Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “setembro, 2010”

Ontem.

Viver de extremos. Desde sempre. Para nunca mais. Bastou abrir os olhos e sentir a chuva intensa, por trás das cortinas do quarto escuro. A melancolia linda da vida que não é triste, mas que vive das recordações felizes. Nostalgia abraçou o presente e fez lembrar. Dos dois. Aqueles opostos. Extremos. O que mais me amou contra o que mais amei. O que sempre vai gostar de mim contra o que me odiará pra sempre. Vida. Quem explica?

Ele tinha a minha idade e éramos do mesmo tamanho. Durante anos fui mais alta do que ele, mas estávamos naquele ponto em que o menino consegue, enfim, ultrapassar a menina. Uns 11, 12 anos. Eu tinha uma caixa de tênis da Adidas, tênis da minha irmã – eu lembro que eu gostava tanto de All Star que achava Adidas tênis de menino jogador de basquete (qualquer modelo) – enfim, era uma caixa de tênis cheia de cartas, bilhetes, cartões. Tudo escrito com aquela letra-garrancho, que até hoje é melhor que a minha. Joguei a maioria fora. Só guardei um cartãozinho que veio junto com o primeiro buquê de rosas vermelhas. Era um casalzinho de crianças, no melhor estilo romântico-infantil-junte-com-uma-frase-do-Vinícius-de-Moraes. Guardei também a última carta. Porque era a última, claro.

No começo éramos amigos. Bons amigos. De videogame, tênis (tentativas frustradas de), corridas de bicicleta, cinema, Mc Donalds – ele me trazia Big Mac em casa, gelado mas com muita mostarda no pacote – e tudo o mais que a imaginação nos permitisse. Era um querido. Dificilmente brigávamos, raramente brigamos, aliás. Mas aí, numa festa junina, dessas que ocupam uma quadra inteira da rua que não é a da nossa casa, ele rasgou o laço. Me trouxe uma paçoca e disse que precisava conversar. Na hora levei um susto, pensei que alguém tivesse morrido, mas ele disse pra eu comer aquela paçoca enquanto ele falava o que queria. Previa minha reação: nada doce.

Depois disso vieram os telefonemas musicais.

– Letícia, tudo bem?

– Sim e você?

– Bem. Espera aí, que meu pai tá me chamando.

Eu suspirava um tá e ele subia o volume de uma música melosa, que eu, de antemão, detestava. Me restava esperar. Depois veio o cachorro, alguns buquês e o dia em que tive de dizer:

– Sinto muito, mas eu não gosto de você. Não desse jeito.

Como amigo eu, realmente, o amava. Ele tinha paciência pra minha falta de paciência, jogava todos os jogos que eu gostava e a gente podia passar uma tarde inteira tomando geladinho de leite condensado com pedaços de chocolate e conversando. Nós nos sentíamos mais maduros que os outros da nossa idade. Sentirei saudades eternas dele. E, principalmente, de todo o carinho que sempre teve por mim. Às vezes – e isso me ocorreu hoje – sinto que nenhum outro rapaz vai me dar toda a disposição e atenção que ele me deu. Mas aí, lembro que sim. Que vai sim. Que talvez não seja mais o um, aquele, o que me odeia tanto. Mas vai. Alguém vai. Vai.

Ele gostou de mim por mais uns quatro anos depois que perdemos contato. Sei disso pela última carta. Encontrei no meu baúzinho de memórias a carta resposta à última carta. Escrevi dois anos depois que a dele chegou. Nunca mandei. Nela desejo felicidades, peço desculpas pela música que ele teve que ouvir o colegial inteiro: “ela pisou na fulô, pisou na fulô” – porque algum dos meus amigos otários espalhou que eu estava dormindo quando o buquê dele chegou e chutei pra fora da cama. Nela eu digo: seja feliz. É o que pretendo também.

Crise

– Eu só pedi cinco minutos de conversa diária e sóbria. É pedir muito?

– Arthur, eu não te entendo. Chego em casa todo dia, acendo um cigarro e pergunto sobre o seu dia.

