Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

28ª Madrugada

De tudo, ao final do dia, uma ou outra certeza pode ser definida como real. No mundo dos achismos e das evidências, saber que uma coisa é certa como o sol cair para chegar a escuridão, é fato consolador. Basta reparar: todos os dias é possível receber dos céus pelo menos uma certeza. Acho.

Uma certeza diária e aleatória é a de que as pessoas podem ser muito mais imprevisíveis do que você imagina. Nunca, e digo isso no palpite mais certeiro do espaço, você vai deixar de se surpreender com os limites do pensamento do ser humano. Para ilustrar essa verdade, brindo à madrugada com aquele tipo de descoberta terrível – e digo terrível para aquele que tem dormido sossegado na rede, sem saber o que a cabeça alheia maquina – o amor inventado.

Recebi um bilhete que informava um desses casos de fantasia exacerbada. O rapaz, desses que bradam aos sete ventos os seus diferenciais enquanto másculo no mundo, tinha uma queda maluca pela destinatária. Eu sempre me assusto com esse tipo de questão, pois me acostumei a deixar sempre claro meus sentimentos em relações pessoais.

Batata: era um amor inventado.

Não bastasse fantasiar o que o platonismo traz “– eu largo a minha para ficar com você, que vai largar o seu e andar comigo num carrossel azul turquesa com luzinhas douradas piscando”, ainda imaginou a reciprocidade, o outro lado da coisa. Como se educação fosse uma forma de demonstrar interesse e recusas específicas um jeito de mostrar sinais. Poupe minhas pálpebras insones, rapaz.

Histórias assim, descobertas em bilhetes amassados e sem sal, fazem com que a gente se mantenha alerta. Amores inventados são legais quando não envolvem pessoas que já estão envolvidas realmente com outras pessoas, que não querem cair em uma teia de invenção sem limites. Invenções podem machucar. Apesar de ser apaixonada pela espécie humana, tenho pavor de algumas atitudes desencadeadas por meus semelhantes. Podia ter vivido uma vida na rede, tranquila e sossegada, sem ter aberto este bilhete de insanidade. Bilhete que rasguei na mesma velocidade em que li. Não vale a pena guardar. De louca já basta a sonâmbula que grita – grito? – quase todas as noites. De loucura já basta a que tenho que enfrentar em corredores encerados todos os dias.

– Acorde, pequeno machista.

Depois do susto e da constatação de que não dá pra ter tanta certeza assim quando se trata de gente, fico tentando lembrar de algum amor platônico, alguma fantasia que inventei, um carrossel de alguma cor fria e feliz que criei para romantizar, mas não vejo nada. Nada.

Vejo o hoje, o palpável, o surpreendente. Vejo a sorte. Vejo até mesmo o destino. Vejo os meus sorrisos sinceros. Vejo a realidade.

Cara, nada supera uma realidade bonita.

Uma rede para chamar de minha

Uma rede para chamar de minha

Sobre morar só.

Um dia tão bonito, cansativo até os dentes tremerem de sono. Tudo por um banho morno, a cama macia, sonhos leves sem grandes personagens. Fome. Sempre a fome.

Hoje eu cozinhei feijão.

Poxa, cozinhar feijão, essa coisa simples. Você separa os grãos, lava, deixa de molho, coloca com água na panela de pressão, meia hora depois está pronto, você tempera, deixa ferver para ficar mais cremoso…Facílimo. Difícil é criar coragem para fazer tudo isso, enquanto um arroz fica pronto em míseros quinze minutos.

Cozinhar feijão dá trabalho, assim como lavar alface, jogar o lixo, ralar abobrinha, preparar um lombo. Morar sozinha dá muito trabalho. Às vezes, em dias de fome de comida real e saudável, chega a ser insuportável. Ter que encarar um monte de procedimentos pra fazer um pingo de comida, comer ali, com a solidão latente, olhando pela janela, lá fora um vazio…

Não que seja preciso reclamar.

Morar sozinha é a melhor coisa do mundo. Um mar imenso de liberdade, para entrar e sair, andar sem roupa – com o quádruplo de atenção; vizinhos, além de chatos, são voyeurs naturais -, colocar quadros na parede, ouvir música alta, beber cerveja com o ventilador no último, deixar um super nintendo no meio da sala, junto com meias de pares trocados…Que delícia!

Morar sozinho é uma dádiva.

O que arde são as contas, agora mais suas do que de qualquer outra pessoa, a falta de brigas estimulantes – afinal, se você não lavar a louça ela continuará ali, ninguém vai te cobrar – o silêncio desanimador dos finais de tarde, a bagunça infinita, que só se move com muito custo e suor, encarar o supermercado. Ah, supermercados! Meu pavor por estes estabelecimentos é imenso, valeria uma carta de rolo com tudo o que me desanima nesses lugares. E ainda tem a mesa com um só prato em cima.

