Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “outubro, 2010”

Casamento.

Casamento é uma festa cheia de gente conhecida, querida e bem vestida. É uma oportunidade para beber até cair – ou sair com o vestido branco de noiva todo gorfado. É uma cerimônia imensa, em que você fica imaginando cenas de violência e tensão nos vitrais da igreja. É a mesma cerimônia que te faz bocejar cinco vezes por segundo. É o desejo de ser criança de novo e ter a licença social de ficar sentado o tempo inteiro. É a vontade infinita de gritar: eu tenho algo contra esse casamento.

Casamento é o que meus pais não têm mais. É aquilo que eu profetizei a vida toda que não teria. É o lance, que se rolar, vai me deixar com um vestido bonito, ao som de Glory Box.  É algo que minha mãe me aconselha a não fazer tão cedo. É algo que meu pai acha que me faria mais sossegada no futuro. É algo que minha irmã gostaria de ter. É algo que nunca encenei com minhas Barbies. É aquilo que faz com que pessoas apaixonadas se odeiem. É o lance que faz você gastar os tufos com festa e depois o resto dos tufos com o divórcio. É uma coisa para a qual não existem perspectivas muito animadas. Pelo menos pra mim.

Casamento é o que meus avós paternos têm há 52 anos. É o que meus avós maternos não têm há 29 anos. É a constituição da família. É a barriga da mulher cheia de filhos. É o marido levando os filhos pra brincar no domingo. É o casal se matando de trabalhar pra bancar as crias. É sexo disponível o tempo inteiro. É sexo que tem que cuidar o triplo pra não virar rotina. É sexo sem camisinha. Ou não. É sexo que não acaba mais. Ou não. É a mulher inventando desculpas. É o marido chegando mais tarde. É o casal sem tempo para amigos solteiros. É o casal indo ao cinema juntos, fazendo viagens, nutrindo o amor que os levou ao casamento.

Casamento. Não consigo achar a palavra legal. Me soa comprometimento, desentendimento, lamento.

O pior de tudo é que quem mais fala mal costuma casar e cedo. Quando marcar, aviso.

Post-it.

Quando acordar dê dez passos, pare no corredor e só então abra os olhos. Se você não sorrir, eu corto meu cabelo.

 

Situações: o primeiro beijo

Situation number three – третье место – Pozycji numer trzy

28/12/02

Primeiro chiclete. Depois um gosto de corpo humano. Sede. Cabelos pretos, encaracolados, praianos. Mais sede.

Melissa havia debutado há pouco. Os pais, separados, fizeram uma bela festa de 15 anos, naquele jeitão caipira-chique. Ela se recusou a usar o vestido-bolo, mas exigiu lembrancinhas cor-de-rosa para todos os 140 convidados. Para continuar a comemoração, foi pra Ilha do Mel com um grupo de amigos. O pai era tão liberal, que além de comprar os cigarros de Melissa, estocou em sua bagagem um arsenal de camisinhas.

Precoce em quase tudo, Melissa ainda não tinha experimentado um beijo. Morria de curiosidade e após gostar do Vinicius aos 10 anos e do Alex aos 13, não nutria muitas expectativas de que o feito pudesse ocorrer um dia. Estava, então, largada em toda sua adolescência transviada, de biquíni branco e rosa chá, de bruços em cima da canga da Moranguinho, fones de ouvido, lata de cerveja esquentando ao sol, Oliver Twist entre os dedos inquietos. Nabocov a teria comido, sem cerimônias.

Lucas tinha a maioridade no RG, no meio das pernas e em cada fio do cabelo desgrenhado que mamãe lho deu. Bermudão listrado, relicário e uma tatuagem na costela esquerda. Sentou do lado da lolita Melissa, que cheirava Sundown e nicotina, e começou a perguntar sobre o livro. Não percebeu que a garota estava com fones de ouvido, que lhe davam Pearl Jam no talo, e que jamais se atentaria ao papo furado.

Pediu para deitar ao seu lado. Disse que quem cala consente. Achou uma brecha no tecido e entrou de ponta cabeça no raio de visão da menina. Ela começou a tremer com a proximidade, desligou a música, quis gritar. Mas só conseguia olhar nos olhos do colírio que não era famoso – hoje, Lucas é elenco de um programa humorístico meia boca, num canal fechado – e desejar, intensamente, que existisse mais vida em sua vida juvenil.