– E aí você começa a beber e fumar e não ouve uma palavra. Minha próxima frase é: você tá viva, Vitória?

– Eu tô viva, caralho! Pra que me perguntar isso? Tô conversando com você.

– Tá vendo!

– Arthur…

– Eu sei que fica chato essa coisa de eu parecer carente e sei lá mais o que eu devo te parecer. Mas eu te amo, Vitória. Precisa de diálogo quando é assim. Só o sexo não resolve.

– Mas o sexo é tão bom…não é?

– Vitória?

– Hum. Nham. Ham?

– Vitória, fecha minha calça. Temos cinema em 15 minutos.

– Deixa pra amanhã.

– Amanhã é a minha apresentação.

– Então baixa no computador depois.

– Vitória?

– Hummm, nhaaaam, ham?

– Meu pau vai ficar mole.

– Cacete, por quê?

– Porque eu tô puto com você.

– Então me bate?

Arthur assistou a estreia sozinho e Vitória, bem, fumou um cigarro depois.

18ª Madrugada

E já dizia meu pai: para esquecer é preciso parar de pensar a respeito, ocupar a cabeça, desanuviar. Lembrei daquela dos hermanos: não te dizer o que eu penso, já é pensar em dizer. Mas percebi, mais uma vez, que é deixando de falar que se supera. Alguns maus seis meses depois, chegou a hora. Acabou.

Evitei durante muito tempo pensar sobre o que eu fiz. Sempre coloquei a culpa de meu sofrimento e momentos de solidão não desejada nele. Ele era o insensível, que me deixou jogada às traças e às perspectivas alcoólicas. Ele que desligava o telefone na minha cara. Ele que era o vilão da história. Não. Assumo minha culpa. Sem saber do meu sentimento – e talvez do dele – consegui falar coisas irreais para feri-lo e…essa é difícil: trair. Sua confiança, suas expectativas, seu compromisso comigo.

Era um dia de calor, eu tinha bebido too much tequila, cerveja e uma certa solução misteriosa, corri meia cidade para chegar a uma das festas mais lotadas em que já estive. Não lembro de quase nada, apenas do fim, em que ele já havia decidido não falar mais comigo, sequer olhar em minha cara. Foi bondoso e me abrigou aquela noite. Não sei como. Nem tenho mais o que dizer. Depois disso, tudo ficou cinza, os dias alegres acabaram, evitava as ligações, resolveu sumir.

Mudou as roupas, o cabelo, desapareceu. Mudou os lugares que eu continuei e continuo frequentando, mudou o jeito de falar com as pessoas. Mudou. Descobri por esses dias que aumentou o cigarro, começou a andar com mulheres estranhas, sem muito futuro. Imagino que tenha canalizado as ligações, extremamente frequentes, para outra pessoa. Assim como as cervejas, os planos para um futuro bom, as histórias de velhinho pra boi não dormir. Ah, vou sentir ainda mais sua falta depois disso.

Ainda hoje, logo pela manhã, lembrei de nosso último dia juntos. De como segurou minha mão, meio que medindo o tamanho de um sentimento, vendo se tinha cola – e eu soltei as mãos, pois não era dada a demonstrações públicas de afeto; tinha medo. Ele mexeu na flor vermelha que estava no meu cabelo e fiquei brava, tentei arrumar e perguntei se estava certa. Ele não soube responder, mas disse: está bonita assim.

Não posso mais lembrar dele agora. Nem falar, nem esperar, nem desejar. Vai ser triste no começo e difícil até o fim. E, sabe, lá no íntimo, no fundinho da alma vou desejar, para daqui uns cinco anos a gente se encontrar. Pra casar numa feira, comer frango no domingo e levar os cachorros pra passear.

Mas vou esquecê-lo, por agora.

FIM.

Marisangela.

“Que nome!” Eu ainda estava na barriga da minha mãe, quando seu amigo, em um momento de profunda inspiração, disse isso sobre sua graça. Descobri, fuçando seus diários e cadernos, alguns segredos da menina cheia de pimenta que foi. Pimenta doce, mas sempre pimenta. Lembro de quando tinha um cabelão meio louro, meio enrolado e usava as saias pretas cós-alto, com as blusas de gola de lã por dentro. Era moda. Era magra. Era ela. Minha tia Mari.

