Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

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A vida.

A vida atropela.

Às vezes com vento, outras com feno. A vida bate forte como um tambor. A melodia de uma dor atrás da outra. De uma lágrima que cai num lindo dia de sol. De uma lágrima que fica presa nos olhos da depressão. Todas as dores do mundo. O ininteligível. O que não se vê. Todas as dimensões de uma dúvida que paira no ar, como aquela folha miúda que voou longe com a tempestade. Não volta mais.  A vida.

Cada dia mais complexa, algo que transcende as dificuldades da vida adulta. Ser humano é arame farpado. Ser humano é mais humano do que real. A realidade. Ser. Não ter. Ser. A pureza dos sentimentos inatos. A certeza do que foi aprendido. Apreendido em si. O desentender. Todas as tragédias do mundo. O grito que ecoa nas paredes silenciosas da mucosa. O furacão que infla o interior e faz sofrer. A vida.

Não houve preparo, não existem respostas. Humanos, encrustados em pele densa, em sangue vermelho enferrujado, em ossos que balançam. Perdidos. A vida. Derradeira, impetuosa, única.

Muitos são os mitos e poucos os sentidos. Cinco. Menos do que os pecados. A religião que não dá conta. A esperança. Os olhos fechados enquanto o coração lateja. Ainda bem que existem os sonhos.

A vida.

Inexplicável.

A vida.

Caminho irremediável para a morte.

A vida atropela.

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Acostumar-se

Poucas coisas são tão difíceis como se acostumar com algo. Isso porque quando precisamos nos acostumar com alguma coisa, esse algo é diferente, foge ao nosso controle. Acostumar-se com o absurdo, com o mundano, com as variáveis que a vida joga, – na verdade, quase dispara com um canhão em nossa cara – não é fácil. Acostumar-se é difícil porque existe sempre a relação com o outro, com o próximo e o distante, com o ser humano que, em essência, é contraditório e diferente, é rico e diverso em sentimentos e emoções, em um imenso mar turvo de ações.

Acostumar-se com o presente, com o dia de hoje, abrir os olhos, espreguiçar, levantar com sono, escovar os dentes e ir para mais uma batalha.

Acostumar-se com os fatos. Com o fato de que os sonhos infanto-juvenis nada mais são do que pedacinhos de poeira colorida em nosso imaginário. Com o fato de que ser adulto é mais do que um fardinho de contas a pagar, que as responsabilidades vêm e vão na mesma proporção do cansaço, do não saber, do não entender. Com o fato de que caminhamos dia após dia para direções que não sabemos porque seguimos, que não nos explicam o que fazemos aqui na Terra, nem porque não estamos em qualquer outro lugar.

Acostumar-se com a dor, aquela de dentro da pele e aquela dos semelhantes, daqueles que passam fome, que não tem teto, que não sabem escrever o próprio nome, que não podem se relacionar sem interferências tenebrosas. Que não são deixados em paz, por serem diferentes do que é convencional, “normal”, “comum”.

Acostumar-se com o sofrimento, aquele de não fazer o que se quer e aquele de quem tem direitos anulados diariamente, de quem apanha, de quem morre, de quem é histórica e ininterruptamente desrespeitado, de quem sente e sofre ao respirar, por aparelhos ou ares contaminados pelo ódio, pelo desamor, pela maldade, pela riqueza de poucos e a pobreza de muitos.

Acostumar-se que a vida é isso aí, essa coisa que passa pelos olhos em looping, aquilo que dizem as ótimas línguas: “a vida é uma calcinha enfiada no cu”. Acostumar-se com o que está embaixo do nariz, com o frio ou com o calor, com o emprego, com a casa, com o pouco dinheiro na conta bancária, com a grama do vizinho, com a eterna sensação de que estamos sozinhos, com a dúvida de “para onde vamos quando tudo se acabar?”, com as incertezas diárias, com o futuro distante, com o sinal vermelho, com a fila do supermercado, com tudo aquilo que não vale o desgaste.

Acostumar-se é difícil porque não está em nossa natureza. Mudamos, mudamos de novo, nos reinventamos e buscamos mudar sempre mais.

Com algumas coisas deveria mesmo ser impossível se acostumar: lutas que devem crescer cada vez mais, causas essenciais para tornar nossa humanidade, quem sabe um dia, enfim, mais uma humana.

