Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “junho, 2010”

17

Ultimamente tenho aproveitado dela.

Era setembro, eu vestia branco e pérolas, tinha muitas orquídeas para cuidar e aquela azaléia de sempre. Estava triste com uma pessoa ou outra, mas era uma florista, com adubo e o xaxim que meu pai escondeu no porão – é, não vendem mais, mas as plantas adoram! Não foi tédio, nem remédio, mas fez um bem imenso.

Ela estava dormindo abraçada com um chow-chow. Abraçada mesmo. Era muito pequena, cabia em uma mão. Pedi pra pegar no colo. Ele custava uns R$200. Ela estava ali pra doação. Acordou com a tonta chacoalhando seus sonhos de filhote. Minha amiga loura concordou. Era ela. Linda. Preta feito um tição. Aretha.

Escolhi o nome no caminho para casa. Começou a garoar e ela se encolheu num canto. Jurei que seria muito quieta. Ledo engano. Sete dias foram necessários para que ela começasse a demonstrar sua personalidade forte. Tentava escalar a escada-obstáculos, se escondia entre panos, pregava peças. Não latia.

Por tempos pensei que fosse cega e surda. Morria de medo. Descobri com tempo e com a ração, que os olhos azuis eram de fome. São castanhos. Ela está enorme, late muito, de graça, de raiva, de pirraça. Converso com ela como não converso com ninguém. Ela me lambe de saudade e abraça meus braços. Abraça mesmo.

Ela me ama. Declaradamente. Não me deixa com dúvida alguma. Me vê, abre seu sorriso canino e não fica longe de mim quando estou perto. Eu a amo. Intensamente. Não a deixo com nenhuma dúvida. Quando a vejo deixo minhas pernas serem arranhadas pelas patas e abro meu sorriso humano. Amor.

Ultimamente tenho precisado dela.

12ª Madrugada

Parecia febre. Aquele mal-estar sem graça, frio de sono, calor de fome, leseira mental, tudo de ruim. Não conseguia dormir, ainda eram 22:46h, maldito plano esse de ficar em casa numa sexta-feira. Vesti minhas argolas, camisa xadrez, relógio e tênis. Se fosse gripe iria curá-la com cerveja ou sorvete. O que surgisse primeiro. Na rua, encontrei o primeiro boteco. Alguns senhores, umas mulheres não muito vestidas. Eu ia sentar, mas a trilha sonora – não sei nem se consigo chamar de trilha – era algo medonho:

“Eu sei de tudo o que se passa nessa sua vida, eu sei que assim como eu, você não está feliz”.

Acho que era isso. Na verdade, tenho certeza. A noite toda fiquei com o verso na cabeça. Avancei algumas quadras, sorveteria fechada, fui até à locadora 24 horas, aluguei A lot like love, porque ainda não comecei a comprar comédias românticas para enfeitar a estante, peguei Doritos e Fanta Uva, estava pronta para pagar e voltar pra casa e ser minimamente feliz. Rá, música sertaneja, eu ia conseguir!

Quais as chances reais? Não o via há mais de 20 dias – a última vez foi num posto de gasolina, ele abastecendo, eu correndo em fuga – não o via, assim de tão perto, há muito, muito tempo. Ele pegou a garrafa que eu derrubei com o susto, colocou no balcão e me encarou. Filho da Puta. Não podia ter engordado, criado espinhas, estar fedido, sem uns dois dentes da frente? Precisava estar levando Doritos e Coca-Cola e Taxi Driver? (ele, por algum motivo obscuro, se recusa a comprar os filmes do Scorsese)

Engraçado é toda essa coisa chula de não saber como cumprimentar alguém com quem você dividiu tanta coisa. Eu disse oi, ele não respondeu. O caixa da locadora ficou sem graça, deu meu troco, eu saí. Ele saiu, olhou pra mim e mostrou a língua. Não, eu também não consigo acreditar que ele mostrou a língua. Em outras circunstâncias, eu teria agarrado a língua – é o que eu faço quando me mostram a língua. CUIDADO – e dado um beijo lindo, de saudade e de vontade, nele. Mas, ah, patifaria!

Virei as costas e pisei uns cinco passos firmes. Ele fez o mesmo do lado de lá. Mas eu não aguento, sou impulsiva, falo tudo na lata, não deu pra segurar: você é um filho da puta. Estaquei, ele estacou. Desculpa. E não me venha com essa de bom senso. Não vou desculpar.