Ele disse oi. Ela respondeu. Ele disse linda. Ela agradeceu. Ele disse bom? Ela assentiu. Ele disse posso? Ela fechou os olhos. Ele agarrou seus cabelos virgens como todo o resto, de leve, foi puxando, devagarzinho, seu rosto em direção ao dele. Foi o primeiro beijo mais estranho do planeta. Do avesso. Meio salgado. Ele quis bis. Ela questionou se lá seria o mesmo gosto. Ele sorriu. Ela questionou o porquê.

– Você é bonita demais para ler histórias de órfãos na praia.

Bilhete.

A delicadeza do sussurro da sua voz. Aquele pequeno sopro de dia feliz que deixou em mim ao acordar e me deixar pra trás. Pra que eu dormisse mais um pouco. Pra que eu me perdesse da rotina. Pra que eu conseguisse pálpebras abertas para o trabalho. Aquele cheiro de amor cheio dos cinco sentidos. Pra que eu sentisse saudade. Pra que eu não arrumasse a cama. Pra eu espreguiçar minha alma. A descoberta de que o céu mora embaixo do seu teto.

Volto logo, não demoro. Troque os lençóis. Vamos incendiar todos.

Você e eu.

#

Hoje acordei meio Marla Singer.

SWU!

Se um dia eu terminar nessa de jornalismo mesmo, estou meio ferrada. A tal da necessidade de noticiar tudo o mais rápido o possível, porque senão aquilo “perde o valor”, “passa da conta” e outras besteiras do tipo me irritam. Eu gosto de falar depois, ué. Quando dá vontade. Oremos pelo nosso futuro incerto e possivelmente complexo, procrastinadores. Sem mais enrolação – porque já vai fazer uma semana – vou dizer o que achei do Starts With yoU.

 

Palco Ar e uma Letícia querendo trocar sua camisa xadrez com algum flanelado.

Com toda a ansiedade que me foi permitida em vida, esperei o dia 11 – o terceiro dos três dias de evento – com muita vontade de ver os shows das bandas Incubus, Queens of the stone age e Pixies. Sim, eu mal lembrava que ia rolar Linkin Park. Como minhas amigas já tinham ido nos dias anteriores, consegui me preparar para o frio mortífero que fez naquela Itu – nem vi nada gigante, nem a roda era gigante, pff – e também já estava ligada nos esquemas pra entrar e tudo mais.

Muita gente. Gente pra caralho mesmo. Consegui encontrar pessoas na maior cagada do mundo, as que eu menos imaginei que pudesse avistar entre a multidão. Tanta gente e tudo o que a gente queria era um bom lugar para ver os shows. Antes de falar deles, inclusive, cabe dizer como faltou segurança lá. Não é nem porque tive o celular roubado por um cara de pau do inferno. Mas o processo de revista corporal e das bolsas, era muito mal feito, desorganizado e tal. Eu saquei o que qualquer pessoa mal intencionada poderia sacar em segundos – esquemas pra entrar com a minha Magnum mesmo (muito pesada pra levar na bolsinha).

Fora isso e as incansáveis filas pra qualquer coisa, menos pro banheiro, que tinha bastante, não preciso reclamar de muita coisa. Até pra ir embora depois dos shows foi tranquilo, porque no terceiro dia eles “costumam” resolver o que deu errado nos primeiros e patatipatatá. Depois de ouvir Mombojó cantando a música da minha vida, canalizei minhas expectativas para o show do Incubus – que é muito mais do que o gostoso-delicioso-e-múltiplos-talentos-e-vocalista Brandon Boyd. Foram os 60 minutos mais lindos desse ano.

*eu queria vídeos melhores desse show*

A sensação era de que era o último show da banda e que por isso foram de toda alma e coração. Foi tão bom, que me paro, constantemente, vagando e lembrando de momentos do show. Depois de um atraso considerável, o Qotsa entrou pra acabar com o que restava das minhas pernas e do meu fôlego. Foi uma sequência inicial destruidora e só faltou mais uma meia hora de show pra ser mais sensacional o possível.

