias como esse, caminhar por baixo de um sol escaldante passa a ser parte de um processo, em que a sombra torna-se melhor amiga e o banco sujo de uma praça abandonada – provavelmente, pouco segura – passa a ser o local propício para a tristeza se manifestar. O barro, embaixo da grama gasta, notifica que muitos por ali sentaram, com suas crises, momentos de espera, risos, já que existem mais espaços gastos em volta de outros bancos próximos. A tristeza se manifesta quando você percebe que poderia estar sorrindo, mas as lágrimas caem do rosto, sem que você perceba.

A solidão sempre foi a companhia mais certa pra mim. Mesmo em dias de calor total, em que águas de uma cachoeira bonita ou de uma piscina qualquer seriam as melhores opções, a solidão se apresenta, pronta pra acompanhar. Ela não me deixa na mão, nunca deixou. Acostumar-se com você mesmo é uma dádiva, porque seres humanos são sempre instáveis, incluindo você, e não se pode dizer quando você estará sozinha numa tarde de sol, em um domingo qualquer do calendário que você gostaria que já estivesse fora da história há dias.

A tristeza, no entanto, tem estágios. Ela pode te acompanhar por longos períodos, em dias específicos, ir embora em um minuto, é tão inconstante como nós todos. Da tristeza eu nunca gostei. Não sinto falta, não desejo que ela se expresse em lágrimas incontroláveis, não suporto essa tendência desumana que ela tem de fingir que você está só por não ter opções. Nós sempre temos opções. Estar triste é algo que desgosto, por não saber explicar. Quando uma sopa de motivos para ter um sorriso aberto 24 horas é lançada em cima de você, e só o sabor de choro é sentido pelo paladar.

Do céu vem sempre a percepção e, nesse caso, a de hoje: estou no melhor e no pior momento da minha vida. Contradições não me mordam, eu fico roxa com facilidade. E quando a solidão toma mais conta do que deveria, resta levantar, amarrar o cadarço e voltar, abrir uma folha em branco, conseguir escrever. 

Não me importa o processo, quando o resultado desejado chega a mim. 

Sonhar.

Publicado por: Letícia Nascimento em: 8 de fevereiro de 2012

Sonhei.

Sonhei como costumo sonhar. Tonalidades previamente expostas, enquanto sobem créditos imaginários com os nomes de pessoas próximas ou rostos que, provavelmente, nunca colocarei os olhos abertos. Imagino que esses desconhecidos sejam pessoas nas quais, distraída, esbarrei ao longo da vida. É uma ideia e tanto. Pessoas em que nunca reparei, mas meu subconsciente guardou com carinho, para fazer figuração em sonhos que me fazem acordar perturbada, tamanha engenhosidade no REM.

Sonhei com uma vila iluminada, totalmente arborizada, com referências de uma década parisiense que não sei bem ao certo se dos anos 20, 30 ou 40 – talvez pelo simples fato de eu nunca ter estudado a arquitetura parisiense. Morava em um dos sobrados com minhas duas amigas, xarás uma da outra, e nossa casa era repleta de verde e luz. As flores penduradas displicentemente pelas janelas, as poltronas confortáveis, as canecas para um chá que não existia e muitos outros detalhes, que somados representam uma casa, literalmente, dos sonhos, com companhias tão agradáveis quanto o cheiro de croissant que sentíamos pela janela do vizinho.

Sonhei com aquele campo repleto de tulipas lilases, em um abril desses enlouquecedores, em que o caminhar pelas flores favoritas era mais penoso do que qualquer outra coisa. Ali, com os cabelos ao vento, pássaros me seguiam com olhares preocupados, uma lágrima após a outra, até o fardo cansar as costelas. Eu, caída, amassando de forma rude toda a minha envergadura em flores, chorava. Sentia muito e não sentia nada. Num complexo sonho de terror psicológico em que eu precisava acordar, mas não queria.

