Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “maio, 2010”

10ª Madrugada

Adquiri um quadro branco, desses tipo lousa, há uns dois meses. Na ocasião não sabia para que usá-lo, mas tinha gostado da moldura e, mesmo grande, o levei pra casa. Ele detestou, disse que era coisa de Scolfield e ficou com medo do que eu iria fazer com ele. Três dias depois decidi sua finalidade. Eu era ex de alguém e queria enfeitar aquela lousa em branco com nomes.

O quadro agora está repleto de post-its. Contei 11 nomes e 34 datas. Ou seja, duas datas por nome, às vezes uma, às vezes três. Nunca quatro. Raciocínio difícil, mas eu entendo perfeitamente o que se passa. São os substitutos. Tá bom, tentativa de. Ontem percebi que não vai ser tão fácil substituir, mas estou mais próxima de conseguir a façanha do que há 15 dias. Vamos aos que tem três datas. Sortudos eles, azarada eu.

Número 1. Dia seguinte ao fim. Eu chorava, descabelada, duas amigas tentando invadir meu quarto pra me fazer parar. Celular tocou. Vamos comer torta de frango e milho? Depois bolo de nozes e eu tô dentro. Vamos. Ele era certinho demais pra mim, mas estava afim, eu estava sozinha e com fome. Uma data. Ele sempre me chamava pra sair e eu, comprometida e fiel (sempre) –  nunca aceitava. A segunda data foi um churrasco com a família dele. A terceira um jantar. Adeus, tô solteira e não vou engordar.

Número 2. Esse eu conheci em um show. Brandon Flowers jogou uma rosa, ele pegou, eu quis uma rosa, ele me pegou. Ô verbo feio, né? Enfim, ele me ofereceu conhaque como se fosse café, eu não tomo café, ele desmentiu, eu tomei o conhaque. Loiro, diferente dos caras que sou acostumada a me relacionar. Ele tinha aquela inteligência canalizada e eu não achava muita graça em suas piadas. Depois vieram um cover num bar batido da cidade e uma tarde regada a Heinekens. Nunca mais vi. Mas conversamos sempre no messenger sobre filmes e séries.

Número 3. Cabalítico. Budista. Não-vegetariano. Fã das mesmas bandas que eu. Isso conta demais quando vou me relacionar com alguém. Mas eu nunca me relaciono, então tanto faz. Tinha barba e era xadrez. Roupa de cama, almofada na sala, xadrez. Se eu detalhasse um pouco mais, seria óbvio. Suas ideias eram meio loucas e o senso de (ir)responsabilidade me atraiu, instantaneamente. Bebemos um dia, outro dia e mais um dia. Vou me lembrar pra sempre desse, porque não  o considero uma tentativa de substituto. Ele acrescentou umas coisas em minha vida, em pouco tempo. É, marcou.

Número 4. O último. Resolvemos montar uma banda cover de Mutantes. Eu iria cantar e tocar guitarra em algumas músicas. Ensaíamos umas cinco vezes e eu gostei, ele também, mas nossos amigos odiaram. Começamos a escrever um roteiro juntos. Matamos cinco personagens em três cenas, de formas brutais demais. Sentimos medo de nós mesmos e beijos, amassos, queijos e passos. Andamos de mão dada pela cidade inteira. Saímos de uma festa maluca pra fazer  um tour em bares, jogamos sinuca em outro encontro, cinema e pizza no último. Hoje. Acabei de chegar. Colei o post-it.

Pernas pro ar, vontade de ligar pra ele, mas não posso, prometi que não iria. O substituto estava estranho hoje. Acho que tem mais gente na vida dele, assim como na minha. Entre nossos encontros, encontrei outra pessoa, mas não vou me sentir mal por isso. Estou tentando me desligar de alguém, oras. O problema é que usar as pessoas não é legal, eu sei, meu melhor amigo me falou, minha mãe também.

A boa novidade é que gostei bastante de um substituto, que não ganhou descrição. Estou olhando as três datas dele, mas ele sacaneou. Agiu como os homens de quem passo longe. Triste. Sem mais delongas: vou me retirar. Tenho que fazer yoga e dormir ouvindo a música que cantei pra ele na nossa última vez juntos (enquanto amores). Espero não chorar.

A fita branca.