Dos agradecimentos que devo fazer a ela, o principal e que me dá mais gosto é o do cinema. Ela o inseriu bem cedo em minha vida, fazendo sessões incansáveis com grandes clássicos, filmes de chorar, filmes de dormir, filmes. Munidas de Coca Cola e Miliopã, nós discutimos a sétima arte desde sempre e agradeço, publicamente, meu amor ao cinema e a ela. Também agradeço todos os presentes, os jogos, a companhia para o xadrez, o Scrabble, os jogos de circo e de palavras.

E as páginas dos cadernos. Tenho em meus baúzinhos de memória, uma porção de folhas preenchidas com carinho, conselhos, ironias e aquela encheção de saco que só ela sabe fazer. Assim como os trotes na família – ela quase destruiu a minha, antecipadamente, em um Natal na chácara (história pra livro). A mania de convidar todos para churrasco na casa dos outros e sair de fininho, toda a sua arianidade, insuportável e cativante.

Quando casou, fui florista e encobri os noivos na foto final – eu sou alta, né? Tive medo. De perder a companhia, a dedicação que ela tinha por mim, a diversão. Tivemos sorte, pois seu marido cozinha bem, gosta de filmes e de todos os jogos. E ainda a atura. Quando ficou grávida, fiquei feliz. Quando vi Isadora, a menina mais inteligente do mundo, tive orgulho. Aquela chata tinha conseguido botar um gênio no mundo. E linda. Lindas.

Acabei de ligar para ela, só pra confirmar o que já sabíamos: eu sou bruxa e antecipei que seu novo bebê seria menino. Sonhei com ele, dias antes da boa notícia. E ali, pelo telefone sem fio, ela me disse com aquela voz – que havia me enganado cinco minutos antes – cheia de sono: e você vai ser…a dinda do Bernardo. Nesse momento, nem quero mais trocar o nome. Me apeguei a ideia dele em meu colo, com olhos e cabelos de Marisangela, pra eu poder dizer: – Que nome!

Tia Mari, eu te amo do fundo do meu coração, pra sempre!

Marisangela com a extensão de sua personalidade, Isadora.

Para ele(a)s

Aí, que eu penso muito em morte. Na minha, na dos outros, no que ela faz com toda gente. E, às vezes, me questiono: e se não der tempo? Como vou dedicar tudo a todos? E se eu ficar viva por mil anos, mas não publicar coisa alguma? Dedicarei então, sem cobranças, sem ordem de importância, sem motivos explícitos. Vou com o coração. Todo ele, para quem o merecer.

Situações: alguém saiu de casa.

Situation number two – Ситуация номер два – Deux nombres situation

13/04/00

Stop. No papel eram dez itens. Seja rápida, seja rápida. Mãe e filha brincavam. Alerta. Qual é o nome da fruta? Goiaba. Pai e filha brincavam.

Era um sábado ensolarado, não muito quente, tinha uma brisa, Melissa cantava. Sentada no quarto, selecionado um vestido – lilás, algodão rodado, estilo camponesinha nórdica (é branca) – passava os últimos minutos de espera cantando. Na sala, três portas e uma copa adiante no corredor cheio de espelhos e quadrados, sua mãe chorava. O pai, sentado em frente à janela, impassível. Ouviu uma sequência de gritos, porta batida, um carro saiu. Desligou a música, esperou uns dois minutos. Nada de lágrimas. Foi conversar com o pai.

Ainda olhando para fora, indiferente aos passos pesados e suspeitos de Melissa, fechou a janela. Com medo de encarar os olhos indecifráveis do pai, ela resolveu fechar os seus e sentar no chão. Passagem bloqueada, ele deu meia-volta, sentou no sofá de camurça bordô e acendeu um cigarro. Chamou-lhe de Mel, esperou que atendesse e ofereceu. Ela se rastejou, meio gata, meio preguiça. Dois tragos e apagou. Por quê? Falta de amor. De quem? Dela por mim. Duvido. Então pergunte a ela. Cadê? Ela foi embora.