Sonhei um sonho colorido, cheio de cartazes bonitos de filmes maravilhosos na parede. Os cabelos dele passavam entre meus dedos, eu ouvia sua voz, muitos planos e um desentendimento resolvido com sorrisos. Um sonho comprido, cheio de toques e sussurros. Quando fui abraçá-lo estava sozinha em uma sala vazia, ele havia sumido. O colorido perdeu os tons e me mantive sentada na mesma posição pelo resto de uma história inacabada.

Sonhei que o pouco me bastaria e que tudo cheirava a flor. Ledo engano ao acordar.

Tarde.

Publicado por: Letícia Nascimento em: 2 de fevereiro de 2012

Bastam duas piscadelas para que o mundo gire da calmaria à frustração. Nem precisa de teste. Existem aqueles bons momentos, em que é suficiente sorrir e fazer parte do todo maior. Em contrapartida, os momentos “ruins” acabam deixando rastros pesados demais, ao mesmo tempo inidentificáveis, e sobra uma necessidade imensa de sumir, acabar com a cordialidade toda, emancipar-se da vida.

Tenho vivido – imagino, como a maioria dos seres humanos pensantes, habitantes desse planeta que padece, dia-a-dia um cado mais – lutando contra todos os momentos, na esperança de traçar uma linha reta, harmônica de paz interior, não dessas obtidas com meditação e regras tolas de gente que ainda quer ser feliz, mas daquelas de deitar a cabeça no travesseiro e simplesmente apagar. Descansar por completo, de mais 24 horas impostas em meio a milhares de outras coisas igualmente impostas, a qual deveríamos nos adaptar, reagir, contemplar, interagir, amar.

Por mais que devaneios me persigam, são apenas devaneios, e mesmo ao se revelarem continuam sendo meus. Nada são além disso. Além da vontade de acordar com disposição para viver aquele nicho de coisas às quais me apeguei dentro dessa jornada; de encontrar formas financeiro-sociais de realizar sonhos, já que os meus se misturam, os acordados e dormidos – e, sendo assim, me dão certa pequenina esperança de serem algo a ter sentido; até chegar o momento derradeiro do dia, em que encorajada pelo breu que invade a janela testo o universo com meus seis sentidos e percebo que nada mudou.

Ao longo dos anos em que experiencio a Terra, descobri inúmeros gostos, verdadeiras paixões e colecionei objetos e sentimentos como se tivesse mesmo direito a tudo isso. Negligenciei certas regras sociais e de conduta, aboli os longos abraços em desconhecidos e percebi que usar um relógio no pulso nunca mudaria minha conduta de atraso, apenas me deixaria com marcas no pulso, feitas pelo sol. Constatei com facilidade que da mesma forma que amo a noite e suas estrelas madrugantes e silenciosas, odeio o sol, com toda a claridade e exposição de sensações deploráveis que o acompanham. E nessa de gostar e desgostar das coisas, volto a perceber como as coisas dificilmente mudam, e como cada vez menos, as coisas valham a pena, simplesmente.

Mas isso sou eu. Eu que não quero perder os arrepios, mas os vejo esvaindo de mim, quase sem volta.

Já não tenho mais paciência ou vontade para abraçar árvores e impedir que eles construam mais um prédio. Não consigo mais desejar certas regalias mundanas apenas para passar o tempo “melhor”. Tenho perdido a cada segundo, pequeninos pedaços de vontade (essa que os humanos costumam ter de fazer tudo, colocar o nome na história e ganhar troféus) e temo o dia em que não desejarei mais sair de casa. Ficarei com minha pilha de coisas e pessoas queridas e amadas – as que achei sozinha, enquanto crescia, sozinha, ou as que me ensinaram a amar e que, sozinha, escolhi tomá-las para mim, guardar em meu coração nas costas e que me ajudam a permanecer aqui.

Devaneios mil. Desejo de subverter qualquer coisa mil. Vontade de que esse globo azul exploda mil. Estou cansada.

