Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

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The Strokes.

Sempre imaginei como seria o momento em que, sem ter como voltar atrás, os avistaria de tão perto que seria difícil segurar o ar dentro dos pulmões. Apesar de imaginar, como tantas outras coisas, não contava, efetivamente, com tal astúcia. Era sempre um não-sei sem-fim. Eles poderiam entrar em um hiato eterno, nunca virem ao meu país, pensamentos pessimistas como a dona. Cogitar um show perfeito dos Strokes, uma das minhas bandas favoritas da vida toda, era muito pra mim. Até que tudo esteve na frente dos meus olhos. Aquela sensação que invadiu meus espectros e tem me dado forças para aturar o cotidiano sem a perfeição, essa tal de mortalidade.

Era um sábado, um sábado recente, vesti roupa de fã clube junto com uma pessoa apaixonada por eles como eu. Thaís foi a companheira de ansiedade, de uma espera absurda, que nos fez chorar com as possibilidades, com os momentos, com o fim. Eu tentei acompanhá-la, assim como Felipe, mas ela teve cotovelos mais fortes do que os meus para se aproximar de nossos ídolos. Depois de toda a espera espiritual, acompanhar os três shows que antecederam “o da vida” foi fácil. Difícil foi conseguir respirar quando todos os outros grandes fãs dos Strokes resolveram garantir o seu lugar. Entre atritos com playboys dissimulados – fãs de Beady Eye, pffff – e a sede por água e todo aquele repertório magnífico…eles entraram no palco.

Obviamente, as pontas dos pés não foram suficientes para visualizar cada detalhe possível. Estava tão perto que conseguia vê-los da cabeça aos pés, os detalhes das roupas e dos instrumentos, tudo na frente do meu nariz. As duas primeiras músicas pareciam meu inferno astral, tamanha falta de ar e desorientação que me acometeram. Pensei em desistir de viver, ali, entre os riffs tão esperados, mas o exagero ficava piscando, dizendo: pára com isso, eles estão aí, aproveite. Quando finalmente consegui absorver onde estava, o que estava tocando, quando pude pensar “vai dar tudo certo, estou viva, desmaiar é para os fracos”, eis que os amados (apelido da adolescência, com a eterna Ana Júlia Casablancas) começam a dedilhar The Modern Age e Fabrízio, com suas baquetas icônicas, me fez chorar feito um bebê. Bebê desses que acaba de nascer.

Depois disso, tudo foi ainda mais sublime. Alcancei o estado de observação ideal. Eu podia pular, cantar, vê-los nítidos como num vídeo de Mallick, mas ali, dentro do meu presente. Perfeição. Nada mais define esse show. Os Strokes no Brasil, minha vida acadêmica por um fio para o fim, meus sonhos e planos cada vez mais aguçados… Me senti mais próxima de um paraíso como nunca. E eu queria tanto que eles olhassem pra mim, como se fosse necessário dizer: eu gosto tanto de vocês, que poderia morrer aqui, agora, ou daqui a pouquinho, quando acordar desse sonho. Foi quando Eduardo me proporcionou um dos momentos mais fantásticos da minha vida de fã inveterada. No meio de Alone, Together, ele me levantou do chão e me colocou frente a frente, em visão aérea com todos eles. Infelizmente, não sabia o que fazer com minhas mãos, que passaram de “mãozinhas de rock”, a beijos alucinados e acenos sem parada, até que Albie, no ápice de sua bondade, retribuísse o aceno como em um clipe strokiano. Meu dia estava feito.

Imagino que todos sejam fãs de alguma coisa, e acho até triste se uma pessoa não consegue gostar tanto de algo a ponto de quase ficar sem estômago esperando por ela. Vivemos nesse mundo cheio de fanatismo doentio, e por mais que pareça doença, a música dos Strokes me fez bem nos piores e melhores momentos da minha vida. Foi em um momento cabalítico da minha existência que eles surgiram pregando que ninguém iria entender, mas que a música estava ali. Pra ajudar. Idolatro-as, nesse sentido, sem medo de pieguices ou resquícios de aborrescência. Só me envergonho de não ter tido “pinto” suficiente para correr em direção ao palco, como tanto cobicei e prometi.

Os amados no auge da minha aborrescência.

Quando pensei que tudo estivesse acabado, eles voltaram para um encore que quase provocou a minha morte. Imagine, o que meu coração não sentiu, quando Jules e Nick voltaram sozinhos ao palco para Under Control na capela. Imagine, o que não tive que derramar de lágrimas ao, na sequência, eles tocarem Hard to Explain, possivelmente minha música favorita deles. Imagine qual não foi o poder de libertação quando encerraram o show da minha vida com Take it or Leave it.

De tanto imaginar eu cheguei lá. E sou tão mais feliz agora, que percebo que só eles, mesmo, me fariam me sentir assim. Só os amados.

Deles.

“A besteirada cobria vários anos e a mãezinha devia preencher um tipo de inventário a cada aniversário de seu rebento. No décimo segundo de Lô, no dia 1º de janeiro de 1947, Charlotte Haze, née Becker, havia sublinhado os seguintes dez adjetivos entre os quarenta disponíveis sob a rubrica “A personalidade de seu filho”: agitada, agressiva, argumentadora, desatenta, desconfiada, impaciente, inquisitiva, irritadiça, negativista (sublinhado duas vezes) e teimosa”.

Vladimir Nabokov é o autor de Lolita, minha leitura de cabeceira no momento, livro do qual tirei essa citação. Como fã fervorosa de Stanley Kubrick – que junto com Martin Scorsese, Charlie Kaufman, Quentin Tarantino, Alfred Hitchcock e Steven Soderbergh, forma o meu clube dos sonhos da sétima arte – sempre tinha Lolita como leitura obrigatória, para sacar os referenciais presentes no livro/filme, coisas que quem gosta muito de cinema e literatura faz.

Obviamente, escolhi esse trecho assim que o li. Lô é capricorniana, risos, signo complicado, risos, e sua mãe pulou adjetivos “melhores” para descrever sua personalidade. Risos. Bate com a minha? Bingo. Claro que Nabokov fez história e escola, não foi à toa, e tem uma narrativa deliciosa, que já me fez rir em vários momentos de uma história sobre pedofilia. Ainda estou na metade, mas sei bem o que me aguarda. O poder de um bom escritor é esse: faz com que o leitor “esqueça” de como seu personagem é um sacana. Nabokov está entre os grandes.

Pedófilos devem padecer das piores enfermidades na cadeia. Só pra constar.

Deles.

“Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos – e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso”

Caio Fernando Abreu escrevia para ele e para nós, sobre sexo, morte, solidão – medo, medo, medo – era dramático e viveu na época em que eu desejaria ter vivido. Alguns desses fatores ao se unirem com essa citação me fazem compreender que seríamos grandes amigos e compartilharíamos desamores e temores (horrores e favores) em cartas únicas. Sonho. Diz a @marciaboroski que lembrou de mim ao ler esse parágrafo – e não sei se fico feliz por caber nas palavras de Caio ou se fico muito triste por seu conteúdo. Seja qual for o melhor estado de espírito, concordo plenamente.

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