Então tá, você não vai me desculpar, mas eu gosto de você, caralho. Gosto de você de verdade. Gosto de um jeito que não sei mais evitar. Gosto e não quero mais gostar. Porque sei que não vamos conseguir ser nós. Tenho tentado te dizer isso com minhas letras, minhas atitudes infantis e insanas, minhas escapadas cheias de arrependimento…

Ele ignorou. Ficou de costas. Mas imóvel.

Não sei mais o que dizer.

Você, definitivamente, não tem bom senso.

Mas eu lá quero saber de bom senso? Bom senso pra lidar com o quê? Eu sinto muito, sinto tanto, sinto falta. Mas não consigo pedir.

Eu não quero voltar.

Eu não quero de volta.

Pausa dramática. Eu virei as costas e saí pisando firme de novo. Ele fez o mesmo do lado de cá. Me segurou pelo braço, olhou meus olhos cheios de pseudo-lágrimas. Sussurou a milímetros da minha boca ansiosa.

Eu quero que você volte.

Devia ser proibido sonhar. Sério. Ou pelo menos a gente deveria esquecê-los. Sonhos. Mais um. Vou tomar sorvete de creme com calda de caramelo até desmaiar. Puta que pariu essa vida.

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Hoje acordei meio Robin Scherbatsky. Telejornalismo sucks. Compromisso sucks. A palavra casamento soa o fim do mundo. Mas não resisti às causalidades matutinas. Quero cerveja e uma noite decente de sono.

Sobre dormir (a)

Baderna. Bagunça. Zona. Esses são os sobrenomes do meu quarto. As paredes são pintadas de lilás. O guarda-roupa é branco e cheio de cola. Antes existiam muitas fotografias, post-its e coisinhas coladas nele. Agora não tem mais. A cama é frescurenta e não gosto mais dela. Sinto que não caibo mais ali. Questão de espaço espiritual. Minhas tiaras e flores a enfeitam. Ar, eu diria.

Os calçados ficam num canto. Várias caixas. Nunca estão na certa. Não gosto de colocá-los em prateleiras. Prefiro fazer uma fila embaixo da cama. Tem um cabide de colocar bolsa, que tem vários guarda-chuvas que não uso – são muito grandes – e várias blusas preguiçosas. As bolsas ficam lá, geralmente. O tapete é uma das coisas de que mais gosto. Mas não vou descrever. Pessoal.

O guarda-roupa, quando arrumado, é uma coisa bacana. Quando desarrumado, é mais bacana ainda. Claro que digo isso por mim e pra mim. Se alguém nunca viu meu guarda-roupa, whatever o que ele é, né? Mas ele, organizado, é assim: a primeira parte se resume aos vestidos pendurados, às blusas de frio no cabide, aos jogos da infância/adolescência – herança pros filhos e afilhados – à coleção de latas de cerveja; em cima, estão minhas cobertas.

A segunda parte é cheia de trecos. Gavetas com roupas, mais roupas, roupas. Perfumes, esmaltes, bijuterias, penduricalhos, ursos de pelúcia, lembranças, meu jogo da velha de mármore e burquinhas (o melhor presente que já ganhei, acho), coisas de cabelo, alguns filmes, alguns livros, tranqueiras.  E o cheiro da dama da noite. A terceira parte tem um pôster imenso – segredo – cintos que não uso, lenços, cachecóis, algumas roupas, muitos livros, muitos cadernos, muitos diários.

Tenho ainda meus baúzinhos de memória, minhas caixinhas, minha caixa personalizada rock’n’roll (o melhor presente que já ganhei, acho). Tudo o que ganho – de um pedaço de papel de pão a uma ponta de lápis – vão pra lá. Tem também minha luminária que torce o pescoço e minha máquina de escrever. Tudo isso para falar do lugar da casa que menos habito. Me chamam de esquila, de bagunceira, de bagunçada. Mas do meu quarto entendo e cuido eu.

Amo esse lugar de esquentar ossos e pensar na morte da cabrita. Gente insone: pra vocês, meu carinho.

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Hoje acordei meio Thelma, pós-as-muitas-coisas-ruins. Já aprendi com o bandido, quero vento no cabelo e estrada, adrenalina. Nem o Brad Pitt me engana mais. Ps: eu gosto muito da Louise para deixá-la de fora.

11ª Madrugada

Obviamente estou alcoolizada. Nem sei mais quais são os dias em que passo completamente sóbria. Eles existem, claro, martelam minha alma, pregando coisas que não quero fazer, não aceito, não sei. Dizem que é a vida. Se for ela, de verdade,  não hesitarei em tascar-lhe uns desaforos, xingamentos sérios mesmo, ofensivos e presunçosos: quero minha dignidade de volta. Ah, que exagero! Sei porque estou assim, debochada dela – vida traçoiera – de tudo e todos. Quero ter paz outra vez.