Antes de mais nada, agradeço a @casadecultura pela oportunidade de assistir ao filme. Antes de tudo, um aviso: se você quiser se surpreender, sentir, pensar e (des)entender conceitos, vá ao Cine Com-tour assistir a esse filme de Haneke. O diretor é ousado, sempre dá o que falar e levou O Globo de Ouro e a Palma de Ouro (Cannes em 2009), com certo merecimento.

Ao sair do cinema, a primeira impressão é de: nossa, não entendi tudo, não gostei, argh, cenas fortes, vamos absorver. E o melhor é que você continua com todas essas sensações por horas. Sendo assim, bom filme. Além da incrível fotografia e dos planos-sequência brilhantes (que já valeriam um prêmio) tem ótimas interpretações, de atores em personagens que não se sobrepõem uns aos outros, mas se complementam para contar uma história de ódio, possivelmente relacionada a um prelúdio do nazismo.

A história de uma aldeia, na Alemanha pré- Guerra, onde alguns incidentes estranhos e chocantes começam a ocorrer, apresenta, em preto e branco, personagens fortes como um barão dono das terras, com empregados submissos, um médico autoritário relacionado com a parteira, que tem um filho com problemas mentais, um pastor protestante rigoroso, o professor-narrador que é tímido e muitas crianças cheias de tédio e repreensão.

As crianças dominam o filme e vão definindo o rumo (e não o contexto) da história. A maneira como eram punidas por atos que, muitas vezes, não eram ruins, transformou os adultos em seres “cruéis”. Porém, com o desenrolar dos fatos, as crianças começam a apresentar atitudes, senão parecidas, muito próximas à crueldade dos mais velhos, e elas acabam por ocupar o posto de vilãs, como todos os que habitam o local.

Todos esses personagens divindo a cena o tempo todo formam uma espécie de grupo do mal, ao meu ver, e daí todas as comparações do filme de Haneke às raízes dessa geração que antecipou o nazismo. Sob esse ponto de vista, essas pessoas representariam o tipo de gente que faria coisas como apoiar um Holocausto, por exemplo. A fita branca utilizada no filme como punição às crianças, representa a pureza e remissão dos pecados, e pode ser encarada como uma referência às estrelas que os judeus carregavam consigo.

No fundo, a sensação que prevalece é a de que estamos de frente para o mal sobre o mal. Ódio sobre ódio. Vinganças sobre vinganças e fica tudo meio sinistro. Eu poderia me alongar e apontar cenas marcantes, bons diálogos e tentar definir uma real explicação para o final do filme. Mas não vou, não posso estragá-lo com considerações banais – pelo menos não até que você o assista. Para pensar, gostar ou odiar, absorver esse filme que faz de tudo com você, mas não te deixa abandoná-lo.

O filme fica em exibição no Cine Com-Tour até 03 de junho, com sessões diárias às 20h30, e sessões extras aos sábados, domingos e feriados às 16h.

16

Astrologia? Que besteira! Sim, mil vezes, talvez mil e três, essa frase saiu da minha boca. Junto com pfffs e gritos de ai. Agora, sou uma capricorniana do primeiro decanato, que sempre foi assim, mas que agora sente isso. Insegura, mutável, sofre por amor. Sofro?

Sofro. Por não amar, também. Às vezes, criar escudos me cansa a um ponto que tenho vontade de quebrá-los. Mas aí, com incrível ocultismo sentimental, me lembro de como foi confuso e dolorido construí-los, de como tive que me portar com indiferença e, até mesmo, de forma rude, para que eles continuassem no lugar. Não dá pra simplesmente ignorá-los.

Vez ou outra resolvo baixar a guarda. Mas como não sou dessas que pensam antes de agir, já por impulso acabo sempre priorizando as barreiras. Daí vem um defeito: sou daquelas que depois da ação, pensa até não tolerar mais esse poder. É o que os outros signos chamam de “pira”.

Ah, pessimismo, agressividade, – você se acha mesmo superior aos outros? – não a todos, mas a vários, uma pontada de drama matinal, um gosto por coisas complexas, muitas vezes inexplicáveis, sou eu, incompleta, rígida com meus príncipios, que também não são lá grande coisa, apenas meus e claros a mim, simples, inesgotável.

