Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

A dúvida.

Todos aqueles lugares onde nunca esteve.

Os vários livros empoeirados na estante.

Aquele casaco de lã esquecido no armário.

As cartas que escreveu e não entregou.

Os pequenos resquícios da adolescência.

Aquele quadro bonito que nunca pendurou.

A bebida que venceu ao esperar ser aberta.

Os DVDs em excesso que caíram em desuso.

Os bilhetes antigos colados como lembretes.

O amor e a admiração que sente por ele.

A vontade de comer tudo e mais um pouco.

Os muitos sonhos dormidos e os acordados.

A dificuldade em ser humana pela manhã.

A saudade do núcleo familiar e da cachorra.

O medo de pular e a vontade de voar.

O gosto pelo difícil, quiçá o impossível.

Todos os desejos, todos os defeitos, todos.

Tudo o que a constrói, corrói e destrói.

Todos os lugares onde nunca esteve.

Até onde posso ir?

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Eu não pertenço a nenhum lugar

Existo. Vago pelas ruas calejadas de concreto e calor. Sinto a pele queimada pelo sol. Os cabelos mais compridos do que suporto, embolados ao redor da nuca. Uma febre interna que arde sem deixar rastros. Os passos. Ando, vazia, feito bolha de sabão. Carrego incertezas, indecisões, aquele sinal de pare ignorado, aquela curva na contramão. Busco. Procuro respostas nos rostos de desconhecidos, nas vozes dos que se importam comigo. Nada. Eu não pertenço a esse lugar. 

A casa encerada, com o sofá verde que um dia fora artigo de luxo, em L na sala, combinando com a mesa de centro em madeira lustrada. Eu pulava feito grilo encenando vidas que sequer imaginava, na flor-margarida da idade, pequenina e amarelada. Eu não pertenço a esse lugar. 

O teto de laje, liso feito papel manteiga, segurava o lustre dourado de três lâmpadas. O piso de lajota fria que recebia tapetes de crochê, chão de brincadeiras ilimitadas, em que caneta colorida virava gente e uma régua desgastada, professora. Eu sorria e sonhava. Eu não pertenço a esse lugar. 

O ventilador quebrado, barulhento como dentes em bruxismo, reverberava o calor. O quarto pequeno, abafado, cortinas pretas e velhas, os calçados em fuga como se a sapateira fosse um crematório. Lá fora, nada para chamar de meu. Eu rolava acordada na cama. Eu não pertenço a esse lugar. 

O carro ao léu, intempéries de sol e chuva, um dia de verão. Uma tonelada de aço quente sobre a cabeça. As janelas fechadas, o mormaço corando as bochechas. Uma gota de suor escorreu do pescoço ao cóccix. Eu respirava fundo para sentir que estava viva. Eu não pertenço a esse lugar. 

A areia mole, o mar desvairado, o sol e a infinitude. Ondas suaves e quentes contrastando com o gélido e calmo fundo do oceano. Um mergulho, outro, boiando e encarando as nuvens, com os olhos meio fechados. Eu ia sem perceber que não dava mais pé. Eu não pertenço a esse lugar. 

Tragédias, dores, destruição. Os jornais apodrecidos, as conversas insanas, os pensamentos mais secretos enraizados na penumbra do que é o ser humano. A boca fala o que o coração pensa. Medo. Eu desistia de ler as notícias e suportar o insuportável. Eu não pertenço a esse lugar.

Existo. Mas não pertenço.

Se um dia, um OVNI aparecer sobre mim, jamais vou perguntar: Por que você está aqui? Direi, ligeira e convicta:

– Leve-me.

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A vida.

A vida atropela.

Às vezes com vento, outras com feno. A vida bate forte como um tambor. A melodia de uma dor atrás da outra. De uma lágrima que cai num lindo dia de sol. De uma lágrima que fica presa nos olhos da depressão. Todas as dores do mundo. O ininteligível. O que não se vê. Todas as dimensões de uma dúvida que paira no ar, como aquela folha miúda que voou longe com a tempestade. Não volta mais.  A vida.

