Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “julho, 2011”

Ele.

Desconheço a sensação da primeira vez em que o vi. Mas imagino, nessa de tentar consolidar todos os sentimentos em memórias, que ele estava lindo de viver. Pois desde que reparei em seus olhos quase pretos de tão escuros, foi essa a sensação marcante: posso morrer enquanto olho para ele. Ainda tenho medo disso. De estar parada, com o olhar compenetrado em sua delirante existência e, então, desmaiar, desfalecer, me perder em meio ao cheiro de conquista que me invade sempre que chego perto dele. A vontade de roubá-lo é muito grande. Mal consigo me controlar.

Eu sempre sofri por causa dessa bendita adoração pelo sexo oposto. Em termos socialmente discutíveis, tenho muitos impasses com eles, homens, em sua maioria moleques, crescidos ou não, que teimam em irritar meus neurônios ou agredir meu doce modo de encarar a vida. Seja com frases machistas de impacto, com sua intolerância para determinados erros que cometem, humanamente, ou com sua vontade nítida de ser Peter Pan pra sempre, deixar a maturidade para os outros, agir como idiotas, tantas vezes. Incontáveis, eu diria. Mas, apesar disso tudo, do lesbianismo ser até considerado modismo, não consigo me desvencilhar da adoração que tenho por vocês, homens. Gosto de seus cabelos, de suas costas, de seus olhos – quando me mostram ou escondem algo – sua força, o magnetismo que emana de suas calças. Não tenho vergonha de dizer: não vivo sem vocês.

Ou melhor, sem ele. Adicta confessa. Prenda-me, é tudo o que eu mais quero. Ficar trancada com você em uma tarde ensolarada de calor, sentindo o vento roçar minha nuca e seus braços em volta de mim. Gostaria de sentir, o tempo todo, o poderoso afago que seu beijo me traz, tão cheio de intenção, repentino, inesperado…Eu que não me apaixonei por sua bipolaridade, inexplicavelmente, de fachada, suas respostas gélidas e sua vontade de transformar tudo em algo maior. Não me apaixonei por suas investidas artísticas, seu sobrenome engraçado ou por aquilo que come, pensa, bebe, chuta, reprime. Me apaixonei por seu cabelo macio, sua pele masculina, seus pés em movimento, seu sorriso de canto e, ah, seus olhos. Eles me escondem tudo. Mas quando eu te olho, te enxergo como você nunca se viu. Nem você, nem ninguém. Nem mesmo sua mãe.

Quando pouso os olhos, faceirinhos, claro, sobre os seus, vejo todo o seu futuro. Te vejo andando em uma linha de trem, sem medo da morte, amando aquilo que reservei pra você.

Está reservado.

Anúncios

Obstrução.

Acordei, logo cedo, com vontade de conversar comigo. Pra tirar aquelas dúvidas meio óbvias: por onde andou? O que esteve fazendo? Não sentiu falta de nada? Está feliz agora? Coisas assim. Descobri no interrogatório que eu estava tão distante de mim que nem sabia. Nem fazia ideia. De quem eu era ou do que estava, de fato, acontecendo aqui dentro. Para essas saídas do corpo, aparentemente prolongadas, chamo – no meu vocabulário próprio e sem vergonha na cara – de obstrução.

Sempre fui amiga da solidão. Vejo nela nuances de amor próprio e o silêncio que a acompanha quase me faz meditar. Gosto de sentir os sons. Tique-taques, cigarrinhas, um copo que se quebra. Mas gosto, ainda mais, do silêncio, de estar só, comigo e minhas sinapses involuntárias. Quando criança, era acostumada a brincar na rua com meus amigos, mas nenhum deles entendia os dias em que tocavam a campainha e eu simplesmente dizia: hoje não vou brincar. Mas eu brincava, entrava no meu mundinho cheio de coisas e pessoas imaginárias. No fundo, era só eu. Eu, eu mesma e minha imaginação.

Acredito que boa parte da pessoa que sou hoje, devo àquela menina de dez anos de idade. Sempre pensei estar à frente do meu tempo. Sempre calculei alcançar as coisas na minha hora. Sempre me resignei frente aquilo que eu não podia controlar. Acho que, no fundo, fiz uma salada sentimental, cheia de percepções e diálogos interessantes. Ao longo do tempo acumulei experiências, pouquíssimos conselhos e um arsenal de pessoas queridas, nas quais admiro características específicas. Admiro as pessoas, no geral, por uma única qualidade. E isso vai desde um sorriso que me anima, um abraço apertado ou uma escrita avassaladora.

“Sobre ser só, eu sei”. Quando você se acostuma com a solidão, ela começa a fazer parte de você. Confesso que nos últimos tempos eu não estava sendo a melhor companheira dela. Me ocupava socialmente, sem querer, sem perceber, e estava tudo certo até que percebi: opa, estou com saudade de mim. Sim, porque eu sou aquilo que faço, apoio e sinto. E me senti sobrecarregada de coisas que nada tinham a ver comigo. Eu que devo ser um sorriso que anima alguém ou um abraço avassalador. Eu me senti ocupada, mas precisava ficar só. De novo.

Eu não gosto da obstrução. Em nenhuma esfera. Se existe lei, ela deve ser cumprida – por isso deveríamos ter seres pensantes mais sensatos para construí-las. Se existe amor, ele deve ser saudável. Se existe loucura, ela deve ser respeitada. Se existe tesão, ele deve ser exaltado. Se existe preconceito, ele deve ser banido. Um milhão de coisas que deveriam, simplesmente, seguir uma linha reta, perambular por nosso mundo e nos deixar vivos. Mas existem as obstruções e com elas nossas sentimentalidades são afetadas sem dó. Penso que nesse ponto a solidão é ainda mais viável. Para reparar os danos.