Eu gosto de pensar que sou uma palavra sem fim, num papel cheio de rabiscos, bem no centro da vida, em que outros humanos, animais e inanimados constroem um cotidiano ao redor. Posso apagar letras, acrescentar sílabas, reformar acentos, questionar fonemas, existir sem fim.

No final: um livro. De uma palavra só, mas completo, com alma, voz e coração pulsante. Um livro desses bem grandes, com um título atrativo o suficiente para que alguém o coloque no colo, num fim de tarde de junho, para decifrar algum capítulo. E que esse alguém não o destrua, faça anotações, acrescente ideias com muito carinho.

Talvez ele possa rasgar umas páginas em branco. Escudos atrapalham qualquer leitura. Não existe imaginação ou felicidade mínima quando o leitor não está em sintonia com o autor. E que assim seja. Eu autora, você leitor. Eu atriz, você ator. Eu livro, você amor.

Tudo pode dar certo.

Estava com saudade de bons diálogos. Aí aproveitei uma ressaquinha – das boas – pra assistir Tudo pode dar certo (Whatever works) do meu querido amigo Woddy Allen. Explico nossa amizade com facilidade: ele faz filmes para mim e os assisto para ele. Muitas vezes imagino a existência de uma sintonia implacável entre nossas mentes – mas ele é genial e eu sou uma mortalzinha em combate. É quase como a história desse último presente que ele me deu. O Boris (Allen vestido de Larry David) é um “gênio” que se casa com uma loirinha sem graça, beirando a completa ignorância. Sim, o Woody foi louco e feliz ao colocar o cara que criou o Seinfeld e do Segura a Onda para nos impressionar.

Sei que muita gente odeia o meu querido, mas tenho a sensação de que vão gostar desse filme. É leve, divertido (mais fácil para quem já é acostumado ao estilo Woody de ser), tem uma Evan Rachel Wood que te anima com a falta de QI e o modo como encara a vida (eu diria que ela mandou bem como a mocinha do filme) e uma Patricia Clarkson igualmente boa, como a mãe que era caipira e religiosa e termina expondo pornografia em fotos – tem uma surpresa sobre a personagem que não vou contar, mas que me fez rir demais. E aquelas conversas cheias de referências, pessimistas e eloquentes que a gente tanto gosta (ou não, claro).

O Boris interage com o público – claro que o Woody ia querer falar diretamente comigo – e essa é uma das sacadas do filme. O personagem é um virginiano dos piores, sem dúvidas, porque além de ser hipocondríaco, lava as mãos cantando “Parabéns pra você” como forma de expulsar os germes. Viu como é divertido? Vou fazer campanha para os que gostam e os que odeiam assistam esse filme. Sei lá, talvez eu descubra se os filmes dele são tão bons mesmo ou se sou influenciada pelo nosso belíssimo relacionamento à distância.

Ps: a legenda desse trailer está uma eca.

9ª Madrugada

Tive mais um daqueles sonhos malucos. São sempre assustadores, complexos e sem saída. Ele estava nele hoje. Dirigia pelo banco de trás do carro! É possível? O que veio a seguir foi ainda pior: nós estávamos juntos. É possível? Não mesmo. Faz uma semana que tivemos aquela pseudo conversa-de-fim-de-relacionamento. Não chorei mais, comecei a dormir em diagonal na cama – assim não fica lado vazio, o calor se espalha e é interessante deixar o despertador no colchão. O criado-mudo perdeu metade da importância, tô pensando em colocar um vaso maior ali.

Sem sono. Acho que bebi demais, meu estômago está furado, como se tivesse sido baleada por alguma inimiga de cabelo de crepom. Tentei terminar o livro na metade O castelo, do Kafka. Sempre quis ter esse sobrenome na vida e no livro o personagem é quase tão hostilizado quanto eu. O fato do Kafka – adoro esse som: Kafka, Kafka, Kafka – ter morrido antes de concluí-lo é demais pra mim e me torna mórbida e mais esperta (nunca sabemos quando vamos morrer, vou deixar um novo clássico incompleto pra que alguém o compre por esse motivo).