Cada dia mais complexa, algo que transcende as dificuldades da vida adulta. Ser humano é arame farpado. Ser humano é mais humano do que real. A realidade. Ser. Não ter. Ser. A pureza dos sentimentos inatos. A certeza do que foi aprendido. Apreendido em si. O desentender. Todas as tragédias do mundo. O grito que ecoa nas paredes silenciosas da mucosa. O furacão que infla o interior e faz sofrer. A vida.

Não houve preparo, não existem respostas. Humanos, encrustados em pele densa, em sangue vermelho enferrujado, em ossos que balançam. Perdidos. A vida. Derradeira, impetuosa, única.

Muitos são os mitos e poucos os sentidos. Cinco. Menos do que os pecados. A religião que não dá conta. A esperança. Os olhos fechados enquanto o coração lateja. Ainda bem que existem os sonhos.

A vida.

Inexplicável.

A vida.

Caminho irremediável para a morte.

A vida atropela.

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Acostumar-se

Poucas coisas são tão difíceis como se acostumar com algo. Isso porque quando precisamos nos acostumar com alguma coisa, esse algo é diferente, foge ao nosso controle. Acostumar-se com o absurdo, com o mundano, com as variáveis que a vida joga, – na verdade, quase dispara com um canhão em nossa cara – não é fácil. Acostumar-se é difícil porque existe sempre a relação com o outro, com o próximo e o distante, com o ser humano que, em essência, é contraditório e diferente, é rico e diverso em sentimentos e emoções, em um imenso mar turvo de ações.

Acostumar-se com o presente, com o dia de hoje, abrir os olhos, espreguiçar, levantar com sono, escovar os dentes e ir para mais uma batalha.

Acostumar-se com os fatos. Com o fato de que os sonhos infanto-juvenis nada mais são do que pedacinhos de poeira colorida em nosso imaginário. Com o fato de que ser adulto é mais do que um fardinho de contas a pagar, que as responsabilidades vêm e vão na mesma proporção do cansaço, do não saber, do não entender. Com o fato de que caminhamos dia após dia para direções que não sabemos porque seguimos, que não nos explicam o que fazemos aqui na Terra, nem porque não estamos em qualquer outro lugar.

Acostumar-se com a dor, aquela de dentro da pele e aquela dos semelhantes, daqueles que passam fome, que não tem teto, que não sabem escrever o próprio nome, que não podem se relacionar sem interferências tenebrosas. Que não são deixados em paz, por serem diferentes do que é convencional, “normal”, “comum”.

Acostumar-se com o sofrimento, aquele de não fazer o que se quer e aquele de quem tem direitos anulados diariamente, de quem apanha, de quem morre, de quem é histórica e ininterruptamente desrespeitado, de quem sente e sofre ao respirar, por aparelhos ou ares contaminados pelo ódio, pelo desamor, pela maldade, pela riqueza de poucos e a pobreza de muitos.

Acostumar-se que a vida é isso aí, essa coisa que passa pelos olhos em looping, aquilo que dizem as ótimas línguas: “a vida é uma calcinha enfiada no cu”. Acostumar-se com o que está embaixo do nariz, com o frio ou com o calor, com o emprego, com a casa, com o pouco dinheiro na conta bancária, com a grama do vizinho, com a eterna sensação de que estamos sozinhos, com a dúvida de “para onde vamos quando tudo se acabar?”, com as incertezas diárias, com o futuro distante, com o sinal vermelho, com a fila do supermercado, com tudo aquilo que não vale o desgaste.

Acostumar-se é difícil porque não está em nossa natureza. Mudamos, mudamos de novo, nos reinventamos e buscamos mudar sempre mais.

Com algumas coisas deveria mesmo ser impossível se acostumar: lutas que devem crescer cada vez mais, causas essenciais para tornar nossa humanidade, quem sabe um dia, enfim, mais uma humana.

Mas para tantas outras coisas, mediocridades banais, pequenas turbulências que devastam o interior dos humanos mais melancólicos e sofredores, ai que droga de trabalho, nunca vou conseguir concretizar meus sonhos, com essas besteiras todas é preciso acostumar-se?

