Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

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Tarde.

Bastam duas piscadelas para que o mundo gire da calmaria à frustração. Nem precisa de teste. Existem aqueles bons momentos, em que é suficiente sorrir e fazer parte do todo maior. Em contrapartida, os momentos “ruins” acabam deixando rastros pesados demais, ao mesmo tempo inidentificáveis, e sobra uma necessidade imensa de sumir, acabar com a cordialidade toda, emancipar-se da vida.

Tenho vivido – imagino, como a maioria dos seres humanos pensantes, habitantes desse planeta que padece, dia-a-dia um cado mais – lutando contra todos os momentos, na esperança de traçar uma linha reta, harmônica de paz interior, não dessas obtidas com meditação e regras tolas de gente que ainda quer ser feliz, mas daquelas de deitar a cabeça no travesseiro e simplesmente apagar. Descansar por completo, de mais 24 horas impostas em meio a milhares de outras coisas igualmente impostas, a qual deveríamos nos adaptar, reagir, contemplar, interagir, amar.

Por mais que devaneios me persigam, são apenas devaneios, e mesmo ao se revelarem continuam sendo meus. Nada são além disso. Além da vontade de acordar com disposição para viver aquele nicho de coisas às quais me apeguei dentro dessa jornada; de encontrar formas financeiro-sociais de realizar sonhos, já que os meus se misturam, os acordados e dormidos – e, sendo assim, me dão certa pequenina esperança de serem algo a ter sentido; até chegar o momento derradeiro do dia, em que encorajada pelo breu que invade a janela testo o universo com meus seis sentidos e percebo que nada mudou.

Ao longo dos anos em que experiencio a Terra, descobri inúmeros gostos, verdadeiras paixões e colecionei objetos e sentimentos como se tivesse mesmo direito a tudo isso. Negligenciei certas regras sociais e de conduta, aboli os longos abraços em desconhecidos e percebi que usar um relógio no pulso nunca mudaria minha conduta de atraso, apenas me deixaria com marcas no pulso, feitas pelo sol. Constatei com facilidade que da mesma forma que amo a noite e suas estrelas madrugantes e silenciosas, odeio o sol, com toda a claridade e exposição de sensações deploráveis que o acompanham. E nessa de gostar e desgostar das coisas, volto a perceber como as coisas dificilmente mudam, e como cada vez menos, as coisas valham a pena, simplesmente.

Mas isso sou eu. Eu que não quero perder os arrepios, mas os vejo esvaindo de mim, quase sem volta.

Já não tenho mais paciência ou vontade para abraçar árvores e impedir que eles construam mais um prédio. Não consigo mais desejar certas regalias mundanas apenas para passar o tempo “melhor”. Tenho perdido a cada segundo, pequeninos pedaços de vontade (essa que os humanos costumam ter de fazer tudo, colocar o nome na história e ganhar troféus) e temo o dia em que não desejarei mais sair de casa. Ficarei com minha pilha de coisas e pessoas queridas e amadas – as que achei sozinha, enquanto crescia, sozinha, ou as que me ensinaram a amar e que, sozinha, escolhi tomá-las para mim, guardar em meu coração nas costas e que me ajudam a permanecer aqui.

Devaneios mil. Desejo de subverter qualquer coisa mil. Vontade de que esse globo azul exploda mil. Estou cansada.

Eu não confundo melancolia com tristeza. Tampouco tristeza com infelicidade. Nem sonhos com mediocridade. Ou futilidade com necessidade. Muito menos o doce com o amargo. Eu só confundo o céu com o inexplicável. E isso me arrepia. Por enquanto.

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Manhã.

Nunca iria se acostumar com a luz do dia. Tampouco depositaria mais confiança nas pessoas do que deveria. Fora criada dentro de um ideal de imperfeição, que incluía ausência de beleza, café sem açúcar, alergia a algodão e seres humanos mentirosos. Quando criança, já amante da solidão, sabia calcular perfeitamente o valor de suas palavras, as reais e as inventadas, nutrida de uma vontade revigorante de sobreviver. Desafiar a inteligência alheia era tudo para ela. Como não podia confiar em si mesma – não raras vezes cometeu delitos e encontrou terríveis defeitos de caráter em seu próprio cotidiano forjado – não confiaria em ninguém. Não chegava a ser uma regra, pois se sentia livre para lançar auto-amarras. Era apenas precaução. Algo como preservação sentimental. Inteligência emocional, diriam aqueles que acreditam ter explicação para tudo.