Fazer comida para você mesmo entrou hoje, oficialmente, no meu hall de coisas infinitamente tristes. É simples: meu feijão ficou muito gostoso pra ser saboreado apenas por mim.

Companhias queridas, sempre bem-vindas, não adivinham quando um ser solitário vai cozinhar. É muito complexo, desencorajador, sacia a fome e aumenta o cansaço. Eu amo feijão. Posso passar semanas comendo apenas feijão com farinha e serei feliz. Porém, levei bons seis meses de solidão escolhida para cozinhar um simples feijão. Essa parece ser a dinâmica dos solitos.

Certeza não tenho de quase nada. Mas pelas próximas duas semanas vai ter feijão na geladeira.

E isso é lindo.

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Uma nova perspectiva.

Ando fascinada com o céu das quatro e pouco da tarde. Em dias quentes, com pouco vento, o que salva a existência é olhar pra cima e ver aquele azul ardido tão lindo, puro e limpo, com suas nuvens brancas e espaçadas, desconfiguradas como se esperassem que eu subisse pra arrumar a bagunça, fazer uma grande cama e deitar.

Eu, amante do frio, que sempre gostei de dias eternamente nublados – convidativos até o talo para atividades quentes e indisciplinadas, como filmes sem precedentes e comidas com grande quantidade de vapor – me perco em pensamentos nesses novos dias de calor, que ocultam as chuvas e de repente as lançam no ar. Agora consigo gostar. Consigo apreciar a natureza desses dias. Seguro uma reclamação para em seguida identificar uma nova possibilidade de encontro, um take indefinido que pode acontecer sem a neblina amada.

Mudar é possível. Mudar é preciso.

Mudemos, então.

Apaixonante.

Apaixonante.

Tenho.

Tenho sonhado com paisagens quentes, outras dimensões e atmosferas, sorrisos dóceis e sinceros, folhas voando contra os cabelos, nuvens em formatos variados. Tenho pensado em passar reto pelo destino, saltar de ponta em um rio, fechar os olhos e flutuar. Tenho esperado a chuva ir embora, o frio amenizar, as roupas secarem, o ônibus passar. Tenho sentido saudade de casa, das minhas pessoas, de sentir alegria, de realmente ser ouvida, de me sentir amada. Tenho vivido no limite da loucura, ao mesmo tempo muito sã, talvez como nunca estive. Tenho sentado no meio de uma grande cama nas tardes de domingo e chorado, e sorrido, e chorado, e sorrido. Tenho intercalado meus pensamentos em presente e futuro, sonho e realidade, e nem sempre consigo saber onde estou. Tenho lembrado de longas conversas que não existem mais, de abraços que não recebo mais. Tenho esperado as palavras saírem de mim. Tenho a sensação de que estou além do tempo, ao mesmo tempo em que perdi a noção do tempo, e quero apenas voltar no tempo. Tenho visto o tempo passar, os dias correndo, as manhãs quentes dão ao lugar a um frio abrupto e o dia termina com o corpo envolto à névoa. Tenho medo. Tenho muito medo. Tenho mais medo do que eu jamais tive. Tenho, também, meus sonhos, e deles não abro mão. Tenho amor. Tenho, ainda, apesar de tudo o que não consigo mais dizer, muito amor dentro de mim. Tenho.

 

Sobre existir

Ela estava deitada no meio da cama. Dura, ríspida, dormia como se não tivesse motivo para acordar. Rotina, cansaço, frio, solidão, coisas que vão somando e aglutinam uma porção de outras coisinhas…Quando viu, estava colada na cama. Lá de cima, do teto claro feito uma nuvem de algodão, via-se uma fina porção de gente, jogada embaixo das cobertas pesadas como se ali fosse o lar que ela não encontrava.

Deitada, ouvindo o barulho agudo da grande obra lá fora, sentindo o frio entrar pelas frestas da janela, sorvendo tudo o que não tinha mais importância, ela chorava. Gotas quentes e elásticas esquentavam e escorriam pelas bochechas, encharcavam as dobras das orelhas, colavam o cabelo no fundo da nuca. Ela chorava na busca por motivos para estar triste.

– A vida da gente, pra quem vê de fora, não poderia ser melhor. Mas só quem sente o arranhar da existência no fim da espinha, sabe o quanto estamos por um triz aqui, ali, onde tiver pra ir, o tempo todo.

Ela chorou lágrimas que ofuscavam todo o resto. A frieza dos ossos latejando a pele gelada, as unhas roxas por não estarem aquecidas, o vazio, a incompletude formada pela ausência de ouvidos livres e abraços raros.