Menina Prodígio

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Texto originalmente publicado em 2009 no blog Gonzada

Isadora tem cinco anos, pele de bebê e cabeça de adulto. Isadora joga UNO em espanhol, faz balé e dá ‘mortal’, anda a cavalo e tem um ‘namorado’. Isadora assiste o Discovery Channel, e não o Kids, explicou ‘Good Bye, Lenin’, sem legenda, para a mãe e atuou em um filme de terror.

Isadora tem amigas internacionais, como a Marcela, sobrinha espanhola do falecido Michael Jackson (!). Isadora já viu tubarões no mar da Tunísia, e sabe onde as bruxas moram. Isadora não tem medo de cobra, nem de sapo, nem de bicho papão. Isadora só chora se alguém se machuca, se um animal morre, ou se ela assiste um filme triste.

Isadora tem uma risada gostosa, sabe o valor das palavras, assim como fala o plural perfeito, e faz discursos sobre tudo. Sobre como caldo de cana é bom, sobre como tantas pessoas passam fome, sobre como nós envelhecemos, sobre como ela sabe de tudo.

Isadora tem cinco anos, é prodígio, evidente. Isadora é sábia, e não sei quanto, é linda, e eu sei quanto, é um amor, um grande amor. O melhor da Isadora é que ela não é como os outros prodígios. Ela tem uma inteligência fora do comum, isso é fato, mas tem uma alma generosa, um coração que bate mais que o de qualquer humano, uma integridade que não é reservada aos pequenos.

Isadora não vai ser como uma Maísa, pobre Maísa, nem será como um Macaulay Culkin, pobre Macaulay. Ela vai ser a Isadora Niedzuki, que vai trabalhar na NASA, na Petrobrás, no Tablado, na padaria do meio da quadra, se ela quiser. Mas ela será o que quiser. E essa liberdade à pequena gênia é o que vai torná-la ainda mais especial.

AS MELHORES DA ISADORA:

– Lê, sabe polquê eu falo blinco? Polquê eu não falo o L.

– Acoooorda, Letícia. Não aguento mais cuidar de você.

No café da manhã na casa dela:

– Você quer leite? – Não, Isa, eu não tomo leite. – Você quer café?  – Não, Isa, eu não tomo café. – Você quer Coca? – Não, Isa, é cedo pra Coca.  – Você quer suco? – Não, Isa, a Lê não gosta muito de suco.

Quase sem esperanças ela olha o que mais poderia oferecer. Olha pra uma garrafa de vinho e fala com cinismo:

– Hum, quer isso? Por que disso você gosta, né?

Sobre namoro:

– Eu namorava o *fulano*, mas aí a *fulana* roubou ele de mim. Assim, não é que roubou, ela sabia que eu gostava dele, e começou a gostar dele também. – Nossa, Isa, que triste. – Ah, não muito. Eu pensei: se ela gosta dele, vou deixar ele pra ela. Eu fico com o *ciclano*. – E o ciclano é bonito? – Não muito, mas a vida é assim.

Sobre os filhotes da Bolinha:

– Nasceram quatro. Esses três são machos, vou dar para outras pessoas. Vou ficar com essa menor. – Nossa, Isa, mas essa é muito feinha. – Por isso tenho que ficar com ela, tadinha.

Com uns dois anos, de fraldas, quando desligou meu computador no meio de um trabalho de psicologia:

– Isadora, eu não acredito que você fez isso. Quantas vezes tenho que falar que criança não pode ficar perto de computador? -Ah, mas adulto só fala cliança não pode cotador, que cotador não é de cliança, mas a cliança quer blincar e quer blincar cotador. – Não dê de dedo em mim, Isadora. Não erga o tom da voz. – Eu não sei o que você tá falando, mas cliança quer blincar em cotador, e cotador é de cliança. (dando de dedo e gesticulando).

Eu te amo, Isadora, pra posteridade.

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Quando a véspera precede o amor ela passa em branco.

