Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “agosto, 2011”

Da japonesa de marca maior.

A pena de avestruz continua ali, atrelada ao queimador de incenso, aquele que deixa meu quarto com cheiro de dama da noite. Os livros de Virginia estão ali. Se bem que, diz meu pai, os livros são meus, já que os comprei, paguei, a estante é minha. Piada de pai que gosta de fazer filha sorrir. E estou sorrindo. Vejo a foto da família bonita que foi separada de forma não menos drástica do que qualquer outra. Eu, ali, bebê com macacão branco e tênis com detalhes vermelhos e uma caretinha de rato. 18/11/89, foto que minha avó japonesa tirou.

Os gatinhos japoneses, maneki nekos, que me trazem rios de dinheiro imaginário, acenam com suas patinhas felizes. Tenho muito disso em mim. De guardar figas, coelhos, penas de avestruz, hashis coloridos, essa japonesidade. Nossa ligação é muito forte. E só agora, depois de um bom tempo de tristeza contida, reservo alguns minutos para pensar nela, Mioko, uma batchan tão querida. Eu sou pessoa de várias famílias, porque acolho e sou acolhida, na mesma velocidade e proporção em que distribuo meu carinho e lealdade com as pessoas que amo. E por quem tenho um ciúme absurdo, claro. Eu era neta dela. Neta de mentira, mentira verdadeira, e ciumenta fiquei quando seus netos de olhos puxados chegaram. E ainda assim os amei. Lamento muito por não ter a oportunidade de chamá-la para um casamento – que provavelmente não vai acontecer. Diz meu pai, o mesmo, que eu não nasci pra casar.

Ela ficou orgulhosa de mim por cada pequena coisa que fiz: vôlei, teatro, ginástica, natação, a entrada na vida acadêmica, a mudança de curso, os seis meses restantes para a formatura, etc. E entre sushis e tortas alemãs, vivi negando as codorninhas assadas com molho de cereja e pedindo churrasco, com essa petulante mania de pedinte que tenho desde criança. Sempre faminta, eu peço comida, porque tenho lombriga, ora bolas. Ela me entendia. Sinto falta das tardes correndo no campo de futebol dos Aoki, enquanto meu pai, camisa 13, fazia gols dedicados a mim. Ele nunca mais jogou bola, o campo foi vendido, não tenho mais aquela mesa azul de ping pong pra ganhar de crianças japonesas que achavam que eu era uma delas, só que diferente. Moreninha. E vale lembrar que quando cheguei na faculdade, em dois cursos diferentes, duas de minhas primeiras amigas foram japonesas.

É tudo pessoal e sensível demais pra que seja facilmente compreendido. Mas ela sabe que cada incenso aceso naquela terça-feira triste foi um pedaço da alegria que sentimos por tê-la ao nosso lado, pelos anos que passaram. Com aquela solidariedade linda que ela tinha, num coração que dizia: que kawaii que você é, minha Leticinha.

Sobra saudade.

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