– Em um lugar tão frio como esse, deveríamos ganhar abraços todos os dias. Abraços genuínos, acolhedores, abraços que geram calor, mesmo que desconfortável. Abraços que não permitam invejar o abraço alheio. Dois braços, nada mais, para alegrar um dia comum.

O princípio do comum, por si só, a incomodava muito. E a definhar, sem grandes esperanças, permaneceu.

Lá de cima, do teto claro como nuvem de algodão, a porção se esvaiu.

Definhou.

Dormiu.

As lágrimas secas se uniram ao rosto, como se estivessem predestinadas a morrer ali. Na cabeça, um único e irreversível pensamento:

– Estou tão só que não existo.

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27ª Madrugada

Incrível como as coisas vêm e voltam na mesma, ou talvez até em melhor, intensidade. Vem tristeza, vai saudade. Vem alegria, volta desespero. As coisas estão sempre rodeando a todos, como se pudessem moldar coisas novas, além daquelas a que já estão predestinadas – elas, todas as coisas.

Ao mesmo tempo em que a menina do quarto 3 chora e grita com os pais, que não devia estar aqui, que tem tentado lutar pra continuar, a menina do quarto 4 se preocupa se vai ter que levar guarda-chuva ou não: está tudo muito bonito pra ela. Mas não dá pra esquecer, que há menos de dois meses, ela estava gritando por dentro, que não devia estar lá, que estava tentando mesmo continuar. Fases.

Dessa fase de bonança, de adaptação, de “não consigo ir à cozinha, porque está sempre cheia de estranhos”, vão ficar, possivelmente, algumas das memórias mais marcantes da minha vida. Eu que sou a menina do quarto 4. A solidão e o desconhecido trabalham juntos para que novas coisas, sentimentos e rotas sejam descobertas, sentidas e traçadas.

Se ontem eu não sabia o que tinha na quadra acima da que estou agora, hoje já sei exatamente o que tem em volta de mim. Fico triste pelos gritos de choro da menina do quarto 3. Queria dizer pra ela, quem sabe colar um post-it na porta: hoje vem desespero, amanhã volta alegria.

A alegria, essa pequena semente que habita dentro do meu nome, está aqui. Que delícia sentir que mesmo só, mesmo longe, você pode ser (e talvez realmente ser) a pessoa que você é.

É muito consolador.

Hoje eu comi sozinha, enquanto me enchia de coragem pra cuidar direito de mim. E sozinha, ainda, é muito mais fácil identificar as coisas que você realmente gosta, ama, sente saudade, sente vontade…

E nessa de solidão enquanto todos bebem em um bar, tive a companhia de grandes homens que admiro. De Kubrick a George R.R. Martin. De John Frusciante (a melhor companhia no momento, diga-se de passagem) a Patrick Dempsey. Eles cuidaram de mim, se importaram, fizeram hora comigo e estiveram quase dispostos a me ouvir – se pudessem, acho que realmente o fariam. Ah, fariam!

“You don’t need anyone. Just hold on to the end and you don’t even have to look good…”

 

O vento

No primeiro dia queimei as bochechas. Claro, elas não podiam ficar de fora da festa. Queimei como se elas fossem se escaldar. Queimei e senti pena de nós três. Eu e as bochechas. Depois veio a gélida impressão de que os meus ossos iriam quebrar, eles que já são tão frágeis. Em seguida, o calor: ei, alguém tira esse monte de blusas de cima de mim? Então a chuva, os cabelos acompanhando a direção das gotas, a sensação de que se poderia voar do meio da rua para a lua. Logo senti o calafrio, o cheiro do medo, vontade de sair correndo. Então a paz, a calmaria, o vento…

Seis dias em Curitiba hoje, nem uma semana. Seis dias e já consigo imaginar um ano inteiro.

A espera.

Ela chegou mais cedo, sentou em um banco vazio, apoiou a testa nas coxas, os cabelos deixaram a nuca à mostra para que o vento assoprasse seu espírito: era sua posição de conforto. Assim, sempre ouvia os pensamentos, além de descansar do peso que sentia por ser quem era, mesmo não sendo ninguém.

Com paciência, esperou durante muito tempo, esfregou as unhas compridas nos tornozelos, desenhou mapas no ar com a ponta dos dedos. Esperou, cantou mentalmente, ouviu os suspiros da natureza ao redor, amarrou e desamarrou os cadarços até perder a conta.

Estava desolada por fora e muito compreensiva por dentro. Tinha isso consigo. Não demonstrava emoções facilmente, nem conseguia manter aparências a longo prazo. Estava cogitando levantar e correr pra longe, mas estava confortável demais para isso. Manteve-se ali.

Estática. Frágil. Tranquila. Um sossego pra chamar de seu, um banco pra guardar de recordação, o vento pra acariciar e oferecer sua pele macia. Um mundo infinito de possibilidades assim que abrisse os olhos. E a espera. E a espera.