Vésperas são difíceis para mim. Sempre foram. Espero que isso não seja mais um dos muitos vícios de espírito, que parecem me acompanhar, grudados aos tornozelos como lodo nas pedras mais molhadas.

Vésperas são impossíveis. A ansiedade que vem antes de cada realização, atinge seu ápice algoz no dia anterior ao grande momento.

As vésperas acabam com o preparo, com a espera, com a sensação de que finalmente algo vai acontecer. A véspera marca mais do que o grande dia em si, pois quando tudo passa e a mão decide não derreter  – mesmo após todo o suor escorrido entre os dedos, axilas, seios e onde mais as glândulas se rebelarem – sobra o alívio, aquele “ufa, ainda bem que acabou”.

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Hoje chove. Escuto The Mamas and The Papas, decorrência de Elena, belo filme que assisti enquanto segurava uma véspera pelos cabelos. Tento dizer: não me corroa, maldita, você é apenas um espectro ruim das minhas expectativas. Ela, sempre danada e atenta, gosta de me provocar. Revira meu estômago ao menor sinal de relaxamento. E assim fico, como se o gelo do Alasca estivesse concentrado em minhas vísceras.

Volto à música. Escuto “Monday, Monday”, enquanto espero o esmalte secar, e aí me recordo de que tive a brilhante ideia de passa-lo antes de lavar a louça em cima da pia. O que me lembra de que moro sozinha há um ano e dois meses, e aí também lembro do tamanho das minhas bochechas em plena Praça do Japão, em uma véspera. Eu queria sorrir, mas o medo não permitia.

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Véspera de ficar sozinha no frio, de desistir de uma vida a qual eu estava habituada, de começar uma trajetória com a qual sempre sonhei. Nessa véspera chorei muito, enquanto o carro com meus pais e irmã ia embora, pela rua deserta e cinza. Eu nunca quis tanto correr. Nunca fiquei tão estática.

Essa véspera me recordou outra. Lembrei que estava muito infeliz no dia anterior ao 24 de novembro de 2012. Tinha passado por maus bocados e estava cansada, realmente esgotada da vida que estava levando, do modo como deixei meus dias desandarem.

Eu não sabia que era véspera de algo muito importante, portanto não tive o sofrimento da expectativa.

No dia seguinte, um sábado bonito, meio nublado, como os dias de que mais gosto, conheci uma pessoa que mudou minha trajetória, me colocou em eixos bonitos, com flores imaginárias envolvendo meus cabelos, que me fez e faz sorrir todos os dias e congela minha barriga nos olhares mais longos.

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Já faz um ano. O melhor ano. Essa história começou tão bonita, que nem precisei sofrer por antecedência. Ele apenas surgiu, com sua simplicidade, honestidade e carinho, e com o tempo me fez feliz. Hoje é o meu amor.

Pois é. O amor não avisa mesmo. Chega, invade, fica, sem anunciar, muito menos pedir permissão.

Não tem nada melhor do que não saber quando será a próxima véspera que vai balançar sua vida.

As cortinas estão abertas

Hoje as cortinas do lado esquerdo estão abertas.

É muito difícil, praticamente impossível, manter a atenção na tela embaçante a minha frente. As cortinas estão abertas e cada olhar por cima do ombro é verde. Folhas reverberando com o vento. Céu meio azul, meio cinza, exibindo uma naturalidade indescritível. Que linda visão quadriculada!

Lá fora, tudo está no lugar. Eu, desatenta, sonho com as seis da tarde como se sonha em conquistar o mundo em cima de um balão colorido. Busco conter a impaciência, segurar as pontas, por assim dizer.

Meu corpo dói, tamanho o esforço para me tirar daqui. Insisto, porém, que é necessário ficar. Converso com as pernas, que se balançam mais do que uma palmeira na praia. Converso com os quadris, que forçam todo o tronco a se levantar e sair correndo. Converso muito com a boca, que se fecha em zíper forçado a cada ameaça de xingamento em alto e bom som.

Falo com as mãos também – elas começaram a se recusar a fazer coisas irrelevantes. Tenho medo de  que um dia se revoltem e façam greve. Posso vê-las espalmadas, rígidas e vorazes, aos berros:

– Você precisa escrever aquilo que está na sua cabeça.

