Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “junho, 2012”

26ª Madrugada

Odeio dias ensolarados. Odeio o azul claro intenso, o sol que parece dar gargalhadas na minha cara, as nuvens que me fazem inveja, tão altas e distantes do dia horripilante que tenho que viver aqui embaixo. Odeio dias ensolarados porque eles representam a beleza e a alegria que a vida não tem, não por completo. Eles dão a sensação de que uma ilusão, muito distante de nós, é melhor do que qualquer coisa que podemos vir a fazer um dia. Provavelmente, isso está muito certo.

Odeio dias ensolarados, mas odeio tantas outras coisas que sou considerada uma pessoa que odeia. Não sem motivos, gosto de acreditar, mas apenas porque não vejo muita graça ou vantagem ou incentivo em muitas coisas. Também não faço parte do time de gente que acha que gostar de todo mundo ou de tudo vai fazer do mundo um lugar melhor. Gentileza gera gentileza e também gente folgada. E eu odeio gente folgada.

Hoje o dia estava, estupidamente, ensolarado. Ele estava jogando na minha cara que minha vida está de cabeça pra baixo, que não tenho um emprego dos sonhos, que minha barriga está roncando e estou sem dinheiro pra comer, que a vida parecia menos inóspita quando eu tinha sete anos de idade, que eu não posso mais acreditar nas pessoas – nunca por completo, não mesmo -, que eu tenho uma montanha de decisões pra tomar, todas, preferencialmente, de forma racional…Sabe? Aquele céu azul “lindo” estava tirando um sarro imenso da minha cara.

Ando um pouco mais revoltada do que de costume. Talvez porque as coisas estejam mais irritantes e revoltantes, talvez porque essa falta de sentido pra vida canse a qualquer um, uma hora ou outra. Sei que das relações sociais existentes, tenho suportado bem poucas, que eu tenho andado de mãos dadas comigo mesma pra não desfalecer, que, infelizmente, minha falta de confiança nas pessoas chegou a um nível alarmante, do tipo: não deve existir ninguém que se interesse por um pouco mais do que a superficialidade intensa. Ando com raiva de gente que se diz de uma forma, enquanto na prática, oh céu ensolarado!, age de modo egoísta, e acaba se importando apenas com as suas emoções.

Esse é um ode à solidão. Eu sempre bato nessa tecla, de que deve ser melhor ficar sozinha mesmo, encaixotar o que importa e ir embora pra um lugar só seu, que te dê calma e espaço pra trabalhar naquilo que  te faz bem: a sua alma. O lance é que a cada dia que passa, me sinto mais sozinha nesse túnel escuro chamado vida, por onde tenho obrigatoriamente que passar, eu que sou covarde demais pra soluções mais drásticas, eu que não passo pelo ralo, eu que preciso trabalhar pra fugir, eu que odeio…

Talvez seja triste constatar isso, talvez seja até tardio. Mas nessa madrugada insone, meu abraço próprio – aquele em que envolvo meu colo e minhas costas com meus braços arrepiados – me parece a única forma de dormir bem e em paz.

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Hoje eu acordei com aquela vontade de absurda de ir embora, pra longe, mais longe do que eu consigo imaginar. Me vi com uma compilação de coisas que amo em volta de mim – de livros impressionantes a músicas que me fazem arrepiar, sem esquecer de todos os meus filmes favoritos, que de tão “meus’, se fazem parte minha -, jogada em um sofá macio e extremamente confortável, repleta de uma serenidade digna das pessoas solitárias, que conseguem, com pouco, suportar o muito que é estar perdido por aí. Sei lá…deu da cidade.

 

25ª Madrugada

Aquecida em uma madrugada fria, sinto-me de volta. Não ao ponto em que parti, porque não cheguei a ir, mas ao lugar em que deveria estar. Voltar me deixa contente, pois sempre sinto muito falta quando estou longe. Ou dos meus pensamentos mais internos – consequentemente intensos – ou de um cotidiano que me force a ser criativa e produzir o que fica preso no gargalo da imaginação.

Preciso sempre de uns puxões de orelha, doloridos, de preferência, pra me colocar no eixo do que é melhor pra mim. Não que eu esteja novamente solitária, ou novamente sem ter no que pensar emocionalmente. Pelo contrário. Nunca estive tão nutrida de sentimentos, os mais nobres possíveis. A alegria, assim, só pode ser duplicada.

Quando a gente baixa as expectativas é muito mais fácil conviver com a vida lá fora. Com a vida aqui dentro também. Toda possibilidade é grande e significativa demais pra que se trace todas. Não que eu tenha aprendido a esperar, mas desde que imaginei um futuro em branco, sem nuances ou cores premeditadas, esperadas ou necessárias, tem sido mais fácil respirar.

Às vezes é pensando menos que se sente mais. E nessa madrugada de tosse desmedida, está muito mais interessante ouvir os ruídos minúsculos lá fora do que imaginar “o que será que será”.

As madrugadas voltaram.

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