Talvez tenha levado três dias, talvez nove, ela diz que uns 15, para que a ficha de Melissa caísse. Sem mãe, se viu perdida e banida em sua própria casa, mais ríspida ainda com a apatia, permanente, do pai. Com 10 anos, fumante inveterada e autorizada, teve a menarca após, exatos, 23 dias sem notícias da mulher que a colocou no mundo. Implorou para a empregada não contar nada pra ninguém. Na mesma noite, o pai chegou com uma caixa de O.Bs. Ela chorou na farmácia, na escola e o tempo todo enquanto aquilo durou.

Mas esse fato –  o dia em que alguém lhe abandonou, não era pra ser dramático. Tampouco motivo de pena. Foi apenas a primeira pessoa que iria lhe deixar na mão quando mais precisasse, apenas um dos inúmeros vexames que sua vida de 23 anos já deu conta de viver. Naquele dia, Melissa soube que sua vida não seria colorida como os comercias de tv, que dinheiro nenhum pagaria seus sonhos reais, que a vida bate mesmo, sem motivo aparente, pra depois assoprar de leve, jogar uma água para refrescar no calor, mas que, de repente, num passe mágica: inferno. De novo. Looping infinito.

*15/10/10 – Aniversário da mãe de Melissa. Em sua agenda: página em branco. No rodapé, pequenino, quase invísivel, um lembrete: menstruar, por favor, obrigada.

Despedida nº2

No relógio do tempo humano ocidental em horário de Brasília: 30 minutos. Sentada em frente à parede de hera – a mais verde e cheia de histórias do universo – fiquei assim, largada entre sorrisos interiores e uma paz que carros desavisados, vizinhos barulhentos e Aretha, a cachorra-reencarnação de Cleópatra, não interromperam. Uma paz daquelas pra borrar os olhos de emoção, simples e atemporal, linda mesmo, de rechear o estômago de conforto.

Olhei o máximo de folhas que pude, senti a grama sujando a roupa – não percebi que meu pai havia aguado ali há pouco – e eu queria mais e mais, mais galhos para encostar, mais lembranças, mais. Fiquei assim, tão livre/presa que senti um abraço da vida, carinhosamente me dizendo: pode ir, mas volta. Como se me reservasse uns cinco minutinhos de remédio pra qualquer tédio e as chateações fossem ficar nulas; intensas seriam as novidades.

Eu e a parede de hera passamos bons natais, em que ela se vestia com um tapete de pisca-piscas animados, prêmio de melhor decoração da rua em 95. Passamos apuros com duas cobras cegas, bobinhas, porém cobras. Buscamos unir todas as aranhas do mundo, para prendê-las e soltá-las. Ela sempre foi caridosa e fazia fundo pra fotos quando eu era bebê. Eu queria ser legal e colocava, vez em sempre, uma florzinha em seus cabelos repletos de galhos.

Pedi desculpas pelos dias de raiva, em que chegava arrancando algumas folhas suas e me arrependendo logo em seguida a abraçava e dizia: não me abandone. Quantas vezes não entrei em sua frente, quando algum membro incoveniente da família falava que iriam arrancá-la de lá, colocar muito concreto e texturizar. Não. Eu não vou te abandonar, parede de hera. Eu volto por você, pela Aretha e por ele. Ele te plantou, ele te cuida, ele nos ama.

Os domingos têm ficado bem tristes com a ideia de minha ida. Como tudo na vida, não é permanente. Mas é. Obrigada, minha amiga, pela inspiração, pelos suspiros, pelos abraços, pelas memórias. Hoje foi a última vez que passei a mão em você e quando eu for não vou te olhar, mas você me conhece. Sabe como sou. Que, na melhor das hipóteses, quando vou, não costumo dar tchau. Não aquele. Adeus, então.

"A foto mais bonita que eu fiz, você olhando pra mim".

A parede de hera, meio doente, mas firme em nossa festa Flower Power.