Mas para tantas outras coisas, mediocridades banais, pequenas turbulências que devastam o interior dos humanos mais melancólicos e sofredores, ai que droga de trabalho, nunca vou conseguir concretizar meus sonhos, com essas besteiras todas é preciso acostumar-se?

Quando a véspera precede o amor ela passa em branco.

Vésperas são difíceis para mim. Sempre foram. Espero que isso não seja mais um dos muitos vícios de espírito, que parecem me acompanhar, grudados aos tornozelos como lodo nas pedras mais molhadas.

Vésperas são impossíveis. A ansiedade que vem antes de cada realização, atinge seu ápice algoz no dia anterior ao grande momento.

As vésperas acabam com o preparo, com a espera, com a sensação de que finalmente algo vai acontecer. A véspera marca mais do que o grande dia em si, pois quando tudo passa e a mão decide não derreter  – mesmo após todo o suor escorrido entre os dedos, axilas, seios e onde mais as glândulas se rebelarem – sobra o alívio, aquele “ufa, ainda bem que acabou”.

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Hoje chove. Escuto The Mamas and The Papas, decorrência de Elena, belo filme que assisti enquanto segurava uma véspera pelos cabelos. Tento dizer: não me corroa, maldita, você é apenas um espectro ruim das minhas expectativas. Ela, sempre danada e atenta, gosta de me provocar. Revira meu estômago ao menor sinal de relaxamento. E assim fico, como se o gelo do Alasca estivesse concentrado em minhas vísceras.

Volto à música. Escuto “Monday, Monday”, enquanto espero o esmalte secar, e aí me recordo de que tive a brilhante ideia de passa-lo antes de lavar a louça em cima da pia. O que me lembra de que moro sozinha há um ano e dois meses, e aí também lembro do tamanho das minhas bochechas em plena Praça do Japão, em uma véspera. Eu queria sorrir, mas o medo não permitia.

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Véspera de ficar sozinha no frio, de desistir de uma vida a qual eu estava habituada, de começar uma trajetória com a qual sempre sonhei. Nessa véspera chorei muito, enquanto o carro com meus pais e irmã ia embora, pela rua deserta e cinza. Eu nunca quis tanto correr. Nunca fiquei tão estática.

Essa véspera me recordou outra. Lembrei que estava muito infeliz no dia anterior ao 24 de novembro de 2012. Tinha passado por maus bocados e estava cansada, realmente esgotada da vida que estava levando, do modo como deixei meus dias desandarem.

Eu não sabia que era véspera de algo muito importante, portanto não tive o sofrimento da expectativa.

No dia seguinte, um sábado bonito, meio nublado, como os dias de que mais gosto, conheci uma pessoa que mudou minha trajetória, me colocou em eixos bonitos, com flores imaginárias envolvendo meus cabelos, que me fez e faz sorrir todos os dias e congela minha barriga nos olhares mais longos.

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Já faz um ano. O melhor ano. Essa história começou tão bonita, que nem precisei sofrer por antecedência. Ele apenas surgiu, com sua simplicidade, honestidade e carinho, e com o tempo me fez feliz. Hoje é o meu amor.

Pois é. O amor não avisa mesmo. Chega, invade, fica, sem anunciar, muito menos pedir permissão.

Não tem nada melhor do que não saber quando será a próxima véspera que vai balançar sua vida.

As cortinas estão abertas

Hoje as cortinas do lado esquerdo estão abertas.

É muito difícil, praticamente impossível, manter a atenção na tela embaçante a minha frente. As cortinas estão abertas e cada olhar por cima do ombro é verde. Folhas reverberando com o vento. Céu meio azul, meio cinza, exibindo uma naturalidade indescritível. Que linda visão quadriculada!

Lá fora, tudo está no lugar. Eu, desatenta, sonho com as seis da tarde como se sonha em conquistar o mundo em cima de um balão colorido. Busco conter a impaciência, segurar as pontas, por assim dizer.

Meu corpo dói, tamanho o esforço para me tirar daqui. Insisto, porém, que é necessário ficar. Converso com as pernas, que se balançam mais do que uma palmeira na praia. Converso com os quadris, que forçam todo o tronco a se levantar e sair correndo. Converso muito com a boca, que se fecha em zíper forçado a cada ameaça de xingamento em alto e bom som.

Falo com as mãos também – elas começaram a se recusar a fazer coisas irrelevantes. Tenho medo de  que um dia se revoltem e façam greve. Posso vê-las espalmadas, rígidas e vorazes, aos berros:

– Você precisa escrever aquilo que está na sua cabeça.

