Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “abril, 2010”

Sobre gostar.

Eu gosto do vento nas árvores. De vidro fumê, dias nublados, milk-shake de cereja com brigadeiro, flores. Gosto de cachorros, passarinhos e joaninhas. De cheiro de pipoca, discos de vinil, cadernos de brochura, bossa nova. Gosto de fazer as unhas da mão. De roupas pretas, filmes antigos, comida chinesa, giz de cera. Gosto de conversar com crianças. De brincar com a Aretha, escovar os dentes, fanta uva, óculos de sol. Gosto de ganhar discussões. De jogar xadrez, miliopã com coca, all star, disquete. Gosto de coçar os olhos. De pôr-do-sol, cerveja, correr na areia, listras. Gosto de almofada gelada. De música alta, dormir na rede, comida da tia Su, nintendo . Gosto de molhar os pés no verão. De pão com manteiga derretida, papel em branco, canecas, batata frita.

Eu gosto de gente estranha. De gente alegre, desafiadora, inteligente, sarcástica. Eu gosto de olhos pequenos. De cabelo escuro, bagunçável, limpo, cabelos. Eu gosto de camisas xadrez. De costas, de pintas no pescoço, tatuagem, tênis. Gosto de conversar no telefone. De dar risada, me esconder, chegar depois, beijar. Gosto de educação. De justiça, solidariedade, sossego, carinho. Gosto de estudar jornalismo. De cinema, psicologia, teatro, literatura. Gosto da minha família gigante. De Alice, Vitor, Isadora, Ana. Gosto dos meus amigos. De jogar truco, festa de república, Terça Tilt, Pé na Cova. Gosto do que considero ‘música boa’. De rock’n’roll, mpb, jazz, samba. Gosto de causar sensações. De pensar, escrever, polemizar, sorrir. Gosto de muitas outras coisas.

Eu gosto de gostar do que gosto.

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Hoje eu acordei meio Sarah Lewis. Energizada. Duas lágrimas em frente ao dvd.

14

Novo. O que não foi visto. Ou tocado. De sabor desconhecido. Cheiro inimaginável. Voz indecifrável. Quero agora. Sem demora. Cansei do velho, do sem gosto, do virado pelo avesso.

Que se materialize ou apareça por obra do destino. Também topo uma coincidência bem feita. Seja qual for a crença, sem doença, venha, venha. E que tenha desejo de aventura.

Pra beijar na chuva, falar besteira, ouvir boa música, apreciar composições olhando o céu azul de nuvens tortas, costas relaxadas na grama, aquele cheiro de natureza. Selvagem.

Que faça meus músculos pedirem mais. Com um sorriso que continue nos olhos. Mãos firmes para segurar o inevitável. Delícia. Um dia, duas noites, uma vida de prazer intermitente.

Se pedir o novo é pedir muito, é muito o que estou pedindo, vida.

Pré-saída da porta verde e suas histórias…

– Mas que se danem os outros. O inferno são eles. Nem precisava ler o que Sartre, brilhantemente, escreveu.

– Você sabe que eu também não sou muito dos outros. Sou mais meu, minha cara, meu jeito.

– Eu só acho que tá muito curto. Não sei se vai ser uma boa experiência,Vitória. É como se você fosse um poço de sofreguidão sexual.

– Sofreguidão! (risos) Esse garoto usou um termo excepcional como esse. Sofreguidão! (risos)

– Qual é o problema? Não posso usar essa palavra só porque não tenho seus 76 anos de idade?

– Droga, rasguei a meia bem onde termina a porra do vestido. Alguém me ajuda,  por favor?

– Não tenho 76 anos, meu jovem, mas adoraria, de verdade. Eu estaria menos cansado, pois faria menos coisas. Só tenho medo de já ter criado um câncer ou que a tremedeira aumentasse.

– E aí nada de cigarros, certo?

– Nada de cigarros. Me empresta o isqueiro?

– Puta que pariu, perdi minha outra meia preta. Alguém pode me ajudar, por favor?

– Como assim você não tem o Wish You Were Here?

– Que isqueiro bonito, comprou onde?

– Eu não tô achando meu sapato vermelho. Mas que cacete de dia.

– Ganhei do meu avô. Bonito, né? Acho classudo.

– Ah, se não tivesse o Squeeze eu deixaria de ser amiga agora mesmo.

– Falta um pé da porra do sapato. Alguém! Bando de vegetais.

– Você tem um quê de homessexual.

– Eu sei, mas é só o quê. Pego mais mulher do que você três vezes. (risos)

– (risos) – Eu ouvi isso, bonito. Gente, ela tem o Tommy original! Passei.

– Tô pronta.

Com uma meia-calça salmão, sapatos vermelhos, vestido ‘nude’, óculos escuros e os cabelos em um coque mal-feito. Vitória estava pronta. Loirinho pegou o isqueiro da mão do senhor e foi elogiá-la. O senhor achou a combinação estranha. Preferia Penelope, com os cabelos soltos, sem muita maquiagem, vestido preto e as pernas largadas entre os discos de vinil da vizinha.

Foram ao teatro, assistir um compêndio sartriano. O lugar nunca mais foi o mesmo. Nem eles.

#

Hoje acordei meio Piaf. Com dor, drama por todos os lados e um “pau no cu, mundo” bem gritado.

13

Já dobrei o papel cinco vezes. O origami não funcionou. O remédio ainda não fez efeito. Não é tédio. Nem cansaço. É vontade. De pegar as roupas no chão do quarto zoneado, enfiar em algumas malas, partir. Rumo ao imprevisto. Àquilo que não é sagrado. Sem medo de errar, de pedir licença, de aloprar. Ir.

Deixaria um depoimento para os amigos mais próximos. São meus queridos, não sei viver sem eles. Volto logo, eu diria. E voltaria. Só um tempinho, sabe? Aqueles cinco minutinhos a mais na cama, aquelas gotinhas a mais no banho, aquela última cerveja quando já se está de porre. Só um pouquinho de sossego.

Se fosse fácil iria agora. Vestiria um moletom na Aretha, colocaria em uma mochila, com ração, pasta e escova de dentes, bolacha de gergelim. Juntaria as moedas, reviraria todas as bolsas, daria um beijo em minha irmã, escreveria umas cartas e deixaria escondidas para meu pai. Um telefonema despreocupado para minha mãe. Tchau.

Pegaria uns livros, uns filmes, umas músicas, uns chocolates, uns papéis, umas canetas, um lápis, uma caneca. Provavelmente, nesse momento, eu já teria dois sorrisos no rosto. Um na boca, com frio e nervoso, outro nos olhos, ansiosos pelo que viria a seguir. No estômago uma festa. Ansiedade.

Se fosse fácil, eu largaria o que me estressa, o que me dói, o que me cansa. Rasgaria a responsabilidade. Quebraria o que não entendo. Esqueceria o que não importa. Paz.

Eu quero paz.

12

Cabelo cortado.

Sete quebrado.

Celular desligado.

Estômago zoado.

Horóscopo errado.

Noite, madrugada, manhã, tarde.

Terça-feira. Quarta-feira.

Um bom encontro é feito por dois.

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