Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “janeiro, 2013”

Sobre morar só.

Um dia tão bonito, cansativo até os dentes tremerem de sono. Tudo por um banho morno, a cama macia, sonhos leves sem grandes personagens. Fome. Sempre a fome.

Hoje eu cozinhei feijão.

Poxa, cozinhar feijão, essa coisa simples. Você separa os grãos, lava, deixa de molho, coloca com água na panela de pressão, meia hora depois está pronto, você tempera, deixa ferver para ficar mais cremoso…Facílimo. Difícil é criar coragem para fazer tudo isso, enquanto um arroz fica pronto em míseros quinze minutos.

Cozinhar feijão dá trabalho, assim como lavar alface, jogar o lixo, ralar abobrinha, preparar um lombo. Morar sozinha dá muito trabalho. Às vezes, em dias de fome de comida real e saudável, chega a ser insuportável. Ter que encarar um monte de procedimentos pra fazer um pingo de comida, comer ali, com a solidão latente, olhando pela janela, lá fora um vazio…

Não que seja preciso reclamar.

Morar sozinha é a melhor coisa do mundo. Um mar imenso de liberdade, para entrar e sair, andar sem roupa – com o quádruplo de atenção; vizinhos, além de chatos, são voyeurs naturais -, colocar quadros na parede, ouvir música alta, beber cerveja com o ventilador no último, deixar um super nintendo no meio da sala, junto com meias de pares trocados…Que delícia!

Morar sozinho é uma dádiva.

O que arde são as contas, agora mais suas do que de qualquer outra pessoa, a falta de brigas estimulantes – afinal, se você não lavar a louça ela continuará ali, ninguém vai te cobrar – o silêncio desanimador dos finais de tarde, a bagunça infinita, que só se move com muito custo e suor, encarar o supermercado. Ah, supermercados! Meu pavor por estes estabelecimentos é imenso, valeria uma carta de rolo com tudo o que me desanima nesses lugares. E ainda tem a mesa com um só prato em cima.

Fazer comida para você mesmo entrou hoje, oficialmente, no meu hall de coisas infinitamente tristes. É simples: meu feijão ficou muito gostoso pra ser saboreado apenas por mim.

Companhias queridas, sempre bem-vindas, não adivinham quando um ser solitário vai cozinhar. É muito complexo, desencorajador, sacia a fome e aumenta o cansaço. Eu amo feijão. Posso passar semanas comendo apenas feijão com farinha e serei feliz. Porém, levei bons seis meses de solidão escolhida para cozinhar um simples feijão. Essa parece ser a dinâmica dos solitos.

Certeza não tenho de quase nada. Mas pelas próximas duas semanas vai ter feijão na geladeira.

E isso é lindo.

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Uma nova perspectiva.

Ando fascinada com o céu das quatro e pouco da tarde. Em dias quentes, com pouco vento, o que salva a existência é olhar pra cima e ver aquele azul ardido tão lindo, puro e limpo, com suas nuvens brancas e espaçadas, desconfiguradas como se esperassem que eu subisse pra arrumar a bagunça, fazer uma grande cama e deitar.

Eu, amante do frio, que sempre gostei de dias eternamente nublados – convidativos até o talo para atividades quentes e indisciplinadas, como filmes sem precedentes e comidas com grande quantidade de vapor – me perco em pensamentos nesses novos dias de calor, que ocultam as chuvas e de repente as lançam no ar. Agora consigo gostar. Consigo apreciar a natureza desses dias. Seguro uma reclamação para em seguida identificar uma nova possibilidade de encontro, um take indefinido que pode acontecer sem a neblina amada.

Mudar é possível. Mudar é preciso.

Mudemos, então.

Apaixonante.

Apaixonante.

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