Eu queria tanto! ver Pixies – mas a galera queria ver Linkin Park, então acabei ficando longe do palco e num lugar em que ninguém respeitava a banda. Tive que ficar aplaudindo as músicas sozinha e ouvindo gentinha dizer: saiam logo daí, seus merdas e por aí vai. Eu ri por dentro quando eles voltaram pro bis. As pessoas deveriam ser mais educadinhas e cabeça musicalmente aberta pra ir num festival desses, né? Tipo eu, que curti o show do Cavalera na mesma proporção em que não gostei do Yo La Tengo.

 

Torre construída com latas de Heineken.

Os caras do Linkin Park mandam bem pra caramba, o show é todo espetáculo e tal, mas eu já estava esgotada demais pra me animar além das Numbs da vida. Sobre esse esgotamento, inclusive, não sei como a galera que foi nos três dias conseguiu sobreviver – ou se fizeram um preparo físico completo antes. A pedrada é forte demais. Só ontem consegui andar sem parecer que fui atropelada por duas mobiletes.

E o que ficou? Uma vontade imensa de ter isso todo dia, de me infiltrar na equipe do Incubus e cair em turnê com eles, de que o festival volte a acontecer, só que mais organizado, num lugar mais próximo, talvez. Até numa carreira de groupie deu pra pensar. Pelo menos cobrir festivais musicais. É, acho até que eu noticiaria tudo o mais rápido o possível. Aí, eu sinto que eu não mereço outra vida, a não ser a de uma rockstar

 

Nós quase congelamos no final, mas valeu cada segundo.

Foto do palco Ar e da torre de Heinekens: Beto Carlomagno. Outras fotos: anônimos.

Se eu pudesse…

…voltar no tempo, diria X.

Carta.

“Querido, analista. Estive aí na frente por mais de 15 minutos. Mas, de repente, começou a me dar uma tremedeira, olhei pra cima, vi que o tempo tinha fechado, não deu pra esperar. Eu sei que não era hoje minha sessão, mas eu acordei precisando falar com você. Eu poderia falar com meus amigos, mas eles têm se limitado a fingir que me ouvem, sem sequer saber sobre o que falo. Minha vizinha, Vitória, a bruxa, quer mais é que eu morra. No fundo, ela deve saber do interesse mútuo que eu e o loirinho dela nos nutrimos. Chegar perto dele pra contar problemas, você sabe que eu jamais faria isso. Mesmo sendo namorado da minha amiga vizinha, é um alvo em potencial. Aliás, assim que eu terminar isso vou chamá-lo para uma corrida, preciso emagrecer, hoje  a minha calça nova não entrou em mim, comprei um número menor pra evitar engordar, mas não deu certo. Pensei em cortar meu cabelo, mas aí me deu uma preguiça e aquela vontade de chorar e resolvi ficar com esse cabelão mesmo. Na verdade, não posso desperdiçar minha carta pra você, não vou te ver pelos próximos três dias. Ando sonhando, diariamente, com a minha mãe. Ela não existe mais aqui. Mas teima em aparecer, me dando os sermões de sempre. Como se tudo o que eu fizesse fosse horrível, como faço para superar mais essa bruxice da vida? Tente me responder, preciso conversar com alguém. Ainda ontem, um moço desconhecido que encontrei no bar me disse: Não sei como você pode estar sozinha, sem um namorado do lado. Respondi uma coisa que acho que você vai gostar. Eu disse: Mas se eu estivesse com alguém, como poderia dormir com você hoje? Mas, não, nem dormi com ele. Eu fui embora enquanto ele roncava. Homem que ronca jamais.

ps: me desculpe se você ronca.

Ass: Penélope”

19ª Madrugada

Tive três sonhos curtos, consecutivos, em intervalos que intercalavam sono profundo com acordar assustado. No primeiro deles, eu estava em uma ilha, aparentemente deserta, colhi dois cachos de uvas, bem doces, quase aveludadas. De repente, vi uma criança nadando contra uma micro corrente que se formou nas águas transparentes do mar. Tentei correr para ajudá-la, mas não consegui sair do lugar. Meus pés, cheios de areia, estavam presos e tudo o que eu podia fazer era continuar comendo uvas. Cega por um raio solar, bem no meio da retina, acordei.

