Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Acostumar-se

Poucas coisas são tão difíceis como se acostumar com algo. Isso porque quando precisamos nos acostumar com alguma coisa, esse algo é diferente, foge ao nosso controle. Acostumar-se com o absurdo, com o mundano, com as variáveis que a vida joga, – na verdade, quase dispara com um canhão em nossa cara – não é fácil. Acostumar-se é difícil porque existe sempre a relação com o outro, com o próximo e o distante, com o ser humano que, em essência, é contraditório e diferente, é rico e diverso em sentimentos e emoções, em um imenso mar turvo de ações.

Acostumar-se com o presente, com o dia de hoje, abrir os olhos, espreguiçar, levantar com sono, escovar os dentes e ir para mais uma batalha.

Acostumar-se com os fatos. Com o fato de que os sonhos infanto-juvenis nada mais são do que pedacinhos de poeira colorida em nosso imaginário. Com o fato de que ser adulto é mais do que um fardinho de contas a pagar, que as responsabilidades vêm e vão na mesma proporção do cansaço, do não saber, do não entender. Com o fato de que caminhamos dia após dia para direções que não sabemos porque seguimos, que não nos explicam o que fazemos aqui na Terra, nem porque não estamos em qualquer outro lugar.

Acostumar-se com a dor, aquela de dentro da pele e aquela dos semelhantes, daqueles que passam fome, que não tem teto, que não sabem escrever o próprio nome, que não podem se relacionar sem interferências tenebrosas. Que não são deixados em paz, por serem diferentes do que é convencional, “normal”, “comum”.

Acostumar-se com o sofrimento, aquele de não fazer o que se quer e aquele de quem tem direitos anulados diariamente, de quem apanha, de quem morre, de quem é histórica e ininterruptamente desrespeitado, de quem sente e sofre ao respirar, por aparelhos ou ares contaminados pelo ódio, pelo desamor, pela maldade, pela riqueza de poucos e a pobreza de muitos.

Acostumar-se que a vida é isso aí, essa coisa que passa pelos olhos em looping, aquilo que dizem as ótimas línguas: “a vida é uma calcinha enfiada no cu”. Acostumar-se com o que está embaixo do nariz, com o frio ou com o calor, com o emprego, com a casa, com o pouco dinheiro na conta bancária, com a grama do vizinho, com a eterna sensação de que estamos sozinhos, com a dúvida de “para onde vamos quando tudo se acabar?”, com as incertezas diárias, com o futuro distante, com o sinal vermelho, com a fila do supermercado, com tudo aquilo que não vale o desgaste.

Acostumar-se é difícil porque não está em nossa natureza. Mudamos, mudamos de novo, nos reinventamos e buscamos mudar sempre mais.

Com algumas coisas deveria mesmo ser impossível se acostumar: lutas que devem crescer cada vez mais, causas essenciais para tornar nossa humanidade, quem sabe um dia, enfim, mais uma humana.

Mas para tantas outras coisas, mediocridades banais, pequenas turbulências que devastam o interior dos humanos mais melancólicos e sofredores, ai que droga de trabalho, nunca vou conseguir concretizar meus sonhos, com essas besteiras todas é preciso acostumar-se?

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3 opiniões sobre “Acostumar-se

  1. Você conhece a fotógrafa Vivian Maier?
    Eu pensei nela lendo seu texto e também me lembrei do que conversávamos anteriormente. Ela foi a vida inteira babá, até na nota de seu obituário não havia nada que a ligasse com a fotografia. Mas em 2007, se não estou enganada, vários negativos dela foram encontrados…
    Ela é um mistério para mim e também inspiração – talvez quem eu considere realmente “artista” -, pois seja lá qual foi o seu motivo, ela passou a vida inteira fotografando e, quando eu digo a vida inteira, eu realmente levo ao pé da letra.
    Mas ninguém do “ramo” da fotografia a conhecia. Ela era e é muito desconhecida até hoje.
    Enfim, o que queria dizer é que saber dela me motivou, pois imagino (como ninguém sabe de seus reais motivos, minha imaginação é livre!) que ela tenha feito o que ama, sem se preocupar com nada… que aquilo (o ato de fotografar) tenha se tornado tão parte de sua vida, que não era mais somente a “parte”, era a própria vida.
    E, não esperou por nada, não deu desculpas, foi lá e fez o que lhe fazia feliz! Sem aguardar nada em troca, nada mesmo.
    Ela não se acostumou…
    Se eu conseguisse viver como (eu imagino) ela, ah, seria muito feliz!

  2. Essa história é linda mesmo e fiquei emocionada quando a descobri. Eu admiro as pessoas que são estrelas “clandestinas”, que se dedicam à arte realmente sem esperar nada em troca. É mesmo muito lindo isso. Acho que deve ser mais fácil se acostumar com as dificuldades se fizer o que se gosta sem esperar retorno. Sofro ainda porque não queria ter um hobby, mas sim uma profissão, mas acho que tudo bem se eu estiver ao menos próxima dessas poucas coisas que me fazem completamente feliz quando me pegam em cheio. Vamos tentar ser um pouco Vivian Maier a cada dia.

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