Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “julho, 2010”

20

Continua com suas paixões instantâneas. Basta um olho pequeno, um cabelo, um par de tênis, uma camiseta divertida, um sorriso gostoso, um sotaque com ritmo, uma cara de safado, uma conversa interessante sobre cinema, uma cerveja gelada, uma pose de blasé, está ela ali, apaixonada, de quatro, numa metáfora a mais desconexa possível, ardendo de paixão imediata, até que seus olhos desviem a atenção para outro grande amor. E podem ser vários em uma noite só. Às vezes, beija, às vezes, só deseja. Às vezes consegue conversar, na maioria das vezes consegue travar. Sexo é palavra de lei, mas não pratica esse diálogo com qualquer um. Gosta de vários. Gosta de um. Gosta. Desgosta. Não gosta. Não sabe se vai conseguir ser uma pessoa que namora. Precisa aprender, dia após dia, o senso de compromisso. Converse sobre tudo, sobre banalidades, faça-a dar risada e não se importe quando ela for embora sem dar tchau. Assim, as chances de dobrá-la em uma paixonite estendida aumentam. Mas ela o quer. Não, ela não o quer. Adivinhe quem puder.

13ª Madrugada

Estou sem tempo pra vida. Muito trabalho, muitas coisas pra pensar, muita falta do que dizer. Boas notícias: ele sumiu dos meus sonhos, a catalepsia projetiva não dá oi há semanas, um mês, sim, sem fumar. Comprei uma lâmpada maravilhosa para o quarto. Projeta cores variadas e deixou o ambiente tipicamente cigano. Até que enfim. Investi também no bar. Consegui adquirir um pequeno arsenal de bebidas maduras, divertidas, insanamente alcóolicas. Mas não bebi quase nada. Acabei com uma Cirôc, ontem à tarde. Eu e o meu vizinho.

A arte de conhecer a vizinhança. A falta do escasso tempo – que nunca vou ter – fez minha caixinha de correspondência transbordar. Cheguei correndo esses dias, queria ducha e cinema – os filmes deviam ficar em cartaz numa sala pra gente ocupada – e tomei um susto. Um vizinho estava socando, esse é o termo, a revista cultural e mensal assinada pelo ex-fulano-de-tal. Colocaram na minha, desculpa. Tá desculpado, preciso esvaziar a minha, desculpa. Tá desculpada.

Três manhãs depois descobri que o cara que corria sempre na minha frente – o maldito que eu nunca consegui alcançar – era ele. Belas costas, camiseta cinza e um cabelo bonito, brilhando testosterona…combinação meio explosiva pra mim. Nesse dia pegamos o elevador juntos. Ele é do 11º, eu sou do 13º. Não é supersticiosa? Jamais, imagina. E dentro de mim aquela vontade incontrolável de soltar: mas, desculpa perguntar, qual é o seu signo mesmo? Só sorri, claro.

Depois, eu atrasada para o churrasco de família – tudo para animar meu irmão, que resolveu perceber a cagada que fez com a mulher e o filho (traição, vizinho, eu não admito não) – cruzei com o das costas e cinza, que estava, destinadamente, com uma camiseta do Trainspotting, uma Stella Artois na mão e um livro de capa azul na outra. Puta que pariu que era A hora da estrela e eu queria muito soltar: mas porquê você é gay? Algum sarcasmo tosco da vida? Mas fiquei quieta e senti cheiro de coisa inodora no ar.

Hoje abrimos aquele líquido azul desprezível, nem lembro o nome. Ele frequenta minha casa desde o dia em que cai em cima dele no hall, cheia de malas – viagem dessas de restaurar gente que terminou o namoro e não superou direito, sabe? A história é longa, mas ele tem me feito bem. Não é meu tipo físico – acho que é malhado demais, acredite, eu sou dos estranhos – mas tem bom gosto e uma timidez que sacode meu lado maternal. Estou longe de ficar com ele, não o imagino caindo cansado do lado esquerdo da cama com cara de bobo. Não.