Quando não pôde mais, ergueu a cabeça, ajeitou os cabelos, verificou se os cadarços estavam no lugar, abriu um sorriso, levantou-se em um segundo e caminhou, calma e silenciosamente, como se estivesse predestinada ao que a esperava, àquilo a que tanto esperou.

Caminhou até chegar ao ponto de partida. O viu forte por fora e desesperado por dentro. Sem saber se poderia confiar no que via, não pestanejou. Ajoelhou ao seu lado, colocou uma mão sobre a dele, que estava em cima do joelho. Respirou fundo, um último olhar para decorar o seu rosto, a invisibilidade que chega com os olhos cheios de lágrimas…

– Nós vamos ficar bem.

Deixou a última declaração de amor ao lado de seus pés de calçados sem cadarços. Um minúsculo coração feito com capim dourado, numa tarde ensolarada de inverno.

Ela estava em movimento outra vez. Não precisava esperar por ninguém, por sentimentos, por aventuras, palavras ou atitudes. Sozinha.

Em si ela sempre confiaria.

“My breaking heart and I agree
That you and I could never be
So with my best
My very best
I set you free”. 

26ª Madrugada

Odeio dias ensolarados. Odeio o azul claro intenso, o sol que parece dar gargalhadas na minha cara, as nuvens que me fazem inveja, tão altas e distantes do dia horripilante que tenho que viver aqui embaixo. Odeio dias ensolarados porque eles representam a beleza e a alegria que a vida não tem, não por completo. Eles dão a sensação de que uma ilusão, muito distante de nós, é melhor do que qualquer coisa que podemos vir a fazer um dia. Provavelmente, isso está muito certo.

Odeio dias ensolarados, mas odeio tantas outras coisas que sou considerada uma pessoa que odeia. Não sem motivos, gosto de acreditar, mas apenas porque não vejo muita graça ou vantagem ou incentivo em muitas coisas. Também não faço parte do time de gente que acha que gostar de todo mundo ou de tudo vai fazer do mundo um lugar melhor. Gentileza gera gentileza e também gente folgada. E eu odeio gente folgada.

Hoje o dia estava, estupidamente, ensolarado. Ele estava jogando na minha cara que minha vida está de cabeça pra baixo, que não tenho um emprego dos sonhos, que minha barriga está roncando e estou sem dinheiro pra comer, que a vida parecia menos inóspita quando eu tinha sete anos de idade, que eu não posso mais acreditar nas pessoas – nunca por completo, não mesmo -, que eu tenho uma montanha de decisões pra tomar, todas, preferencialmente, de forma racional…Sabe? Aquele céu azul “lindo” estava tirando um sarro imenso da minha cara.

Ando um pouco mais revoltada do que de costume. Talvez porque as coisas estejam mais irritantes e revoltantes, talvez porque essa falta de sentido pra vida canse a qualquer um, uma hora ou outra. Sei que das relações sociais existentes, tenho suportado bem poucas, que eu tenho andado de mãos dadas comigo mesma pra não desfalecer, que, infelizmente, minha falta de confiança nas pessoas chegou a um nível alarmante, do tipo: não deve existir ninguém que se interesse por um pouco mais do que a superficialidade intensa. Ando com raiva de gente que se diz de uma forma, enquanto na prática, oh céu ensolarado!, age de modo egoísta, e acaba se importando apenas com as suas emoções.

Esse é um ode à solidão. Eu sempre bato nessa tecla, de que deve ser melhor ficar sozinha mesmo, encaixotar o que importa e ir embora pra um lugar só seu, que te dê calma e espaço pra trabalhar naquilo que  te faz bem: a sua alma. O lance é que a cada dia que passa, me sinto mais sozinha nesse túnel escuro chamado vida, por onde tenho obrigatoriamente que passar, eu que sou covarde demais pra soluções mais drásticas, eu que não passo pelo ralo, eu que preciso trabalhar pra fugir, eu que odeio…

Talvez seja triste constatar isso, talvez seja até tardio. Mas nessa madrugada insone, meu abraço próprio – aquele em que envolvo meu colo e minhas costas com meus braços arrepiados – me parece a única forma de dormir bem e em paz.

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Hoje eu acordei com aquela vontade de absurda de ir embora, pra longe, mais longe do que eu consigo imaginar. Me vi com uma compilação de coisas que amo em volta de mim – de livros impressionantes a músicas que me fazem arrepiar, sem esquecer de todos os meus filmes favoritos, que de tão “meus’, se fazem parte minha -, jogada em um sofá macio e extremamente confortável, repleta de uma serenidade digna das pessoas solitárias, que conseguem, com pouco, suportar o muito que é estar perdido por aí. Sei lá…deu da cidade.

 

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