Naquela manhã, em particular, precisou de mais força para encarar a forte luz do sol. Sabia que teria um dia dificílimo, desses de temor, em que o coração poderia entrar em colapso com o cérebro e colocar tudo a perder. Ou a ganhar. Não tinha um plano certo do que faria, apenas deixou-se guiar pelo ritmo do vento, que tentava sem sucesso movimentar seus cabelos estrategicamente presos. A rigidez com que se vestira, escovara os dentes e pisara firme em cada degrau da escada rumo à porta, fazia com que seus ossos doessem de ansiedade. Ela nunca se arrependia, porque no final das contas, aquilo tudo – do torpor ao ato concretizado – era o que lhe dava forças.

Chegou ao seu destino. A casa estava vazia. A sala, sem mobília, com exceção de uma velha penteadeira. Seus passos solitários e cheios de eco a deixavam excitada. Não precisara arrombar nada. A porta estava aberta, poderia jurar em um tribunal, que estava, inclusive, a sua espera. Eram cinco gavetas antigas e ruidosas, com cheiro de história. Mesmo ansiosa, mantinha a cautela. Andou pelo primeiro andar da casa, com medo de encontrar algo mais que a prendesse naquela loucura falsamente premeditada. Não tinha um bilhete, e ao perceber isso sentiu necessidade de vasculhar todo o local, na busca por palavras já escritas, que representassem toda a bagunça em que parecia ter se metido. Nada.

Entrou por uma porta aberta, sem chaves, nem privações. Podia sair, respirar e voltar para aquilo tudo o que tinha decidido banir. Pensou que não houvera, de fato, uma decisão, mas que precisava encontrar suas respostas. Ela não havia crescido naquela casa, muito menos conhecia seus donos. Se saísse, no entanto, gostaria que todas as pessoas estivessem mortas, que o mundo fosse um imenso depósito de toda a sua satisfação em estar viva, sozinha, para solenemente viver a mentira que era toda a sua existência. Ela, que queria ter tido uma infância difícil, correr mais riscos, ser bastarda ou qualquer coisa que o valha e se equipare a uma maldição. Não. Era simples. Era comum. Era igual a todos os outros.

Furiosa com a perda de tempo, cansada de cheirar e tatear as paredes daquela casa abandonada, ajoelhou-se em frente à penteadeira. Na primeira gaveta, muitos documentos, em uma bagunça que não combinava com a aparente importância dos papéis. Nada ali fazia sentido. Na segunda, várias peças de roupa feitas a mão, de lã, bem quentes, cachecóis, toucas, suéteres, meias. Tudo extremamente bem feito, extremamente abandonado às traças. A terceira gaveta era interessante. Cheia de livros que, com ilustrações maravilhosamente perturbadoras, apresentavam a concepção de uma vida em detalhes. O pequenino feto, as entranhas rasgadas da mãe, a cabeça que saíra para colocar a criança no mundo. Sangue que não acabava mais. Perdeu muitos minutos naquela gaveta. Descobriu coisas que jamais imaginara e sentiu pena das entranhas que a colocaram no mundo para ser livre.

Faltaram-na forças para abrir a quarta gaveta. Estava pesadamente trancada, sendo a única que apresentava uma fechadura de ferro, bonita, muito bem feita. Hipnotizada, prosseguiu, descobrindo a última gaveta totalmente vazia. Definitivamente, estava faltando o que procurava. Mesmo sem saber, encontraria naquele lugar, iluminado pela falta de cortina, por aquele sol que agora ela odiava. Percebeu ao encarar as janelas, que aquela parede tinha um branco diferente das demais, quase creme. Foi quando teve a certeza, e a ideia.

Tirou a quinta gaveta, bateu forte no fraco forro daquela que estava trancada, até que descobrisse uma forma de retirá-lo. Por uma surpresa que pareceu um sinal de pura coincidência, o forro soltou-se sem muito esforço. Caiu em suas mãos ardidas pela fricção com a madeira. A caixa que veio a seguir era vermelha sangue, quase de aspecto real, não fosse a claridade que denotava toda a simplicidade daquele cômodo. Após conferir o conteúdo não levou nem meio minuto. O objeto gelado passou a fazer parte de seu corpo, uma verdadeira extensão das mãos que a levaram para tantos lugares, inclusive a entrar naquela casa. Encostou-se na parede manchada, se escondendo inutilmente do sol que entrava com todo o vigor. Respirou fundo. Tudo ficou preto.

Jamais fora encontrada. A parede mudou de cor, definitivamente. Agora estava com cheiro de ferro e da cor daquilo que os sonhadores chamam de amor.

Em seu quarto, abandonado naquela manhã quente, as palavras finais voavam na finura de um guardanapo, fixado embaixo da xícara repleta de formigas.

“Eu não preciso disso. Eu nunca precisei”.

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