Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “novembro, 2011”

The Strokes.

Sempre imaginei como seria o momento em que, sem ter como voltar atrás, os avistaria de tão perto que seria difícil segurar o ar dentro dos pulmões. Apesar de imaginar, como tantas outras coisas, não contava, efetivamente, com tal astúcia. Era sempre um não-sei sem-fim. Eles poderiam entrar em um hiato eterno, nunca virem ao meu país, pensamentos pessimistas como a dona. Cogitar um show perfeito dos Strokes, uma das minhas bandas favoritas da vida toda, era muito pra mim. Até que tudo esteve na frente dos meus olhos. Aquela sensação que invadiu meus espectros e tem me dado forças para aturar o cotidiano sem a perfeição, essa tal de mortalidade.

Era um sábado, um sábado recente, vesti roupa de fã clube junto com uma pessoa apaixonada por eles como eu. Thaís foi a companheira de ansiedade, de uma espera absurda, que nos fez chorar com as possibilidades, com os momentos, com o fim. Eu tentei acompanhá-la, assim como Felipe, mas ela teve cotovelos mais fortes do que os meus para se aproximar de nossos ídolos. Depois de toda a espera espiritual, acompanhar os três shows que antecederam “o da vida” foi fácil. Difícil foi conseguir respirar quando todos os outros grandes fãs dos Strokes resolveram garantir o seu lugar. Entre atritos com playboys dissimulados – fãs de Beady Eye, pffff – e a sede por água e todo aquele repertório magnífico…eles entraram no palco.

Obviamente, as pontas dos pés não foram suficientes para visualizar cada detalhe possível. Estava tão perto que conseguia vê-los da cabeça aos pés, os detalhes das roupas e dos instrumentos, tudo na frente do meu nariz. As duas primeiras músicas pareciam meu inferno astral, tamanha falta de ar e desorientação que me acometeram. Pensei em desistir de viver, ali, entre os riffs tão esperados, mas o exagero ficava piscando, dizendo: pára com isso, eles estão aí, aproveite. Quando finalmente consegui absorver onde estava, o que estava tocando, quando pude pensar “vai dar tudo certo, estou viva, desmaiar é para os fracos”, eis que os amados (apelido da adolescência, com a eterna Ana Júlia Casablancas) começam a dedilhar The Modern Age e Fabrízio, com suas baquetas icônicas, me fez chorar feito um bebê. Bebê desses que acaba de nascer.

Depois disso, tudo foi ainda mais sublime. Alcancei o estado de observação ideal. Eu podia pular, cantar, vê-los nítidos como num vídeo de Mallick, mas ali, dentro do meu presente. Perfeição. Nada mais define esse show. Os Strokes no Brasil, minha vida acadêmica por um fio para o fim, meus sonhos e planos cada vez mais aguçados… Me senti mais próxima de um paraíso como nunca. E eu queria tanto que eles olhassem pra mim, como se fosse necessário dizer: eu gosto tanto de vocês, que poderia morrer aqui, agora, ou daqui a pouquinho, quando acordar desse sonho. Foi quando Eduardo me proporcionou um dos momentos mais fantásticos da minha vida de fã inveterada. No meio de Alone, Together, ele me levantou do chão e me colocou frente a frente, em visão aérea com todos eles. Infelizmente, não sabia o que fazer com minhas mãos, que passaram de “mãozinhas de rock”, a beijos alucinados e acenos sem parada, até que Albie, no ápice de sua bondade, retribuísse o aceno como em um clipe strokiano. Meu dia estava feito.

Imagino que todos sejam fãs de alguma coisa, e acho até triste se uma pessoa não consegue gostar tanto de algo a ponto de quase ficar sem estômago esperando por ela. Vivemos nesse mundo cheio de fanatismo doentio, e por mais que pareça doença, a música dos Strokes me fez bem nos piores e melhores momentos da minha vida. Foi em um momento cabalítico da minha existência que eles surgiram pregando que ninguém iria entender, mas que a música estava ali. Pra ajudar. Idolatro-as, nesse sentido, sem medo de pieguices ou resquícios de aborrescência. Só me envergonho de não ter tido “pinto” suficiente para correr em direção ao palco, como tanto cobicei e prometi.