Sei, nesse momento regado a Borgonha, que me encontro em uma sinuca de bico. Várias capaças, várias bolas, uma tacada e mil possibilidades de erro/acerto. E se eu for levar em consideração o meu jeito medíocre para praticar esse esporte, posso me considerar, realmente, enrolada. Rasguei todos os post-its, todos os nomes, todas as caras. Bom, nem todas. Salvei as duas últimas, que têm nomes parecidos, porque me fizeram bem, em momentos diferentes, mas bem. Bem…não sei.

Acontece que hoje fui assistir dois amigos tocarem jazz, num restaurante muito amável, mesa cheia, muitos aplausos, são muito talentosos, me diverti. Antes de ir embora, pedi dois vinhos, dispensei as abundantes companhias – nem sombra de onde qualquer affair já existente pudesse estar, por opção e por contingências – e pedi pra me deixarem em casa. Sozinha, liguei o Ryam Adams, que deve estar cansado de cantar pra mim e continuei a beber.

Se minha mãe soubesse iria mandar me internar. Porque é minha mãe, claro. Meu pai iria torcer o nariz e dizer que sou folgada: você malemá faz alguma coisa da vida e acha que pode se lamentar e encher a cara com um vinho caro. Bom, isso era aos meus 16 anos, mas esse vinho eu comprei, não é o seu, pai, então eu vou tomá-lo até o final. E não me chame de alcoólatra. Não sou, negarei até a morte – e se for de cirrose: parabéns pra você. O lance é que hoje cheguei a algumas conclusões.

Primeiro e rapidamente, porque estou cansada, quero tirar a meia-calça, o vestido e me ninar na minha grande e fria cama de casal para uma só pessoa. Primeiro: preciso desacelerar. Profissão não dá, vida social também não – com certeza, quando eu tiver filhos, vou aconselhá-los a não ter tantos amigos; muita cobrança, muito amor, é complexo tentar evitá-los. Sobrou a vida amorosa. Não vou conseguir substituir merda de gente nenhuma. Porque não dá pra substituir algo que não se tem, na pior das hipóteses, algo que não existe.

Segundo: desacelerar quer dizer “não vou criar mais post-its”. Quer dizer “sair para me divertir com os amigos”, “direcionar minha atenção para alguém que valha a pena”, “se não existir tal alguém, me divertir ainda mais, como antes, por quê não?”, “se existir tal alguém, lembrar o quanto posso ser carinhosa, leal e quentinha nesse inverno federal” e, principalmente, “colocar toda essa coisa de alguém em segundo plano”. Uma vez, há algum tempo, fui assim. Eu era eu, eu criava algos, eu mistificava algos, eu desmistificava algos, eu sorria, eu bebia, eu dançava, eu. Feliz.

Não vou dar créditos a quem me fez enxergar outro eu. Mas agradeço, claro. Depois de outros dois outros eus, sinto que hoje consigo criar o binômio “eu e você” e acho isso lindo. Lindo de morrer. Ah, o dia dos namorados está chegando e depois desse vinho tinto o que tenho a dizer é:

– Felizmente, não estou dando a mínima.

E só vou dar quando alguém, realmente, merecer. Nem tudo em minha vida é sobre isso, afinal. Desculpa, mas vou dormir ag…

Sobre os que vivem.

Não queriam mudar nada. Nem peso, nem cara, nem cor, nem casa. Não que fosse tudo interessante, animado ou sossegado. Não que fosse tudo fácil e bonito. Ou colorido, ou sensacional. Mas era infinito.

Eles não pensavam em como ia ser o amanhã.  Gostavam de falar sobre tudo. Só sabiam o que não queriam fazer. Sofrer, matar, cansar. Isso não podia. Correr, brincar, amar. Isso era delícia. Eles não queriam fingir. Eram inconstantes.

Tinham nome, sobrenome, roupa, comida, chinelo. Tinham fome, sede, vontade. Mas do que não existia. Não queriam julgamento, também. Por isso não julgavam. Todo dia, quando o sol os acordava, pensavam na chuva. Quando era o contrário, queriam a lua.

Não ligavam pra dor e sentiam todos os cheiros. Ociosos, atrasados, sedutores. Eram solteiros. E ninguém se importava. Ninguém queria, realmente, saber o que faziam. Comuns! Tão iguais a todos os outros. Mas não eram. Não porque tentavam se diferenciar. Simplesmente acontecia.