Assim que Orfeu chegou de novo – e essa expressão “cair nos braços de Orfeu” é uma das mais bonitas que o teatro já nos deu de presente – comecei a sonhar de novo. Dessa vez eu era narradora observadora de um casal de senhores. Dois homens, mãos dadas, caminhavam rindo ali perto da padaria do seu Antônio, e me desculpe se você não sabe de quem estou falando (o seu Antônio sequer existe, estava num sonho). De repente, o mais novo, lá pelos 74 anos, soltou as mãos e começou a correr. O mais velho, lindinho com cachecol xadrez e all-star marinho, uns 79 aninhos, gritou: não! Aterrorizada pelo grito, acordei.

Duas reviradas pela cama, uma ajeitada de travesseiro no cangote, novo sonho. Voltei a dar as  caras, num vestidinho estampado marcado demais – puta figurinista ruim, hein – e estava no fundo de uma casa imensa. Lá tinha um pé de jaca, com todo aquele cheiro de nojo, uma piscina bem suja e muitas pessoas. Identifiquei alguns amigos, que por algum motivo não eram meus amigos, pois não conversavam comigo. Identifiquei uma menina sem rosto, que me dizia oi e contava todos os podres de uma outra menina sem rosto. De repente, avistei no pé da jaqueira, um casal sentado, a menina entre as pernas do menino. Dois amantes completamente desconhecidos. Achei tão lindo, que sorri com uma boca enorme, achei uma cerveja no chão e fui saindo da casa.

Acordei há cinco minutos, com uma mão na fechadura da porta de entrada. Estava saindo de casa. Camisetona, meias de dedinho e os olhos cheios de cansaço. Pra chegar a andar dormindo preciso estar exausta. E assim tenho estado. Uma exaustão física, que apenas shows alucinantes de puro e bem feito rock’n’roll podem explicar. Uma exaustão mental, que apenas um acúmulo de coisas para resolver no trabalho pode causar. Uma exaustão emocional, que apenas um ser humano inconstante e megalomaníaco poderia provocar.

Agora que não estou sonhando, tudo parece mais fácil. Não tem nenhuma criança se afogando, a não ser a que vive em mim, dia após dia e me faz crescer. Não tem velhinhos se separando com a morte, a não ser as perspectivas de amor puro, livre e duradouro, que caem por terra a cada novo envolvimento. Não estou em nenhuma dessas festas alucinantes, em que tudo o que me sobra são cervejas e a vontade de ir embora sozinha. Não preciso mais sofrer.

Está tudo tão bonito. O céu estrelado lá fora parece infinito. O meu amor por mim cresceu tremendo feito um vulcão de felicidade que se instalou em meu ser. Sinto a lava preenchendo minhas vértebras, sinto a paz queimando minhas neuras. E vou dormir, agora, sentindo todas as dores boas do mundo.

 

Maturidade.

Dizem que não vende. Mas que dá pra comprar. Acabo de ter uma grande prova – e não é nada científico, mas a percepção é algo que muda vidas – de que a maturidade está sempre muito distante de nós. Todos.

Não pretendo fazer posts respostas a situações específicas do meu cotidiano – nunca precisei disso, não vai ser agora. O que sempre fiz e continuarei fazendo, no entanto, é trazer o que eu quiser e bem entender, da minha vida e dos outros, mas sempre vida, para cá.

Eu me identifico, diariamente, com Caios, Clarices, Davids, Williams,  Adélias, Brandons, e não deixo de ter minha própria vida e percepção da realidade. Tantos, surpreendentemente, se identificam aqui, que me alegro e me espanto ao saber.

Sempre fui da opinião, madura, de que ser usado para virar história é sensacional. Mas sempre fui contra usar para ferir, para tirar o corpo fora e coisas do tipo. Esse post não é uma retratação, porque todo o blog retrata o que quero chamar de vida. Ficcional ou não.

Agradeça quando alguém achar que você vale uma história. Mesmo que de um blog qualquer. Agradeça. E entenda, que seja quem for, vai te misturar, no mínimo, com o que ele queria que fosse. Respeito eu tenho, sempre terei, mas maturidade…ai, onde compra?

Que venham as próximas madrugadas.

*Melhor show do SWU!

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