Natália, eu e a parede de hera: ensaio contracultural-psicodélico-progressivo-futurista.

17ª Madrugada

E, de repente, vem aquela vontade de não dormir, ou melhor, de não acordar. Vem a sensação de que o dia seria mais operante se eu pudesse passá-lo inteiro, do primeiro raio de sol àquela estrelinha que olha pra mim, sem fazer nada. Ou fazer tudo. Aguar as plantas, colocar mais terra, renovar as folhas, limpar os vasos, conversar com aquela Bromélia que floresceu linda com o mês.

1:39 am. Preciso dormir, pois a vida é feita de obrigações. Infelizmente – aliás vou recorrer com a existência – não sou jardineira, não recebo por meus hobbies e a tristeza maior é ter que colocar tudo aquilo de que você, realmente, gosta em segundo plano. Simples hobbies, simples distrações, longe daquilo que se chama: real. E aquilo de que eu, realmente, gosto, tem nome, cheiro, me anima, me purifica, me dá sentido, me dói.

Se fossem apenas as plantas, os livros, os filmes, as letras que saem do coração para os dedos das mãos, os sorvetes, a contagem das constelações, o silêncio, se fosse apenas isso, seria pouco, mas seria suficiente. Se não fosse a outra coisa, o outro gosto, o desgosto, seria pouco, mas seria fácil. Se não fosse esse treco que vai além das estribeiras da racionalidade, esse destrato com o hemisfério esquerdo do cérebro que aciona o direito e faz sentir…

Se não fosse ele, eu estaria lá. Na realidade, no sono forçado pelo amanhã produtivo, no desapego das emoções, focada. Se não fosse ele, eu não estaria aqui. Sozinha, entre cobertas sentimentais, que não calam a boca me dizendo o tempo todo que a culpa é minha, que eu errei, mas posso ficar! – sorte a delas que faz frio. Está gelado. Tremo por dentro, como se um terremoto psicológico fosse vagar em linha reta, do estômago ao nariz, e tirar tudo num espirro. Mortas, as borboletas virariam catarro.

As madrugadas tem sido difíceis. Não posso mais me enganar. Eu o amo, preciso dele a cada minuto. Não consigo mais me contentar. Com os olhares evasivos, a falta de palavras e de informações. Não posso mais pensar. Pois quando penso, o vejo antes de qualquer fato, qualquer constatação, qualquer rosto, qualquer outro. Não posso mais continuar. Se pra esquecer é preciso reagir, talvez eu mude de país, me esconda em uma árvore milenar, ou o guarde  (vivo, alimentado e amarrado), aqui do lado, no guarda-roupa, só para cuidar.

Ah, e se voltar no tempo fosse permitido, emprestaria a inspiração de Nando Reis para dizer, naquela noite que não deveria ter existido, no vazio da festa terminada e no ouvido que ainda me dava atenção: eu vou cuidar, eu cuidarei muito bem. Eu cuidarei do seu jantar, do céu e do mar, e de você e de mim.

São 02:02 am e meus olhos nem piscam, amor. Cadê você pra me ligar?

Situações.

Por não ser uma dessas pessoas, desesperadas, que precisam contar a vida toda, o tempo todo, a qualquer um, farei uma apresentação. Meu nome é Melissa, como a sandália e a flor. Tenho 23 anos, como carne, não tomo refrigerante, corro três vezes por semana, não fiz balé, mas lutei boxe na adolescência. Tranquei minha faculdade há dois anos, conheci a europa inteira em um, estive com ele em outro. Sou comum, poucos amigos, uma tatuagem, poucas drogas, muito cigarro. Minha história é cheia de situações tensas. Sabe como é?

13/07/10

Visão periférica ativada. Finjo que não vejo, no entanto, sei de tudo. Ele resolve guardar segredo, eu resolvo abandoná-lo.

Situation number one – Sitution номер один – Un numéro de sitution.