Blábláblá. Peguei o telefone umas 29 vezes pra ligar pra ele. Mas não gosto de gente que liga pra ouvir a voz e não fala nada. Ele tem identificador, vai ver que sou eu, é fraqueza demais. Resolvi ligar pro otário do meu irmão, está em um bar old com os amigos old dele e não vem dormir em casa hoje. O infeliz já fez um furo no sofá. Liguei pra uma amiga e, com certeza, empatei uma foda dela. Ofegante, falando rápido que não podia falar rápido, eu ri. Liguei pro meu melhor amigo. Marcamos um sorvete amanhã. Mas não vou. Não quero ter que dizer: não, não segui nenhum dos seus conselhos; terminei com ele, sem querer e fiquei com um ex; sim, é dele que gosto, mas vou fazer o quê, porra? Não vou, não posso ir.

Quase me esqueci do meu último affair. Me ligou ontem, emputecido com minha ausência nos últimos dias, tudo porque não atendi os telefonemas dele. Não soube o que falar e inventei qualquer doença. Encontrei, por acaso, com ele num bar. Foi um dos momentos mais cretinos da minha vida. E agora fico nessa de querer solidão. Tô desejando isso, querendo as diagonais e um livro de sudoku de mil páginas. Cansei do cansaço. Vou colocar algum dueto moderninho que expresse minha vida amorosa pra tocar, tentar dormir, não sonhar, passar longe da catalepsia projetiva que me persegue, relaxar.


Abraços partidos.

Dificilmente vou assistir um filme inteiro dele sem me apaixonar, perdidamente, por uma única tomada. As cores? Sim, pode ser. Mas sou louca pela composição e encenação de Almodóvar. Elas deixam qualquer película linda de doer. Talvez se tirássemos os sons ou o contexto de Abraços partidos, eu poderia dizer que gostei do filme. Mas, é triste: não gostei.

Demorei pra assistir – a falta de tempo para o cinema me torna quase uma velha turrona – e terminei com a sensação de que não perdi muita coisa. O filme tem lá aquele ângulo masculino, do diretor que sempre se dedica às mulheres, mas tem também uns takes completamente inexplicáveis, fora do rumo da história, enquanto outros poderiam estar numa novela mexicana, sendo narrados pela equipe do Hermes e Renato. (- Quero um quarto e duas putas!) Não gostei mesmo.

Penélope, ó, Penélope. Sou fã dessa mulher. Ela salvou minha atenção. Se não estivesse no elenco com aqueles olhos chorosos, o dramalhão teria feito com que o The dark knight passando na tv fosse mais atrativo – perdi de assistir mais uma vez um filme com um roteiro cheio de peito e culhões). Penélope está linda, como sempre, e é Lena, amante de um figurão, que quer ser atriz e acaba se envolvendo com o diretor do filme dentro do filme, Mateo Blanco (Lluís Homar), que em determinado momento passa a narrar, cego, o que aconteceu anos atrás.

Não posso ser pretensiosa a tal ponto (ou posso, enquanto “cinéfila” aspirante a roteirista), mas uma das grandes falhas do filme é o roteiro. Não foi bem amarrado, misturou de forma forçada a ficção dentro da ficção e não correspondeu a nenhuma expectativa. Até existe uma vontadezinha de ver onde tudo vai acabar ou de tentar entender cenas que ficaram soltas, mas é só. Claro que um diretor do calibre 16 do Almodóvar deveria ter pensado nisso e cancelado vários planos-sequência que foram “ao ar”. Mas foi ele mesmo quem escreveu…

Em um mundo perfeito, nossos ídolos jamais errariam e aí não teríamos dificuldade alguma em avacalhar com eles, pois não seria necessário. Quero que o próximo de Almodóvar me traga a sensação de: gente, como alguém pensou nisso! que outros tantos dele me trouxeram. As cores vão ser sempre lindas, mas o enredo. Pfff, que medo!

Deles.

“Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos – e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso”

Caio Fernando Abreu escrevia para ele e para nós, sobre sexo, morte, solidão – medo, medo, medo – era dramático e viveu na época em que eu desejaria ter vivido. Alguns desses fatores ao se unirem com essa citação me fazem compreender que seríamos grandes amigos e compartilharíamos desamores e temores (horrores e favores) em cartas únicas. Sonho. Diz a @marciaboroski que lembrou de mim ao ler esse parágrafo – e não sei se fico feliz por caber nas palavras de Caio ou se fico muito triste por seu conteúdo. Seja qual for o melhor estado de espírito, concordo plenamente.