Amizades inesperadas. A vida tem dessas.

Similaridades.

Quando eu era mais nova e, consequentemente, tinha mais tempo, um dos meus passatempos favoritos era buscar semelhanças nas músicas que escutava. Muitas vezes, ouvia uma música 00′ e lembrava que já tinha ouvido aquele riff em alguma música dos Topnotes. Imagine, por exemplo, quão grande foi minha surpresa quando, desligadona por natureza, ouvindo as músicas que parece que só meus pais tem no mundo, descobri que Twist and Shout era deles e não dos Beatles. Sim. Um baque, não?

Eu também separo minhas inserções musicais em duas partes. Sempre dou o benefício da dúvida para bandas que não conheço, ainda mais se são indicações de amigos – primas caçulas, não vou mesmo ouvir Restart, Fiuk ou Luan Santana, amores. Primeiro escuto melodia, depois letra, ou vice-versa. Se eu gosto escuto muitas vezes e por aí vai. Isso deve ser o tipo de coisa que é universal, enfim. O lance é que estava ouvindo Fiona Apple e de repente, click, rola uma familiaridade com Rachel Yamagata.

Tô louca então? Obviamente, as introduções não são iguais, senão já teriam anunciado o plágio por aí. Mas a delícia de descobrir similaridades é que você está sossegada e vem o estalo do: opa, parece aquilo lá. Posso estar delirando – e delirar é uma arte divina – e caso você não faça nenhuma associação nos 20 segundos iniciais das duas músicas, ficam as indicações de duas grandes vozes femininas. Admiro as duas, há um bom tempo, com uma pequenina predileção pela Yamagata. Sua I wish you love me salvou das trevas da primeira desilusão amorosa da minha, até então, inconsequente vida sentimental.

Sem mais enrolação, as músicas:

A marcante:

A marcada:

Outro.

Aí, que são férias e eu fico a maior parte do tempo com as pernas jogadas pro ar, leio o máximo que posso, assisto muitos filmes e tento me ocupar das mais diversas – e deliciosas – formas. Mas nem sempre é suficiente.

Aí, no ápice da minha desocupação resolvi voltar a ter um espaço pra colocar fotos e algum texto referente, tipo um fotolog. Fiz um tumblr com essa finalidade então. O blog continua aqui.

19

Acha que é importante, que veio ao mundo para algo além do ócio, do coçar constante. Acha que precisa aproveitar tudo. Que gostar do mundaréu de coisas que gosta é quase um crime, já que não tem condições financeiras para acompanhar tudo. O muito é caro. O muito bom é milionário. Quer ganhar na mega sena. Detesta trabalhos domésticos, excesso de simpatia e pessoas que não comem carne, ou melhor, que tentam convencê-la a não comer carne. As pessoas não deveriam convencê-la de nada. Sente que sabe de tudo o que precisa saber, menos quem foi o criador das formigas. Se foi uma mulher, a ordinária deve ser ruiva, sem dúvidas. Tem medo de ser narcisa, pois vira e mexe escreve sobre si. Vira e mexe fala de si. Vira e mexe: si. Infância comum. Brincava na rua com os amigos, mas gostava mesmo era de ficar sozinha, em casa, criando mundos paralelos na sala de estar, no quarto da mãe e no fundo da casa. Hoje tudo isso perdeu o valor. A sala de estar perdeu a mobília, o quarto da mãe perdeu a mãe e o fundo da casa perdeu a claridade. Tudo mudou, nada mudou.

Alguns minutos.

Casa.

22:09

Ela contou um segredo, eu silenciei, contei uma coisa antiga, nós rimos demais, o lanche era muito grande, não aguentamos. Tinha um pirralinho lindo, chorão e muito rabugento pra idade. Minha teoria: ele não queria estar de terno e, sim, com uma roupa de frio de criança, normal. A teoria dela: essa coisa de religião não permite é complicada. Concordamos contra a falta de liberdade religiosa. Eu choraria se não pudesse picotar meu cabelo, quase mensalmente, a cada necessária mudança de postura existencial.

