Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “dezembro, 2010”

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Hoje acordei meio Carrie Bradshaw.

Se eu pudesse…

… jogar Scrabble o dia inteiro, estaria feliz.

Wishlist. #1

Quero um telefone com secretária eletrônica. Sim, mais do que querer, preciso. Agradeço aos telefones celulares que me permitem ouvir recados que as pessoas – cientes de que não adianta ligar de novo, meu celular deve estar longe de mim, no silencioso, jogado no fundo de uma bolsa perdida – já deixam por precaução. Esses dias meu pai me deixou um recado lindo, porque eu precisava falar com ele, mas só vi o celular tocando naqueles últimos segundos do Nokia Tune. O recado era assim:

“Letícia, minha filha, saudades, venha nos visitar. Aretha voltou a comer, mas sente sua falta. Eu também. Me avisa quando vier, para eu fazer janta. Beijo. Te…”

Acho que acabou o tempo. Ele falou rápido, mas cheio de vírgulas vocais e eu o amei ainda mais depois desse recado. O único problema foi a dificuldade de ouvi-lo, já que estou ficando (pasmem!) surda. É o meu maior exercício físico. Me desdobrar para encontrar uma posição em que eu consiga comprimir os músculos do ouvido para escutar qualquer coisa que venha da linha. Eu não consigo.

Rádio, TV, música no computador, qualquer coisa sonora: ouço numa boa e, se muito alto, me incomoda. Agora o som que vem do celular: pff. Não se torna aparente. Engraçado, que você pode me dizer: aumenta o som do celular. Ele é uma porcaria, compra um Iphone. Gente, pode ser o celular que for, eu posso até escutar, mas não sem o máximo de esforço possível. Em casa, no silêncio, até vai. Mas em locais agitados, povoados e estridentes é uma missão impossível.

Volto para o meu pedido: quero um telefone com secretária eletrônica. Nem é pelos seriados americanos, em que as mensagens sempre deixam os protagonistas comédinhas em maus lençóis. Nem é pra causar depressão caso eu passe uma semana sem receber ligações. É apenas para ter a oportunidade de ouvir o que as pessoas têm a dizer, no calor da hora, naquele momento. Tá e confesso que sou louca pra gravar uma mensagem daquelas:

“Você ligou para a Letícia! No momento eu não estou ouvindo o telefone chamar, mas quando estiver de bobeira, vou pegar o celular, ver as mensagens, ligações e recados perdidos e retornarei. Paciência é virtude. Beijos, deixe sua mensagem!”

21ª Madrugada

Cheiro de imensidão. Os olhos castanhos, novos, de uma excentricidade renovadora pesando sobre os meus. Aquela sensação de que o ontem havia sido épico e o que o amanhã poderia ser único. Um carinho. Um abraço em meia lua. Um beijo no canto da boca. Gosto de quero mais. Todas as sentimentalidades baratas, mundanas e desejadas por adolescentes cheias de cartas em rolo de papel, todo esse temporal de emoções passam por mim, pela testa, entre os seios, entram pelo umbigo e descem, sem escada nem elevador, até chegar aos dedos dos pés. Ele se despede.

Me espreguiço, ainda é cedo, apenas 9h de uma quarta-feira meio nublada, meio chuvosa, vejo um risco de sol, nem faz cócegas. Coloco a primeira roupa que encontro, um pouco amassada, mas meu corpo não liga, sequer deseja se vestir. Está embriagado. O vizinho quase me atropela ao sair do prédio, desce do carro para se desculpar, olho pra ele, aqueles olhos verdes cheios de culpa e eu sorrio e digo: manda a cesta de natal no 404. Tudo parece lindo.

Comprei cinco fardos da melhor cerveja do mundo para entrar na quinta-feira na ponta dos pés. Não vou tomar tudo isso sozinha. Planejo um belo jantar, simples e contemporâneo, um convite para dois amigos – a melhor e o pior – e uma presença inusitada madrugada afora. Isso não é coisa que se planeje, estou ciente, mas é o que tem acontecido nos últimos dias quando as estrelas começam a ficar com sono. Elas cochilam, enquanto eu acordo para as melhores vibrações. A campainha toca.

O tempo é ligeiro, mas camarada. As coisas boas passam, mas se intensificam. As ruins logo se perdem, não sobra espaço pra mais nada quando se está cheia de paz. Quando os cílios quase se quebram por causa de um sorriso que as pálpebras acompanham. Quando a música invade os ouvidos e faz delirar. Quando duas horas de sono viram uma hora e meia de sonhos em que uma nuvem gigante carrega o seu corpo cheio de ar para a infinitude. Quando o céu fica cinza amarelo azul verde claro médio escuro normal  e te coloca numa cena de Godard. Você dança, dança, dança…

Sobre Alice e cinema.

Um abraço de veludo, no meio da tarde nublada, o jardim molhado de chuva, uma caça aos ovos de Dande. Alice é a menina princesa, uma afilhada sem precedentes, capaz de soltar observações não programadas como:

– Olha, parece um ovo daquela galinha ‘boiola’.

– Galinha o quê, Alice?

– Galinha ‘boiola’! Aquela que canta: Tô com fome, tô com fome.

Ou perspicaz:

– Se alguém acha que esse esmalte é preto, é porque não viu nessa luz estranha. Isso é verde escurão, dos mais escuros.

São apenas sete anos de idade e me orgulho da menina com olhos, lábios e pele hollywoodianos, acertar que passei um esmalte verde super escuro nas unhas, que todos os adultos e algumas especialistas pensam que é preto. Poderia ser futilidade, mas como não gostamos disso é outra coisa. Acho que vamos chamar nossas tardes de conversas banais de crescimento entre afilhada-madrinha. Digna, ela está ansiosa em me dividir com Bernardo, que daqui três meses vai nascer lindo, pisciano ou ariano, pra fazer parte de nossas vidas carentes.

Hoje ela leu muitas coisas, escreveu, questionou pronomes, insistiu que eu devo cortar o cabelo novamente, me fortificou. Nas cartinhas anuais que escrevo pra ela e que peço pra ler com determinada idade já sei sobre o que falar esse ano: cinema. Foi com essa idade, numa sessão ‘remember’ ou remasterizada da Pequena Sereia, que descobri como eu seria apaixonada pela sétima arte, como tudo iria me fazer pensar em cinema, sob todos os ângulos, boa parte do tempo.

Dividi os cabelos ruivos, até então impressionantes, de Ariel com a atenção para todas as outras crianças na sala. Minha mãe chegou a me repreender, porque eu não estava totalmente ligada no filme, mas eu estava: ver e sentir as reações e impressões de quem assistia me fascinou, me fez pensar em como uma tela imensa daquela magnetizava as pessoas – e não nesses termos, enquanto criança eu só achava que aquilo era demais. Alguns bons anos se passaram e eu ainda me impressiono com o poder do cinema na vida das pessoas e sempre que revejo um dos meus filmes favoritos junto com alguém que não o viu, olho pro iniciante e espero a reação.

Vou escrever uma carta com os melhores 200 filmes – estima-se que eu tenha assistido cerca de 1500 em 21 anos de existência cheia de atividades extra-sala-de-tv – que Alice pode assistir e amar ou odiar (com meu pesar) e sentir coisas ou dormir…Não sei ainda se ela será uma apaixonada, mas com todo o poder de observação que ela tem, no mínimo, vai prestar atenção nos bons diálogos. Quanto a mim, sigo aspirando uma vida em que toda a minha teoria se aplique na prática e que o cinema deixe de ser fascínio para virar uma realização fascinante. Amém.

Alice em toda a sua espontaneidade infantil

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