Liguei para a pizzaria, cancelei o pedido, torci o pé quando desliguei o telefone, vi o filho da puta, pela janela, conversando com alguma…filha da puta. Ponderada, abri as cortinas, me fiz aparente, não fui notada. Eu lembrava do rosto dela, de alguma festa da faculdade: acho que foi a menina que vomitou um líquido grosso e rosa nos pés do Bruno. E o beijou depois. Era a própria. Reconheci pela barriga e pela cara de safada. Danem-se.

Levei uns cinco minutos para terminar a maquilagem, não aguentei o salto, resolvi ficar em casa, tranquei a porta. Aqui não entra mais. Fui até a janela, eles se despediam com um abraço, vi tesão no olhar de ambos, meu estômago pediu comida. O idiota tinha acabado com meu último pacote de Tostines, nem miojo tinha ali. Liguei para a pizzaria. Meia hora é tempo demais, vou desmaiar até lá, saí descalça, pelos fundos, fui comprar o hot dog da rua de trás.

Fiquei duas horas fora, comendo sozinha, com um pé inchado e o outro encardido. Conheci um senhor bebaço, que dizia ser avô do Elvis e, por coincidência, já ter ficado com a Tarsyla. Nunca ri tanto numa praça, à noite, descalça, traída. Voltei com dor e uma pitadinha de liberdade. Ele estava sentado na porta, um cu e meio, nem olhou nos meus olhos. Eu disse: não vai entrar. Ele disse: eu pago metade. Eu disse: não paga mais. Eu tinha ensaiado, joguei trezentos reais no chão, no topo da escada, pedi licença: seu cheiro está me enjoando.

Ele tentou se explicar, disse que era uma velha conhecida, que sentia falta de quando era solteiro. Eu mandei todos, eu disse todos, os librianos do mundo se foderem. Peguem o cabo de uma enxada, se necessário, mas saía da minha frente, desgraçado. Ele ficou com raiva, eu disse que tinha uma teoria de nomes, ele pediu pra ouvir, eu disse que não tinha mais o que falar. Eu te avisei, minha mãe disse ao telefone, ele também: eu quero conhecer o maior número de mulheres que eu conseguir. Boba é quem acredita que ele parou porquê conheceu você. BULLSHIT.

Nesse dia dormi sozinha, assistindo Dr. Fantástico e torcendo para virar personagem de alguma coisa. Resolvi resignificar minha vida, nem que fosse pra uma garota, obssessiva, usá-la em um blog qualquer.

Despedida nº1

Passeio os olhos pelo espelho. É a sétima vez. Donde veio esse misto de pessoa-menina-humana-mulher? Quando meus cabelos ficaram assim? E as unhas? Avisto uma pinta nova na nuca, parte esquerda, quase entrando na orelha. Eu cresci. Olho o espelho pela oitava vez. Consigo lembrar de quando o sujei de rímel. Sem a experiência – que ainda não adquiri -, tentei unir salto e um treco remelento. Sujeira, claro.

Encosto agora na parede gelada. São três minutos, inteiros e claros, de um azul gelo partindo para outro azul marinho cobalto com royal e turquesa na alma. Encaro a estátua do índio. Lembro quando meu pai resolveu comprar: mas o que vai fazer com isso? Guardar mais poeira, foi a sábia e decisiva resposta do taurino. Melhor não falar dele ainda. Evito esse sofrimento me machucando de outra forma: o toca CDs não funciona.

Talvez essa – e mais algumas patifarias espalhadas casa afora-, seja a maior sacanagem que a vida resolveu me pregar. Eu que sempre deitei quando tinha muita coisa pra fazer, com as pernas pro ar, os cabelos amassados arrastando no chão, para ouvir o cd que eu havia comprado horas antes. Logo eu, que sempre achei normal ser tão errada. Que tive as minhas fases de aborrescente in (feliz). Não faça assim, toca CDs, vou sentir falta.

Se eu e o Vitor não brincássemos de circo na sala, ainda teríamos as outras duas estátuas, que meu pai ganhou nas argolas para minha mãe. Coisa mais romântica que essa… ele nunca fez. Coisa que nossos pés descalços e cênicos destruíram nos mesmos segundos em que ela saiu de cá. Da casa. Da sala: levou a mobília. E agora vai me levar.

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