Não sei se esse creme para o rosto vai derreter a maquiagem mais rápido, desculpa. O arquinho ficou bom pra ela, os cabelos são escorridos, meio hollywoodianos. Uma é da tatuagem, a outra é do piercing. Pra tatuagem ela não tem coragem, pra piercing eu não tenho vontade. Ela está meio loura, estou com o quase preto de sempre. Vamos de salto. Ela vai passar sombra nos meus olhos, vou prender o cabelo dela.

Seu nome é Ana, como na canção, é muito doce quando é doce. Meu nome é Letícia, como na canção, ando pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome. Não somos pretensiosas juntas. Não omitimos as coisas. Talvez nos falte modéstia pra tudo, pois juntas somos um tipo de dupla imbatível. Ela está quase namorando. Eu quero morar na Rússia. Um dia a gente chega lá.

22:17

Rua.

Lembranças.

Foi uma escolha complexa. O filme me atraía, mas o preconceito é uma coisa que acaba com as pessoas. Era o Rob Pattinson lá – muso da saga Crepúsculo – e não consegui esperar muito. Terminei de assistir Remember me (título original) e estou triste como dia de calor sem praia. Me surpreendeu porque eu esperava algo muito ruim. Mas foi médio-bom. Por mais prevísivel que o roteiro pareça e por favorecer muito a imagem do namorado da Kristen Stewart (se não estiverem mais juntos, minhas desculpas), tem bons coadjuvantes e algumas surpresinhas. Acho até meio complicado criticá-lo com narrações da história ou de cenas, com medo de deixar você esperando alguma coisa do filme. Melhor nunca esperar, acredite.

O básicão do filme que preenche buracos com música: Tyler (Edward Cullen/Rob Pattinson) perdeu o irmão mais velho, que cometeu suícidio, e vive em um dilema interior sobre o que fazer da vida e com a relação conturbada que tem com o pai (Pierce Brosnan). Em contrapartida, nutre grande amor e amizade pela irmã caçula, a talentosa Caroline (Ruby Jerins). Tyler acaba sendo preso por um policial temperamental (Chris Cooper nasceu pra bater), pai de Ally (Emilie de Ravin), que perdeu a mãe com 11 anos de idade. Unidos, de certa forma, por duas grandes perdas, os dois vivem uma história de amor, que acaba ficando em segundo plano, numa história que não aborda algo muito específico, mas que está lá. Ou não.

O final foi bem surpreendente pra mim, mas não sei até que ponto isso está relacionado com o fato de que não li nenhuma sinopse ou crítica antes de assistir.  Com certeza não esperava nada do terror das menininhas que, obrigada,  não estava branco como de costume. Senti um pouco mais de maturidade na interpretação; mesmo não sendo digna de um Oscar, também não vale um Framboesa.

C'mon, babe, light my fire!

É uma gracinha o rapaz, admito. Mas nem pinta no pescoço ele tem…Mantendo a mínima decência e um pouco da seriedade,  taí o trailer da parada:

Descobertinhas.

Eu gosto um bocado de música brasileira. Sem querer ofender família nenhuma – Restarts ou Calcinhas Pretas da vida – tenho lá minhas boas preferências. E gosto é essa coisa mesmo: o meu vai ser sempre melhor que o seu e vice-versa. Sendo assim, entre minhas constantes aterrisagens em outras dimensões, através dos meus grandes ídolos musicais – das melhores bandas do mundo aos melhores cantores do universo – curto descobrir a galera que está na cena, aqui e agora. De algumas viro fã incondicional, tipo Vanguart, Ludov e Silvia Machete, e outras, sem o tradicional ciúme musical, gosto de apresentar pra todo mundo. Ultimamente, ouvi várias “novas cantoras de MPB”, rótulo puta injusto, e gostei dessas que vou compartilhar:

1) Karina Buhr

Esse sotaque reforça de uma forma quase poética a sonoridade dessa nordestina. Tava zapeando canais com a @desimolina, paramos pra ver clipe na MTV e vi que vai estrear clipe novo dela no Lab. Acho que os Labs, inclusive, são as únicas coisas boas da programação atual. Enfim, achei o blog da Karina que também é desenhista, li o post dela sobre o dia 8 de março, internacional da mulher o caralho, me identifiquei e cá estou a gostar ainda mais dela. No site, fotos e vídeos. É, da Karina já virei fã, quase sem volta.

Outras músicas boas: Plástico bolha, O pé, Vira pó.

2) Mônica Feijó

Nem lembro onde ouvi pela primeira vez, mas foi a música Amigos bons, que começa assim: “Hoje acordei de susto/ do ronco da minha barriga com fome/ enquanto sonhava/ que estava jantando com uns amigos bons”. Letra de música é 40% pra mim. Parei pra prestar atenção e descobri uma sonoridade meio pop, que em certos momentos até lembra Fernanda Abreu, mas bem diferente do que tá por aí. Gostei e essa música Par não é do cd legal Aurora 5365, mas achei a interpretação cheia de intenção e classe.

Outras músicas boas: Esquina, Eu tenho pressa.

3) Sylvia Patricia

Ah, Sylvia Patricia já tá por aí faz tempo, mas essa música é uma tetéia, o amor é foda e, como ela não é das mais conhecidas, fica como indicação aqui também.

Outras músicas: Cenas de violência e tensão, Marca de amor não sai.

Agora que desatei, vou falar de música sim.

Diálogo.

– Esmalte fosco é uma bosta.

– Comprei um meio cinza, mas achei velório demais. Gosto dos mais claros.

– Esse cinza é bonito. Sabe aquele roxo da semana passada? Se quiser te empresto.

– Não, gosto dos clarinhos mesmo. Mas pra você ficou lindo.

– Puta que pariu, que sono.

– Tá bocejando de cinco em cinco e eu não te acompanhei. Viu como sou contrária ao universo?

– Penelope, o fato de você estar ligadona não tem nada a ver com simetria universal.

– Não tô ligada. Desde hoje cedo não tomo nada.

– Hora do almoço?

– Mas são horas!

– Vou desligar a  panela.

– Desligar a panela…pff.

Vitória desligou a feijoada branca, cuspiu na cumbica de Penelope e seu dia estava pronto pra começar.

– Gente chapada é uma desgraça mesmo. Taí sua sopa.

Penelope respirou fundo.

– Sopa…depois eu que tô chapada.

18

Escreve, apaga. Crise criativa não define. Talvez seja o turbilhão de sentimentos que não a deixam respirar direito quando dorme. Não, isso é apnéia do sono. Tem quase todas as doenças do sono. Quando criança a mãe a perseguia pela casa, madrugada afora, para evitar que batesse o rosto pequenino e cheio de bochecha nas paredes. Sonâmbula. Bateu na técnica do vôlei, conversa em xingamentos com o primo que não vê há tempos, grita, chora. Tudo dormindo. Quando dorme. Desde criança, fechar os olhos é sinônimo de sonhos complexos, que agitam os neurônios, impedem o relaxamento total. Insone. Sem muita paciência para descrever o resto: catalepsia projetiva – assustador mas, cinematograficamente, fica lindo. Esqueceu os outros distúrbios. Mas a memória é boa. A visão também. Perdeu o olfato. Viciada em miparamina, oximetazolina, terminou em ina, está valendo. Contraditória. Gosta de queijo, mas não toma leite. Odeia peixe, mas tem aquário. Ama e finge que odeia. Odeia e finge que não conhece. Conhece e finge que não vê. Não vê e finge que existe. Conturbada não é a palavra. Desocupada, talvez. Gosta de terminar tudo o mais rápido para aproveitar as desobrigações da vida.

FIM.

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