8ª Madrugada

Ele me olhava com aqueles olhos ressentidos. O cabelo estava molhado, vestiu uma camiseta amassada e me deixou passar. Sentei com mais cuidado do que o normal. Não me sentia bem ali. Vi que o porta-retrato não estava mais ao lado da tv. Não sabia se isso era bom ou muito ruim. Ele desligou a trilha do Kill Bill que estava tocando. Sabia que eu gostava. Colocou Mutantes. Foi aí que meus olhos encheram de lágrimas. Mas ele não viu, estava gritando da cozinha se eu queria beber algo.

Voltou com duas Heinekens, sentou na poltrona amarela e continuou com o ressentimento nos olhos. Eu já tinha tirado o esmalte de três unhas, sem nem olhar pros dedos. Começou a tocar Desculpe, babe, ele jogou o chinelo no rádio que ficou quieto. Fiquei com medo do pé esquerdo vir parar na minha cara, então silenciei mais um pouco. Ele continuou me encarando. Estava com desgosto na marca de expressão da testa. Comecei a transpirar, tirei o casaco e ele desviou o olhar. Amém.

Tomei a cerveja em três goles e resolvi falar. – Eu só queria que não fosse assim. – Você não quer nada, não sabe de nada, você é nada. Eu deveria jogar minhas duas botas na fuça do infeliz. Mas tirar bota dá um trabalho do inferno. Não valia a pena. – Se você vai começar com grosseria, estou indo embora. Ele voltou a encarar. Bebia tão devagar a cerveja, sem desviar os olhos pequenos e largos – eram os olhos franceses mais típicos do lado oeste da cidade – meu coração já tinha explodido.

Eu não ia falar mais nada. Ele resolveu parar com a tortura. – Eu sempre vou gostar de você. Sério. Não dá pra te esquecer, já me acostumei com isso. Mas não quero mais. Não consigo. Você não é nada, mas vai ter que se tornar um nada, senão é só vazio. Preciso imaginar que fui eu quem quis assim. Senão não vou conseguir. Nem lembro se foi essa a ordem, ou as palavras exatas. Eu estava muito desconcentrada, sentindo o cheiro dele queimando minhas narinas, tudo estava tão quente… – Se você for embora agora, nunca mais vou te procurar. Vou te agradecer pra sempre.

Não sei como cheguei em casa, não lembro do caminho de volta. Mas devo ter sujado a cidade com meus passos ensanguentados de dor. Agora é só saudade.

#

Hoje acordei meio Coco, antes de Chanel e da ida ao mar, cheia de golas e listras, completamente contra o excesso de simpatia.

Ele.

Eu deveria falar mais sobre ela, para não me arrepender. Eu sei.

Feche os olhos. Dez passos até o carro.  O que tem aí? Um saco de estopa agitado. Abre os olhos. Lindo. Branco, manchinhas marrons, focinho cor-de-rosa chá. Um amor. Pequenino, inocente, nem sabia latir. A falta de criatividade infantil teve a brilhante ideia. Beethoven. Bee. Por muito tempo o bebê, depois o sapeca, mais tarde terrível. Amigo.

O Bee expulsou o Dudu quando chegou. Dudu pegou seus bigodes e partiu telhado afora. No começo, quis miar para encontrá-lo, mas entendi que ele não queria dividir. Nem o espaço, nem os abraços. Senti falta, mas ele estava ali. Lambendo meu pé, cheirando meus calcanhares, amolecendo meu coração. Cresceu arteiro.

Ele ficava sempre do meu lado. Quando eu chegava do colégio era festa. Quando eu chegava meio bêbada era desconfiança. Quando eu chorava, ele sentava bem perto, encostava o focinho e faltava falar. Mas nem precisava. Era mão com pata. Sorriso com rabo abanado. Grito com latido. Conversávamos feito loucos. Saudade.

Foram dez anos de Bee no cotidiano. Ele não podia pisar na grama – coisa que ela faz. Ele sentava para pedir comida – coisa que ela ainda não faz. O corredor dele era o da frente – o dela, o do fundo. Ele era calmo, sereno e muito bravo – ela é agitada, destruidora e muito mansa. Bee era um irmão. Aretha é uma filha.

Eu poderia escrever 100 dessas e não conseguiria representar o que ele foi pra mim. Vou escrever mais sobre ela, para não me arrepender depois.

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