E a vida deles era a mais intensa e desejada na atmosfera terrestre.

Diálogo.

Ele largou o pincel no chão.

– Cansou?

– Eu acho que quero te pagar um aluguel.

– De onde veio isso?

– Estava sem fazer nada, vi um filme na tv. O carinha era pintor e não fazia merda nenhuma. A mulher trabalhava, toda arrumada, levava esporro de chefe e aquelas coisas de mulher adulta, como você.

Cigarro aceso.

– E daí?

– E eu me identifiquei.

– Ele pintava bem?

– Eu me identifiquei com um carinha da Sessão da Tarde!

– Se ele for bonito como você perdi um filmaço.

– Vitória…

– Oi.

– Você me ama tanto assim?

Cara de origami. Pausa dramática.

– R$ 150,00

– Quê?

– É o que me deve. Aluguel e tal.

Cigarro apagado.

Aí…

Aí, uma das pessoas que me colocaram no mundo, aquela da jaqueta jeans grossa, das camisas de flanela xadrez, do rock’n’roll alto no carro, da camisa 13 no futebol, da barba cerrada, dos olhos verde-cor-de-mel(da), cheio de argumentos para as discussões diárias, me diz: você fala muito “aí”, vício feio pra jornalista.

Aí, vou à toa pra faculdade, me estresso com todos, almoço com uns queridos e a menina da camiseta da Janis Joplin, cheia de bolsas no armário, que rouba pôster e o que der bobeira, apimentada, que pira ouvindo o Jim, meio esverdeada e toda colorida por dentro, me diz: eu acho que antes você estava bem consigo mesma.

Aí, um menino pergunta minha idade, o amigo diz que ele está interessado, eu tenho 21, ele desanima, eu pergunto se é muito, ele fala que tem 20, mas com 20 anos na oitava série?, ele se corrige, cheio de vergonha, tem 14, é um “aluno” meu, saio de lá cheia de exaustão, sem voz, mas o vento está ali nas árvores, me lembro dele, de como me fazia bem e digo: oi, vida!

Aí, eu vou entregar a câmera pro meu amigo da camiseta do Iluminado, auto-suficiente, que me proíbe de sair hoje, vai tirar carteira, cheio de coisas pra fazer, mas ainda é a pessoa que mais assiste séries e com quem é mais fácil conversar sobre cinema, ele gosta de blockbuster, eu gosto de cinema mesmo, piada minha, ele salva meu dia: pode levar o Elizabethtown.

Aí, eu ganho uma Havaianas exclusiva da Copa do Mundo, da outra pessoa que me colocou no mundo, cheia de óculos e terninho, uma mulher preto-chanel, que antes usava cardigã azul-marinho, sapatilha vermelha, franja sessentista, com aqueles olhos grandes, uma risada inconfundível, eu chamaria de palhaça, me diz: manda ele enfiar no cu dele.

Aí, eu como a comida boa da pessoa com quem divido o cotidiano, que tem coleção de lindos sapatos que não me servem, que é cheia de independência ou moda, dos cabelos também pretos feito breu, como os meus, que ocupa o meu computador a noite toda, porque o mouse do Mickey é mais gostoso pra jogar, e me diz: não vai pra quarta tilt?

Aí, eu pego meu edredon favorito da vida inteira, minha manta paraíba, calço minha meia-sapatilha, coca-cola e miliopã, ligo a tv e sofro com o Drew, admiro a Claire, choro com a Hollie e renovo um pouco as teorias. Me sinto um pouco melancólica, com excessiva vontade de me livrar das limitações, com vontade de apurar os instintos, acalmar os  sentidos.

Aí, de quebra, pra fechar com tudo o que não faz bem, vejo um histórico antigo, do menino dos óculos do cebolinha, que vi de fralda e que me viu de calcinha de frufru, com quem dividi mais da metade da minha vida, as manhãs, os almoços, as luas, com quem apostei corrida, picolé e soldadinho de chumbo, que sabe mais de mim do que eu mesma, pois nem sei quem sou, que diz: se você fosse uma música, seria Gerânio.

Aí, parei pra pensar em mim. No que eu sempre fui, no que estou agora, no que quero ser um dia. Fechei pra sossego. Porque o balanço me sacudiu demais nas últimas semanas. Quem sabe, aí, eu não chegue no lugar que o vento nas árvores do mapa que sigo quer me apontar.

– Menos poesia, mais alegria, Alegria.

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