Eu não confundo melancolia com tristeza. Tampouco tristeza com infelicidade. Nem sonhos com mediocridade. Ou futilidade com necessidade. Muito menos o doce com o amargo. Eu só confundo o céu com o inexplicável. E isso me arrepia. Por enquanto.

Manhã.

Publicado por: Letícia Nascimento em: 21 de janeiro de 2012

Nunca iria se acostumar com a luz do dia. Tampouco depositaria mais confiança nas pessoas do que deveria. Fora criada dentro de um ideal de imperfeição, que incluía ausência de beleza, café sem açúcar, alergia a algodão e seres humanos mentirosos. Quando criança, já amante da solidão, sabia calcular perfeitamente o valor de suas palavras, as reais e as inventadas, nutrida de uma vontade revigorante de sobreviver. Desafiar a inteligência alheia era tudo para ela. Como não podia confiar em si mesma – não raras vezes cometeu delitos e encontrou terríveis defeitos de caráter em seu próprio cotidiano forjado – não confiaria em ninguém. Não chegava a ser uma regra, pois se sentia livre para lançar auto-amarras. Era apenas precaução. Algo como preservação sentimental. Inteligência emocional, diriam aqueles que acreditam ter explicação para tudo.

Naquela manhã, em particular, precisou de mais força para encarar a forte luz do sol. Sabia que teria um dia dificílimo, desses de temor, em que o coração poderia entrar em colapso com o cérebro e colocar tudo a perder. Ou a ganhar. Não tinha um plano certo do que faria, apenas deixou-se guiar pelo ritmo do vento, que tentava sem sucesso movimentar seus cabelos estrategicamente presos. A rigidez com que se vestira, escovara os dentes e pisara firme em cada degrau da escada rumo à porta, fazia com que seus ossos doessem de ansiedade. Ela nunca se arrependia, porque no final das contas, aquilo tudo – do torpor ao ato concretizado – era o que lhe dava forças.

Chegou ao seu destino. A casa estava vazia. A sala, sem mobília, com exceção de uma velha penteadeira. Seus passos solitários e cheios de eco a deixavam excitada. Não precisara arrombar nada. A porta estava aberta, poderia jurar em um tribunal, que estava, inclusive, a sua espera. Eram cinco gavetas antigas e ruidosas, com cheiro de história. Mesmo ansiosa, mantinha a cautela. Andou pelo primeiro andar da casa, com medo de encontrar algo mais que a prendesse naquela loucura falsamente premeditada. Não tinha um bilhete, e ao perceber isso sentiu necessidade de vasculhar todo o local, na busca por palavras já escritas, que representassem toda a bagunça em que parecia ter se metido. Nada.

Entrou por uma porta aberta, sem chaves, nem privações. Podia sair, respirar e voltar para aquilo tudo o que tinha decidido banir. Pensou que não houvera, de fato, uma decisão, mas que precisava encontrar suas respostas. Ela não havia crescido naquela casa, muito menos conhecia seus donos. Se saísse, no entanto, gostaria que todas as pessoas estivessem mortas, que o mundo fosse um imenso depósito de toda a sua satisfação em estar viva, sozinha, para solenemente viver a mentira que era toda a sua existência. Ela, que queria ter tido uma infância difícil, correr mais riscos, ser bastarda ou qualquer coisa que o valha e se equipare a uma maldição. Não. Era simples. Era comum. Era igual a todos os outros.

Furiosa com a perda de tempo, cansada de cheirar e tatear as paredes daquela casa abandonada, ajoelhou-se em frente à penteadeira. Na primeira gaveta, muitos documentos, em uma bagunça que não combinava com a aparente importância dos papéis. Nada ali fazia sentido. Na segunda, várias peças de roupa feitas a mão, de lã, bem quentes, cachecóis, toucas, suéteres, meias. Tudo extremamente bem feito, extremamente abandonado às traças. A terceira gaveta era interessante. Cheia de livros que, com ilustrações maravilhosamente perturbadoras, apresentavam a concepção de uma vida em detalhes. O pequenino feto, as entranhas rasgadas da mãe, a cabeça que saíra para colocar a criança no mundo. Sangue que não acabava mais. Perdeu muitos minutos naquela gaveta. Descobriu coisas que jamais imaginara e sentiu pena das entranhas que a colocaram no mundo para ser livre.

