Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “agosto, 2012”

Sobre existir

Ela estava deitada no meio da cama. Dura, ríspida, dormia como se não tivesse motivo para acordar. Rotina, cansaço, frio, solidão, coisas que vão somando e aglutinam uma porção de outras coisinhas…Quando viu, estava colada na cama. Lá de cima, do teto claro feito uma nuvem de algodão, via-se uma fina porção de gente, jogada embaixo das cobertas pesadas como se ali fosse o lar que ela não encontrava.

Deitada, ouvindo o barulho agudo da grande obra lá fora, sentindo o frio entrar pelas frestas da janela, sorvendo tudo o que não tinha mais importância, ela chorava. Gotas quentes e elásticas esquentavam e escorriam pelas bochechas, encharcavam as dobras das orelhas, colavam o cabelo no fundo da nuca. Ela chorava na busca por motivos para estar triste.

– A vida da gente, pra quem vê de fora, não poderia ser melhor. Mas só quem sente o arranhar da existência no fim da espinha, sabe o quanto estamos por um triz aqui, ali, onde tiver pra ir, o tempo todo.

Ela chorou lágrimas que ofuscavam todo o resto. A frieza dos ossos latejando a pele gelada, as unhas roxas por não estarem aquecidas, o vazio, a incompletude formada pela ausência de ouvidos livres e abraços raros.

– Em um lugar tão frio como esse, deveríamos ganhar abraços todos os dias. Abraços genuínos, acolhedores, abraços que geram calor, mesmo que desconfortável. Abraços que não permitam invejar o abraço alheio. Dois braços, nada mais, para alegrar um dia comum.

O princípio do comum, por si só, a incomodava muito. E a definhar, sem grandes esperanças, permaneceu.

Lá de cima, do teto claro como nuvem de algodão, a porção se esvaiu.

Definhou.

Dormiu.

As lágrimas secas se uniram ao rosto, como se estivessem predestinadas a morrer ali. Na cabeça, um único e irreversível pensamento:

– Estou tão só que não existo.

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