Antes que tudo vá embora, eu sei. Estou consciente. A consciência, na verdade, é o que me faz permanecer grudada na cadeira. Contas a pagar também, mas a consciência das dificuldades mundanas pesa muito.

Meu cérebro, coitado, tem falado que vai pifar. “Escolha logo um lado para seguir, eu não posso ficar indeciso o dia todo”. As palavras pululam pelo ar. Estabilidade. Dinheiro. Segurança. Comprometimento. Responsabilidade. São muitas e se misturam. Felicidade. Tranquilidade. Relevância. Talento. História. Sonho. Ah, como é bom sonhar!

Em meu sonho eu não preciso colocar meu corpo em luta interna, sequer esperar um dia corajoso, que provavelmente não vai aparecer tão cedo, para minha frustração. No meu sonho, sorrio enquanto meu corpo está em completa sintonia com o que acredito, espero e, realmente, sei fazer. Em meu sonho, vivo como gostaria de viver.

As cortinas continuam abertas, mas a janela ainda está fechada.

Hoje, inerte, permaneço aqui. Amanhã não sei.

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Sobre o sonho que é real

E por um segundo pensei que talvez meus dedos fossem feitos de imãs, pois a atração por sua pele é irremediável. Cogitei, enquanto me via deslumbrada por sua beleza adormecida, estar em mais um sonho complexo, em que coisas inacreditáveis deixam rastros de loucura, real e ficcional. Eu não dormia.

E me vi embevecida por sua respiração, leve, limpa, quase inaudível. Estava escuro, mas consegui ver claramente. Cada poro, pequeno detalhe, as marcas da vida que teve desde que veio ao mundo, as marcas que adquiriu enquanto nos conhecíamos, as marcas que agora fazem parte de nossa história a dois. Que sonho bom!

E senti algo inexplicável, que se repete, me acomete, muitas vezes faz meu coração acelerar, gira meu estômago como em um vulcão de borboletas em erupção. Todas as metáforas fazem sentido agora. A invenção não é necessária quando a realidade assume um posto tão bonito.

E, de repente, eu estava confortável como nunca estive, em uma bolha mágica que abriga nossas metades. Flutuando para além do que os olhos dão conta de ver e a boca de narrar. No céu, entre as estrelas, tocando a imensidão com a ponta dos dedos. Os imãs dominando o corpo todo e unindo tudo o que nos representa.

E eu te olho, te descubro, te abraço, te espero, te entendo, te quero, te encontro, te beijo, te venero.

E eu te amo.

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Entre uma letra e outra

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Rabisco porque gosto. Escrevo porque me fascina.

Entrar em outra dimensão e resolver quase qualquer questão com palavras. Essa é a mágica que me move. Vivo de mágica, de sonhos, de universos paralelos, de cheiros desconhecidos e cores inexistentes, que incendeiam os dias frios.

Consigo ser muito feliz com um lápis e uma folha em branco. Sou grata à existência por ter me dado esse pedaço de felicidade embutido em meus dedos, que se conectam com os meus pensamentos mais bonitos ou sombrios, e reagem como folhas de outono cobrindo uma rua inteira chamada imaginação. Minha imaginação.

Não sei dizer ao certo quando comecei a gostar de escrever, mas sei que foi muito natural, em um processo em que o único sofrimento estava no fim de um caderno de brochura encapado com papel de carta. A última linha, o último ponto final. A ponta quebrada do lápis, sem apontador ou facas por perto. A dor de se concluir uma estória. A lágrima caída porque aquela personagem tão rebelde passou do ponto e foi ver a escuridão do desaparecer. A culpa pela falta de tempo para me dedicar aos mundos que resolvi criar.

Sofro com a escrita. Na mesma proporção em que amo. Me entrego, me envolvo, me sinto refém de uma criação quando a sinto presente em minhas palavras. Mas, veja só, estou longe de ser uma escritora, tampouco de jogar meus contos feito vento na cara do mundo.