Os amados no auge da minha aborrescência.

Quando pensei que tudo estivesse acabado, eles voltaram para um encore que quase provocou a minha morte. Imagine, o que meu coração não sentiu, quando Jules e Nick voltaram sozinhos ao palco para Under Control na capela. Imagine, o que não tive que derramar de lágrimas ao, na sequência, eles tocarem Hard to Explain, possivelmente minha música favorita deles. Imagine qual não foi o poder de libertação quando encerraram o show da minha vida com Take it or Leave it.

De tanto imaginar eu cheguei lá. E sou tão mais feliz agora, que percebo que só eles, mesmo, me fariam me sentir assim. Só os amados.

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Madre.

Talvez porque ela tenha sido, de fato, minha segunda mãe. Talvez porque ela ministrou doses de sentimento puro e simples em meu pequeno e frágil coração. Talvez porque a confiança em seus conselhos e ensinamentos me tenham feito desmaiar, ao mesmo tempo em que eu crescia uma década. Talvez porque a saudade contagie meus neurônios sempre que uma gota de infância cai em cima das minhas costas. Onde habita o meu coração.

Eu fecho os olhos e consigo me ver na 122, aquela casa cheia de espaço e carinho, em que minhas dúvidas se resumiam a quantas folhas de videira eu conseguiria pescar, enquanto disputava corrida com meu menino favorito. As tardes, os retalhos, os panos de prato pintados – eu cobiçando um talento para as artes que nunca foi possível – o cheiro do pão de queijo feito a seis mãos…Ela era sorriso, brincos imensos, batom vermelho, mangas efusivas, risadas contagiantes, aquele cabelo preto que fazia com que nos confundissem como mãe e filha, abraços eternizados nas minhas melhores lembranças. Minha madre!

Sempre me orgulhei de tê-la como mãe, amiga, confidente. Se eu disser que não lamento, profundamente, esse distanciamento que a vida adulta nos trouxe, estaria mentindo. Às vezes, em tardes problemáticas, tenho vontade de pegar minha bicicleta preta e verde – que foi roubada – colocar um shorts de moletom por baixo de um vestido – que não serve mais – e sair correndo em direção a sua casa – que fica muito longe agora – e deitar minha cabeça em seu colo, sentir o cheiro do seu café – o único que suporto – esperar ela ouvir minhas lamentações e aconselhar. Mas a vida não colabora, sabe?

Dentro da minha caixinha de lembranças relevantes, as mais importantes, eu diria, está aquele lindo cartão colorido, cheio de glitter, em forma de pônei. Nele, estão as letras redondas e pequeninas, esferográfica preta, e o tremor das palavras: sinto tanta saudade, que confundo as outras crianças com você. Se preciso me sentir humana, é só abrir aquele pedaço lindo de papel e lembrar de como pensei que meu coração nunca mais seria consertado quando ela foi embora para Curitiba. E depois lembrar o quanto a amei mais quando, enfim, voltou.

Ela me deu mais do que afeto incondicional. Me deu o melhor amigo, um irmão, desses que te conhecem como a palma da mão – desses de sentir falta de doer o peito. Me deu uma filha, uma afilhada linda, que me faz sentir orgulho por cada pequena grande conquista, que me enche de um amor único, livre de qualquer conveniência de humanos. Me deu muito mais do que vou conseguir devolver.

Sabe, Madre, o meu amor por você está intacto, dentro do meu corpo de velha nova, no meu “nariz gelado”, nos meus batimentos cardíacos e, principalmente, em tudo o que você me permitiu sonhar e viver. Porque você deixava.

Eu te amo, tanto quanto naquela quarta-feira nublada, em que o cheiro de pipoca se misturava com as nossas risadas de mãe e filha. Não me abandone jamais.

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