Faltaram-na forças para abrir a quarta gaveta. Estava pesadamente trancada, sendo a única que apresentava uma fechadura de ferro, bonita, muito bem feita. Hipnotizada, prosseguiu, descobrindo a última gaveta totalmente vazia. Definitivamente, estava faltando o que procurava. Mesmo sem saber, encontraria naquele lugar, iluminado pela falta de cortina, por aquele sol que agora ela odiava. Percebeu ao encarar as janelas, que aquela parede tinha um branco diferente das demais, quase creme. Foi quando teve a certeza, e a ideia.

Tirou a quinta gaveta, bateu forte no fraco forro daquela que estava trancada, até que descobrisse uma forma de retirá-lo. Por uma surpresa que pareceu um sinal de pura coincidência, o forro soltou-se sem muito esforço. Caiu em suas mãos ardidas pela fricção com a madeira. A caixa que veio a seguir era vermelha sangue, quase de aspecto real, não fosse a claridade que denotava toda a simplicidade daquele cômodo. Após conferir o conteúdo não levou nem meio minuto. O objeto gelado passou a fazer parte de seu corpo, uma verdadeira extensão das mãos que a levaram para tantos lugares, inclusive a entrar naquela casa. Encostou-se na parede manchada, se escondendo inutilmente do sol que entrava com todo o vigor. Respirou fundo. Tudo ficou preto.

Jamais fora encontrada. A parede mudou de cor, definitivamente. Agora estava com cheiro de ferro e da cor daquilo que os sonhadores chamam de amor.

Em seu quarto, abandonado naquela manhã quente, as palavras finais voavam na finura de um guardanapo, fixado embaixo da xícara repleta de formigas.

“Eu não preciso disso. Eu nunca precisei”.

Ângela.

Publicado por: Letícia Nascimento em: 3 de janeiro de 2012

Ela acordou logo cedo, com muita dor de cabeça, a barriga recheada de fome e uma amnésia que teve fim ao lembrar do longo sonho da noite anterior. Havia sido um longo dia, desses em que faz frio e calor, intermitentemente. Durante a madrugada, sonhou por uma vida, com bombas-relógio, prédios infestados de gente morta, presságios do apocalipse, sequestros, comidas, sentimentos esquecidos. Seus sonhos, sempre característicos, diziam muito sobre ela, sem que soubesse. Se parasse para analisá-los, de vez em quando, perceberia diversos padrões, que especialistas apontariam como obcecada pela morte, gulosa, terrível relação com a família. Mas ela não gostava de sonhar, tampouco de fazer esforço na manhã de um dia cheio pela frente, para lembrar o que havia “atrapalhado” seu sono. Ela gostava de dormir.

Tomou remédio, abriu as cortinas, abriu as janelas, cambaleou cozinha adentro, percebeu que a geladeira estava cheia de coisas que não serviam para sua fome, constatou que talvez fosse melhor fazer uma boa limpa naquilo tudo – afinal, pra que usaria os três potes praticamente vazios de maionese ou aquele pedaço de queijo, já preto de tão estragado? Encontrou no fundo do armário, um pacote de bolacha e voou para o sofá, pronta a destruir a guloseima. Não ligaria a televisão. Na verdade, lembrou-se de que existia um aparelho televisor na casa, tamanha quantidade de tempo que não o ligava. Há muito tinha perdido totalmente o interesse por aquilo que era transmitido a tantas pessoas, que,aparentemente, se viam obrigadas a entrar em contato com aquilo como se, ao não o fazer, estivessem por fora de uma grande bolha social. Ela não. A sua bolha era única, própria e de mais ninguém.