Nesse momento, só desejo que a montanha saia do meu caminho. Desobstrua. Ah, e o meu abraço próprio, por favor.

Wishlist #3

Eu quero uma casa no campo. “Onde eu possa plantar meus amigos, meus livros e discos, e nada mais”. No máximo, uns filmes, umas cervejas geladas, um grande amor. Sim, mesmo sendo dessas que não acredita piamente em instituições – vide igreja, congresso, casamento – eu acredito em amor. Vejo pessoas se apaixonando o tempo todo, vejo gente sorrindo porque recebeu uma ligação, vejo homens deixando mulheres semi-nuas passar a cinco centímetros sem desviar os olhos da mulher vestida que o acompanha. Vejo muitos sinais de que o amor está por aí. Posso querer um amor pra chamar de amor, oras.

Desde criança tenho esse sonho de morar entre montanhas, árvores, nuvens lindas me dizendo que mais um dia nasceu e as estrelas bem perto pra dizer que amanhã tem mais. Uma vez, em uma temporada prolongada em Minas Gerais – que me fez adorar tudo o que está relacionado a esse estado brasileiro – fiquei hospedada em uma casa imensa, com uns 30 quartos, todos com banheiro, uma chiqueza só. Nada daquilo me atraia na época. Eu não queria saber de possíveis luxos. Eu acordava, pulava da cama e abria a janela pra me deparar com folhas próximas da minha boca sorridente. Eu estava em uma casa no campo, no meio do nada que é tudo: a natureza.

Meus pais sempre me levaram pro meio do mato. Piqueniques, pescarias, caçadas, as mais inofensivas possíveis. E desde pequenina tenho essa atração demasiada pelo verde, pelo cheiro da grama, pelos pés descalços na lama, pela água do rio, pelos passarinhos cantantes. Meu grande plano de vida é morar num lugar que me traga tudo isso em segundos. É incrível constatar como algo assim, aparentemente, tão simples, é o que me faria muito feliz. Isso e aquele pouquinho de bônus de vida.

Ok, agora está registrado. Nas minhas melhores previsões, meus amigos estarão sentados, em uma mesa bem grande, cheia de bons petiscos, uma música incrível de fundo, rindo das banalidades do cotidiano que arrasta e contemplando a natureza. Todos ali, na minha casa no campo.

Outra carta.

“Oi.

Não olá. Oi. Nunca gostei da palavra olá e você me respeitava dizendo: oi. Nunca gostei de várias coisas e, raramente, você  contestava meus gostos. Eu não gostava de sushi. Você amava. Até que um dia você colocou aquelas vendas coloridas nos meus olhos, disse que eu estava prestes a comer a melhor coisa da minha vida. Disse que eu comeria com shoyu. E eu comi sushi, ali, no meio daquela sala cheia de lápis de cor esparrados pelo chão. E eu pedi mais. E você se tornou o mediador entre a minha chatice e coisas gostosas.

Eu nunca gostei de assistir jogo de basquete. Até aquele dia que você comprou doritos, fanta uva, me sentou no sofázinho azul e disse: hoje nós vamos assistir basquete. E ficou assistindo e fazendo “massagem” no meu pé, até que percebeu que eu não sentia cócegas, mesmo, e resolveu abandonar o jogo e me fazer sorrir. Não sei se você lembra dessas coisas banais, mas foi o que me deixou pensando em você em tantas noites frias.

Acho curiosa essa minha mania de escrever cartas e não entregar. Acho que elas dão liga aos meus sentimentos, me deixam menos perdida quando decido descobrir: e aí, quem sou eu? É só ler o arsenal de declarações de amor, de ódio, os pedidos de desculpa, as piadas envolvendo affairs…estou toda ali, nas palavras silenciosas que ficam sem interlocutores, porque não tenho coragem de me mostrar.

Vou colocar essa carta em um envelope azul cobalto, bem bonito, vou escrever seu endereço com aquela caneta prata, sem glitter, aquela com que escrevo na agenda de folhas pretas que minha madrinha de crisma me deu, lembra? Aquela com que escrevi aquele bilhete e deixei na caixinha do correio. O bilhete que pedia que você me encontrasse na quadra do colégio no dia seguinte, munido de suspirinhos e aquelas balas de coração recheadas. Porque eu sempre pedia muito pra você. E você sempre me dava.

Naquele dia, você me contou que sua mãe havia ido embora, sem avisar, que você não conseguia chorar, mas que o seu pai se encarregava disso. Naquele dia, você pediu pra eu devolver o seu skate, porque vocês iriam se mudar. Naquele dia, peguei cinco latinhas da minha coleção, encapei com papel de pipa e te entreguei com lágrimas na bochecha. Naquele dia, escrevi cinco cartas que estão no fundo da caixa. Naquele dia, chorei mais do que em todos os velórios de que havia participado.

Estou com tantas saudades. Mesmo. A minha vida está cheia de boas pessoas, alguns contratempos, óbvio, mas a lembrança do seu sorriso de fim de festa me faz lamentar que exista mais de um local habitado no mundo.

Eu te queria hoje. Conversar, dar risada…quem sabe você não me ensinaria a gostar de café? Eca,

da Meleca”.

Navegação de Posts