Antes que tudo vá embora, eu sei. Estou consciente. A consciência, na verdade, é o que me faz permanecer grudada na cadeira. Contas a pagar também, mas a consciência das dificuldades mundanas pesa muito.

Meu cérebro, coitado, tem falado que vai pifar. “Escolha logo um lado para seguir, eu não posso ficar indeciso o dia todo”. As palavras pululam pelo ar. Estabilidade. Dinheiro. Segurança. Comprometimento. Responsabilidade. São muitas e se misturam. Felicidade. Tranquilidade. Relevância. Talento. História. Sonho. Ah, como é bom sonhar!

Em meu sonho eu não preciso colocar meu corpo em luta interna, sequer esperar um dia corajoso, que provavelmente não vai aparecer tão cedo, para minha frustração. No meu sonho, sorrio enquanto meu corpo está em completa sintonia com o que acredito, espero e, realmente, sei fazer. Em meu sonho, vivo como gostaria de viver.

As cortinas continuam abertas, mas a janela ainda está fechada.

Hoje, inerte, permaneço aqui. Amanhã não sei.

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Sobre o sonho que é real

E por um segundo pensei que talvez meus dedos fossem feitos de imãs, pois a atração por sua pele é irremediável. Cogitei, enquanto me via deslumbrada por sua beleza adormecida, estar em mais um sonho complexo, em que coisas inacreditáveis deixam rastros de loucura, real e ficcional. Eu não dormia.

E me vi embevecida por sua respiração, leve, limpa, quase inaudível. Estava escuro, mas consegui ver claramente. Cada poro, pequeno detalhe, as marcas da vida que teve desde que veio ao mundo, as marcas que adquiriu enquanto nos conhecíamos, as marcas que agora fazem parte de nossa história a dois. Que sonho bom!

E senti algo inexplicável, que se repete, me acomete, muitas vezes faz meu coração acelerar, gira meu estômago como em um vulcão de borboletas em erupção. Todas as metáforas fazem sentido agora. A invenção não é necessária quando a realidade assume um posto tão bonito.

E, de repente, eu estava confortável como nunca estive, em uma bolha mágica que abriga nossas metades. Flutuando para além do que os olhos dão conta de ver e a boca de narrar. No céu, entre as estrelas, tocando a imensidão com a ponta dos dedos. Os imãs dominando o corpo todo e unindo tudo o que nos representa.

E eu te olho, te descubro, te abraço, te espero, te entendo, te quero, te encontro, te beijo, te venero.

E eu te amo.

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Entre uma letra e outra

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Rabisco porque gosto. Escrevo porque me fascina.

Entrar em outra dimensão e resolver quase qualquer questão com palavras. Essa é a mágica que me move. Vivo de mágica, de sonhos, de universos paralelos, de cheiros desconhecidos e cores inexistentes, que incendeiam os dias frios.

Consigo ser muito feliz com um lápis e uma folha em branco. Sou grata à existência por ter me dado esse pedaço de felicidade embutido em meus dedos, que se conectam com os meus pensamentos mais bonitos ou sombrios, e reagem como folhas de outono cobrindo uma rua inteira chamada imaginação. Minha imaginação.

Não sei dizer ao certo quando comecei a gostar de escrever, mas sei que foi muito natural, em um processo em que o único sofrimento estava no fim de um caderno de brochura encapado com papel de carta. A última linha, o último ponto final. A ponta quebrada do lápis, sem apontador ou facas por perto. A dor de se concluir uma estória. A lágrima caída porque aquela personagem tão rebelde passou do ponto e foi ver a escuridão do desaparecer. A culpa pela falta de tempo para me dedicar aos mundos que resolvi criar.

Sofro com a escrita. Na mesma proporção em que amo. Me entrego, me envolvo, me sinto refém de uma criação quando a sinto presente em minhas palavras. Mas, veja só, estou longe de ser uma escritora, tampouco de jogar meus contos feito vento na cara do mundo.

Longe, eu admito: é muito longe. Perto só estou do meu agora, que sofre com a ausência das palavras que estão em fila nos pensamentos, querendo se mostrar. Como são exibidas as minhas palavras! Repreendo-as, peço-as para esperar. Preciso encarar essa rotina para, quem sabe em um belo dia, voltar inteira para elas.

Inteira. Insana. Insaciável.

Eu não sei o que seria de mim sem as palavras. Sem as palavras em um papel. Sem essa mágica.