Longe, eu admito: é muito longe. Perto só estou do meu agora, que sofre com a ausência das palavras que estão em fila nos pensamentos, querendo se mostrar. Como são exibidas as minhas palavras! Repreendo-as, peço-as para esperar. Preciso encarar essa rotina para, quem sabe em um belo dia, voltar inteira para elas.

Inteira. Insana. Insaciável.

Eu não sei o que seria de mim sem as palavras. Sem as palavras em um papel. Sem essa mágica.

Amo-as, minhas palavras. É com vocês que consigo representar o turbilhão de emoções e pensamentos que me corroem, atos de coragem ou covardia, estórias, estórias, estórias.

Um dia, talvez, quem sabe, eu chegue lá.

“Mas há palavras em meu coração, letras e sonhos, brinquedos e diversões…”

Sobre buracos.

Buracos são buracos em qualquer lugar do mundo. Existe, no entanto, uma infindável família de buracos. Buracos são denotativos, no meio da terra, do asfalto, como poços artesianos e, repletos de água, poças se fazem. Buracos são fantasiosos, no meio do corpo, dentro do coração, no fundo da alma. Buracos têm várias excentricidades. Buracos sempre machucam.

Caia em um para ter certeza.

Em uma rua comprida, com duas margens distintas – uma urbana, a outra florestal -, rua dessas que inspiram poetas apenas por ser desigual, os buracos se mostram inteiros. Eles gritam por sua atenção. Até mesmo os pedestres, com exceção dos excessivamente distraídos, se interessam pelos buracos famintos, que choram e gritam por não conseguirem se locomover.

Sentem-se presos em um filme francês, com Bach no último volume, enquanto são massacrados, diariamente, sem dó nem compaixão, como se tivessem escolha. Eles se formaram pelo tempo, pela natureza das coisas, até mesmo por um serviço mal feito. Bebês da humanidade, filhos da modernidade. Buracos. Apenas tristonhos e estáticos buracos.

Dentro da menina que acordava às dez da manhã para observar os pássaros na grama da casa de infância, enquanto bolava planos para o futuro em papel colorido, um verde água escolhido como a melhor cor de lápis de cor do mundo, havia um buraco. Um buraco pequenino, flexível, pronto para ser alargado.

Ela não sabia o que a esperava. Ela sonhava com um lugar frio, em que pudesse andar com lindos cachecóis enquanto sentia o vento gelar as bochechas gigantes. Ela via sua maturidade crescer entre árvores floridas, quem sabe em um sobrado desses com floreiras coloridas. Imaginava o sucesso fácil como chupar um picolé de morango. Era feliz. E mantinha o buraquinho pequeno, invisível para quem estava fora de si.

De repente, estava no frio, com as bochechas crescidas geladas e o sucesso colado em suas costas. Na perspectiva em que cresceu, faltava muito pouco, era metade do caminho andado e ela mal precisou correr. Tropeçara em poucos buracos, até então, não tinha ralado os joelhos jamais.

Caiu. Precisou cair em um para ter certeza.

Hoje a menina sente a cicatriz do enorme buraco que teve que costurar. Não era no coração, porque as coisas do coração são fechadas. O coração tem arquivos com pastas, muitas pastas e cadeados. Você só precisa saber trancar e abrir. É muito mais fácil lidar com o coração.

Seu buraco cresceu na expectativa. Essa mesma, que fica solta dentro do corpo e nos atinge como um balão cheio de fogo. Ela teve a maior parte do que desejara nas manhãs ao som dos passarinhos. Mas lidou com um buraco no meio do caminho. Já dizia Nhá Barbina: “esta vida é um buraco”.

Como foi que ela fechou esse buraco? Perguntam os amantes de flores emburacados.

Ela fechou com paciência, com pessoas queridas, com mais alguns tombos, com a descoberta dos seus limites, com carinho, com um novo encontro, com sorrisos leves, trabalho duro, seus passatempos favoritos antigos, sua personalidade própria,  com amor. Ela fechou com muito amor.

– Esse buraco, diz ela, já não abre mais.

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