O dia se arrastava lento, os flashs do longo sonho invadiam seus pensamentos, em contraste com o mundaréu de indecisões que a acometiam. Era apenas mais um dia. Entre todas aquelas nuvens, que iam e vinham, escondendo o céu e milhares de segredos, ela se sentiu perdida, sabendo que era pequena demais para tudo o que existia. Ela gostaria de acordar sem dor, saciada com o hoje, mas sabia que estava muito aquém do que podia, mesmo que de certa forma ainda não tivesse descoberto o que fazer. Tinha sede de desvendar todos os mistérios, despir as pessoas de todas as suas caras repletas de falsidade e moralismos mil. Tinha toda uma ânsia revoltada, explodindo de seu peito. Queria que tudo mudasse, que as nuvens escapassem do céu, que as pessoas tivessem consciência de sua pequenez, que a bolha imensa explodisse, inundando casas, apagando vulcões em erupção, que a Terra não precisasse mais de rotação.

Terminou a última bolacha do pacote, virou para o lado e dormiu. Os sonhos, dessa vez, não seriam recordáveis. A revolta passava ao terceiro bocejo, constataram as nuvens.

Aludra.

Publicado por: Letícia Nascimento em: 26 de dezembro de 2011

Eu sempre tive uma dificuldade inexplicável de me expressar simultaneamente ao correr das horas. Sem dúvidas, quando precisei “cobrir” o que estava ocorrendo lá fora, essa necessidade de rapidez me torturou. Talvez porque eu goste de desfrutar das coisas e sentir bem fundo o gosto de tudo antes de absorver – e então, devolver pro mundo -, talvez porque meu ritmo seja outro, talvez porque as maravilhas da vida devam ficar trancadas e mantidas em sigilo de euforia profundo, talvez ser como uma estrela, brilhar, e apenas cumprir seu tempo no universo. Não sei. Sei que por mais que eu queira dizer: alô, todo mundo, estou feliz e vou descrever os porquês, eu não consigo. Acho que nem preciso, na verdade.

Ontem, ele me disse que escreveria algo pra mim. Minto. O surpreendi enquanto escrevia algo, aparentemente pra mim. Eu jamais deveria pressioná-lo, mas precisava ocupar meu tempo acordada, os passarinhos me dariam sono. Ele desistiu da declaração e fui obrigada a dormir curiosa. Não é hora, ele disse. Ele que tem sido o responsável pelas minhas risadas mais bem dadas, pelas conversas mais gerais e ao mesmo tempo específicas, por meu conforto na Terra. Aliás, o conforto é algo intenso em nossa relação, transcende coisas menores e eventuais problemas que a intimidade acaba trazendo. Ele diminui o que poderia ficar maior – de um modo negativo – e aumenta o que realmente importa: o sentimento.

Depois de um fim de semana desses atemporais, cheio de vozes estridentes e lapsos nostálgicos de um tempo não vivido, percebo que a cada dia me sinto mais unida a ele. Sinto como se quando a melancolia resolvesse me abraçar, ele estivesse sempre ali, por perto, com a mão pronta para me segurar. Com ele, sem dúvidas, os momentos ganham outros valores e minhas sentimentalidades estão todas aguçadas. Não consigo nem sentir medo por não sentir medo. Só quero que ele esteja sempre comigo, em finais de semana atemporais. Só quero que ele não enjoe de toda essa intensidade-dramática-ciumenta que me acomete. Só o quero. Nada mais.

Às vezes, parece que tive tanta sorte que ganhei em uma espécie de loteria, ao encontrar alguém que me entenda e que me faça tão bem. Em outras, parece que isso estava predestinado a acontecer, simplesmente. E, às vezes, nas tardes cheias de calor, nem consigo pensar racionalmente sobre tudo. Só sei que é simples, e ao ser simples me anima, e ao me animar: me completa. E eu nem me sinto piegas, com isso. Já cogitei a loucura, um mundo paralelo em que fui inserida, sem ser consultada nem estar ciente. Mas é muito mais do que isso. É um sentir sem fim.