Amo-as, minhas palavras. É com vocês que consigo representar o turbilhão de emoções e pensamentos que me corroem, atos de coragem ou covardia, estórias, estórias, estórias.

Um dia, talvez, quem sabe, eu chegue lá.

“Mas há palavras em meu coração, letras e sonhos, brinquedos e diversões…”

Sobre buracos.

Buracos são buracos em qualquer lugar do mundo. Existe, no entanto, uma infindável família de buracos. Buracos são denotativos, no meio da terra, do asfalto, como poços artesianos e, repletos de água, poças se fazem. Buracos são fantasiosos, no meio do corpo, dentro do coração, no fundo da alma. Buracos têm várias excentricidades. Buracos sempre machucam.

Caia em um para ter certeza.

Em uma rua comprida, com duas margens distintas – uma urbana, a outra florestal -, rua dessas que inspiram poetas apenas por ser desigual, os buracos se mostram inteiros. Eles gritam por sua atenção. Até mesmo os pedestres, com exceção dos excessivamente distraídos, se interessam pelos buracos famintos, que choram e gritam por não conseguirem se locomover.

Sentem-se presos em um filme francês, com Bach no último volume, enquanto são massacrados, diariamente, sem dó nem compaixão, como se tivessem escolha. Eles se formaram pelo tempo, pela natureza das coisas, até mesmo por um serviço mal feito. Bebês da humanidade, filhos da modernidade. Buracos. Apenas tristonhos e estáticos buracos.

Dentro da menina que acordava às dez da manhã para observar os pássaros na grama da casa de infância, enquanto bolava planos para o futuro em papel colorido, um verde água escolhido como a melhor cor de lápis de cor do mundo, havia um buraco. Um buraco pequenino, flexível, pronto para ser alargado.

Ela não sabia o que a esperava. Ela sonhava com um lugar frio, em que pudesse andar com lindos cachecóis enquanto sentia o vento gelar as bochechas gigantes. Ela via sua maturidade crescer entre árvores floridas, quem sabe em um sobrado desses com floreiras coloridas. Imaginava o sucesso fácil como chupar um picolé de morango. Era feliz. E mantinha o buraquinho pequeno, invisível para quem estava fora de si.

De repente, estava no frio, com as bochechas crescidas geladas e o sucesso colado em suas costas. Na perspectiva em que cresceu, faltava muito pouco, era metade do caminho andado e ela mal precisou correr. Tropeçara em poucos buracos, até então, não tinha ralado os joelhos jamais.

Caiu. Precisou cair em um para ter certeza.

Hoje a menina sente a cicatriz do enorme buraco que teve que costurar. Não era no coração, porque as coisas do coração são fechadas. O coração tem arquivos com pastas, muitas pastas e cadeados. Você só precisa saber trancar e abrir. É muito mais fácil lidar com o coração.

Seu buraco cresceu na expectativa. Essa mesma, que fica solta dentro do corpo e nos atinge como um balão cheio de fogo. Ela teve a maior parte do que desejara nas manhãs ao som dos passarinhos. Mas lidou com um buraco no meio do caminho. Já dizia Nhá Barbina: “esta vida é um buraco”.

Como foi que ela fechou esse buraco? Perguntam os amantes de flores emburacados.

Ela fechou com paciência, com pessoas queridas, com mais alguns tombos, com a descoberta dos seus limites, com carinho, com um novo encontro, com sorrisos leves, trabalho duro, seus passatempos favoritos antigos, sua personalidade própria,  com amor. Ela fechou com muito amor.

– Esse buraco, diz ela, já não abre mais.

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Sobre morar só.

Um dia tão bonito, cansativo até os dentes tremerem de sono. Tudo por um banho morno, a cama macia, sonhos leves sem grandes personagens. Fome. Sempre a fome.

Hoje eu cozinhei feijão.

Poxa, cozinhar feijão, essa coisa simples. Você separa os grãos, lava, deixa de molho, coloca com água na panela de pressão, meia hora depois está pronto, você tempera, deixa ferver para ficar mais cremoso…Facílimo. Difícil é criar coragem para fazer tudo isso, enquanto um arroz fica pronto em míseros quinze minutos.

Cozinhar feijão dá trabalho, assim como lavar alface, jogar o lixo, ralar abobrinha, preparar um lombo. Morar sozinha dá muito trabalho. Às vezes, em dias de fome de comida real e saudável, chega a ser insuportável. Ter que encarar um monte de procedimentos pra fazer um pingo de comida, comer ali, com a solidão latente, olhando pela janela, lá fora um vazio…

Não que seja preciso reclamar.