Acho que abandonei os diários pela repetição. Mas hoje escrevi no presente e nem doeu. Essas palavras precisavam se manifestar, pois estão correndo dentro de mim. São dias novos e indescritíveis esses, não? E dizem que estou no inferno astral. Cadê? Acho que não veio esse ano.

Um novo planeta.

Publicado por: Letícia Nascimento em: 14 de dezembro de 2011

Eu não esperava nada desse ano até o início de seu fim.

Em uma espécie de prólogo diário, hoje o céu fez a sua parte e acordou às duas da tarde, junto com os meus suspiros preguiçosos, antecipando com beleza e sinergia qualquer pensamento que representasse minha felicidade atual. Eu queria, honestamente, escalar a montanha invisível, que está entre meus sonhos e as nuvens, e pular lá do alto, observar tudo, na queda livre mais livre e demorada da história. De preferência cair em uma piscina. Aquela piscina. A sua piscina. Em que a água é mais quente, por natureza, em que as gotas grudam em meu corpo, como se fossem a extensão exata da sua pele. Em que alegria é sinônimo de próspero guardião.

Em uma proeza digna de fim de ano, me vejo em um novo planeta, como o Melancholy – só que melhor – o nosso planeta, cheio de estrelas próprias, que brilham de acordo com nossa conexão cada vez mais forte. Dentro de nosso espaço, as notas milionárias da simulação despretensiosa e bagunceira que inventamos representam possíveis futuros. Ao fim do jogo, jogo da vida, vida que dá medo, afinal a falência cheirou meu pescoço em segundos, só pude pensar que aquilo era pouco e não importava, perto da realidade que estava passando pelos meus olhos. Essa realidade deliciosa, em que braços são grandes o suficiente pra me prenderem, olhares são envolventes o suficiente para me desarmarem, lábios são tentadores, abraços são viciantes, em um todo de afeto e carinho que jamais senti.

Por todas as novidades, pela ressignificação das minhas madrugadas, pelo imã que gruda pensamentos, gostos, atitudes e todo o resto, por tudo o que nunca havia sentido, pelo gosto de quero mais, pelos momentos dramáticos, pelo ciúme de brincadeirinha e o real, por aquele sábado de madrugada, madrugada de domingo, pelas palavras abafadas pelo som dos batimentos cardíacos, por tudo o que só se fala com os olhos, pelo que só o toque entende, pela descoberta de um novo planeta habitado só por dois, por você…

Poxa, que fim de ano, vida.

The Strokes.

Publicado por: Letícia Nascimento em: 12 de novembro de 2011

Sempre imaginei como seria o momento em que, sem ter como voltar atrás, os avistaria de tão perto que seria difícil segurar o ar dentro dos pulmões. Apesar de imaginar, como tantas outras coisas, não contava, efetivamente, com tal astúcia. Era sempre um não-sei sem-fim. Eles poderiam entrar em um hiato eterno, nunca virem ao meu país, pensamentos pessimistas como a dona. Cogitar um show perfeito dos Strokes, uma das minhas bandas favoritas da vida toda, era muito pra mim. Até que tudo esteve na frente dos meus olhos. Aquela sensação que invadiu meus espectros e tem me dado forças para aturar o cotidiano sem a perfeição, essa tal de mortalidade.

Era um sábado, um sábado recente, vesti roupa de fã clube junto com uma pessoa apaixonada por eles como eu. Thaís foi a companheira de ansiedade, de uma espera absurda, que nos fez chorar com as possibilidades, com os momentos, com o fim. Eu tentei acompanhá-la, assim como Felipe, mas ela teve cotovelos mais fortes do que os meus para se aproximar de nossos ídolos. Depois de toda a espera espiritual, acompanhar os três shows que antecederam “o da vida” foi fácil. Difícil foi conseguir respirar quando todos os outros grandes fãs dos Strokes resolveram garantir o seu lugar. Entre atritos com playboys dissimulados – fãs de Beady Eye, pffff – e a sede por água e todo aquele repertório magnífico…eles entraram no palco.