Morar sozinha é a melhor coisa do mundo. Um mar imenso de liberdade, para entrar e sair, andar sem roupa – com o quádruplo de atenção; vizinhos, além de chatos, são voyeurs naturais -, colocar quadros na parede, ouvir música alta, beber cerveja com o ventilador no último, deixar um super nintendo no meio da sala, junto com meias de pares trocados…Que delícia!

Morar sozinho é uma dádiva.

O que arde são as contas, agora mais suas do que de qualquer outra pessoa, a falta de brigas estimulantes – afinal, se você não lavar a louça ela continuará ali, ninguém vai te cobrar – o silêncio desanimador dos finais de tarde, a bagunça infinita, que só se move com muito custo e suor, encarar o supermercado. Ah, supermercados! Meu pavor por estes estabelecimentos é imenso, valeria uma carta de rolo com tudo o que me desanima nesses lugares. E ainda tem a mesa com um só prato em cima.

Fazer comida para você mesmo entrou hoje, oficialmente, no meu hall de coisas infinitamente tristes. É simples: meu feijão ficou muito gostoso pra ser saboreado apenas por mim.

Companhias queridas, sempre bem-vindas, não adivinham quando um ser solitário vai cozinhar. É muito complexo, desencorajador, sacia a fome e aumenta o cansaço. Eu amo feijão. Posso passar semanas comendo apenas feijão com farinha e serei feliz. Porém, levei bons seis meses de solidão escolhida para cozinhar um simples feijão. Essa parece ser a dinâmica dos solitos.

Certeza não tenho de quase nada. Mas pelas próximas duas semanas vai ter feijão na geladeira.

E isso é lindo.

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Uma nova perspectiva.

Ando fascinada com o céu das quatro e pouco da tarde. Em dias quentes, com pouco vento, o que salva a existência é olhar pra cima e ver aquele azul ardido tão lindo, puro e limpo, com suas nuvens brancas e espaçadas, desconfiguradas como se esperassem que eu subisse pra arrumar a bagunça, fazer uma grande cama e deitar.

Eu, amante do frio, que sempre gostei de dias eternamente nublados – convidativos até o talo para atividades quentes e indisciplinadas, como filmes sem precedentes e comidas com grande quantidade de vapor – me perco em pensamentos nesses novos dias de calor, que ocultam as chuvas e de repente as lançam no ar. Agora consigo gostar. Consigo apreciar a natureza desses dias. Seguro uma reclamação para em seguida identificar uma nova possibilidade de encontro, um take indefinido que pode acontecer sem a neblina amada.

Mudar é possível. Mudar é preciso.

Mudemos, então.

Apaixonante.

Apaixonante.

Tenho.

Tenho sonhado com paisagens quentes, outras dimensões e atmosferas, sorrisos dóceis e sinceros, folhas voando contra os cabelos, nuvens em formatos variados. Tenho pensado em passar reto pelo destino, saltar de ponta em um rio, fechar os olhos e flutuar. Tenho esperado a chuva ir embora, o frio amenizar, as roupas secarem, o ônibus passar. Tenho sentido saudade de casa, das minhas pessoas, de sentir alegria, de realmente ser ouvida, de me sentir amada. Tenho vivido no limite da loucura, ao mesmo tempo muito sã, talvez como nunca estive. Tenho sentado no meio de uma grande cama nas tardes de domingo e chorado, e sorrido, e chorado, e sorrido. Tenho intercalado meus pensamentos em presente e futuro, sonho e realidade, e nem sempre consigo saber onde estou. Tenho lembrado de longas conversas que não existem mais, de abraços que não recebo mais. Tenho esperado as palavras saírem de mim. Tenho a sensação de que estou além do tempo, ao mesmo tempo em que perdi a noção do tempo, e quero apenas voltar no tempo. Tenho visto o tempo passar, os dias correndo, as manhãs quentes dão ao lugar a um frio abrupto e o dia termina com o corpo envolto à névoa. Tenho medo. Tenho muito medo. Tenho mais medo do que eu jamais tive. Tenho, também, meus sonhos, e deles não abro mão. Tenho amor. Tenho, ainda, apesar de tudo o que não consigo mais dizer, muito amor dentro de mim. Tenho.

 

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