Obviamente, as pontas dos pés não foram suficientes para visualizar cada detalhe possível. Estava tão perto que conseguia vê-los da cabeça aos pés, os detalhes das roupas e dos instrumentos, tudo na frente do meu nariz. As duas primeiras músicas pareciam meu inferno astral, tamanha falta de ar e desorientação que me acometeram. Pensei em desistir de viver, ali, entre os riffs tão esperados, mas o exagero ficava piscando, dizendo: pára com isso, eles estão aí, aproveite. Quando finalmente consegui absorver onde estava, o que estava tocando, quando pude pensar “vai dar tudo certo, estou viva, desmaiar é para os fracos”, eis que os amados (apelido da adolescência, com a eterna Ana Júlia Casablancas) começam a dedilhar The Modern Age e Fabrízio, com suas baquetas icônicas, me fez chorar feito um bebê. Bebê desses que acaba de nascer.

Depois disso, tudo foi ainda mais sublime. Alcancei o estado de observação ideal. Eu podia pular, cantar, vê-los nítidos como num vídeo de Mallick, mas ali, dentro do meu presente. Perfeição. Nada mais define esse show. Os Strokes no Brasil, minha vida acadêmica por um fio para o fim, meus sonhos e planos cada vez mais aguçados… Me senti mais próxima de um paraíso como nunca. E eu queria tanto que eles olhassem pra mim, como se fosse necessário dizer: eu gosto tanto de vocês, que poderia morrer aqui, agora, ou daqui a pouquinho, quando acordar desse sonho. Foi quando o menino que tem nome de gato, Eduardo, me proporcionou um dos momentos mais fantásticos da minha vida de fã inveterada. No meio de Alone, Together, ele me levantou do chão, sem que eu sequer pedisse, e me colocou frente a frente, em visão aérea com todos eles. Infelizmente, não sabia o que fazer com minhas mãos, que passaram de “mãozinhas de rock”, a beijos alucinados e acenos sem parada, até que Albie, no ápice de sua bondade, retribuísse o aceno como em um clipe strokiano. Meu dia estava feito.

Imagino que todos sejam fãs de alguma coisa, e acho até triste se uma pessoa não consegue gostar tanto de algo a ponto de quase ficar sem estômago esperando por ela. Vivemos nesse mundo cheio de fanatismo doentio, e por mais que pareça doença, a música dos Strokes me fez bem nos piores e melhores momentos da minha vida. Foi em um momento cabalítico da minha existência que eles surgiram pregando que ninguém iria entender, mas que a música estava ali. Pra ajudar. Idolatro-as, nesse sentido, sem medo de pieguices ou resquícios de aborrescência. Só me envergonho de não ter tido “pinto” suficiente para correr em direção ao palco, como tanto cobicei e prometi.

Os amados no auge da minha aborrescência.

Quando pensei que tudo estivesse acabado, eles voltaram para um encore que quase provocou a minha morte. Imagine, o que meu coração não sentiu, quando Jules e Nick voltaram sozinhos ao palco para Under Control na capela. Imagine, o que não tive que derramar de lágrimas ao, na sequência, eles tocarem Hard to Explain, possivelmente minha música favorita deles. Imagine qual não foi o poder de libertação quando encerraram o show da minha vida com Take it or Leave it.

De tanto imaginar eu cheguei lá. E sou tão mais feliz agora, que percebo que só eles, mesmo, me fariam me sentir assim. Só os amados.


Alguém que fala a língua do P e assovia.

Pitacos

Meire Todao em Sonhar.
Fernanda Tardin em Sonhar.
Naaathi M Costella em The Strokes.
Meire Todao em The Strokes.
Meire Todao em Tarde.
Fernanda Tardin em Manhã.

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