Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “novembro, 2010”

Salgado novembro.

Desde que eu me conheço por jovem sedenta por outros jovens, nunca passei o mês de novembro totalmente desacompanhada. Nunca soube explicar a razão, mas batia a metade de outubro, eu me envolvia de forma sensacional com alguém espetacularmente novo e interessante e puff. Estava total in love em novembro. Claro, quando assisti aquele filme, que foi um dos primeiros a me fazer chorar – eu sou turrona mesmo – pensei: nossa, genial! Um novembro com data de validade. A minha vida seguiu a ficção e nem percebi.

Sabe-se lá por qual razão obscura e medonha (que não seja praga rogada) não estou apaixonada esse ano. Ou melhor: não compartilho um romance fofo com ninguém. Não estou reclamando. Pelo contrário, é com admiração que chego a essa conclusão. Afinal de contas, a magia dos novembros anteriores me arrasou tanto quando acabou, em todas as ocasiões, cada uma do seu jeito de me chamar de fria. Se eu fosse assim, tão fria, não teria tantos novembros. Ou maios, ou julhos, ou setembros. Talvez seja demais.

Hoje lembrei de três meninos que se declararam pra mim na vida. Quando eu era adolescente – acho horrível ter que crescer com todo esse histórico nas costas – era conhecida como a menina mais difícil do colégio. Um garoto da oitava série me disse pra avisá-lo quando eu começasse a namorar alguém: nós vamos dar um troféu pra ele, por conseguir convencer você a namorar com ele. O menino que me trouxe um ovo da páscoa enquanto eu estava em outra cidade e ficou horas plantado no portão, me disse algo parecido: uma hora você vai se arrepender de não deixar ninguém chegar perto. E teve o que me entregou uma carta cheia de desenhos, planos e frases de amor e a tomou de mim porque eu tive um ataque de riso. Esse só voltou a me dar oi uns cinco anos depois.

A nostalgia anda confundindo tanto os meus sentidos ultimamente, que não sei de quem gostei mais: deles, de mim ou de sofrer. Não sei em que hora posso abrir os olhos quando os fecho para esquecer coisas ruins. Não sei porque evito estendê-los até janeiro. Não sei porque ri daquele menino, se anos mais tarde tudo o que eu queria era que alguém chegasse com uma carta cheia de desenhos, frases clichês e um ovo da páscoa. Não sei porque o amor me atinge de uma forma estranha, que me sinto sufocada e preciso esfaqueá-lo. Não sei porque faço isso. Não sei consertar depois.

Talvez esse novembro tenha vindo para análise profunda. Para eu não precisar de um março pesadamente maluco pra compensar toda a paixão dos meses anteriores. E depois não precisar me recuperar entre tantos, de tantos. Nem são tantos assim. Numa foto com cinco, dois estão intactos,  numa boa.

20ª Madrugada

E lá estive. Repleta da decência que os meses vêm trazendo. Pouco a pouco, um a um, empato a formalidade com a indiferença e sigo em frente. Quem me conhece sabe que, além de cheia de respostas, não sei viver com dúvidas. Tive, porém, uma madrugada interrogativa do tipo massacrante, que me fez mais do que pensar: me fez responder.

Sai mais cedo do que de costume da festa. Encontrei meu irmão e a ex-mulher num barzinho old-cool-não-vamos-mais-pra-school. Os dois estavam tão faceiros que me contagiaram. Nem percebi quando fui incumbida de ver como o Arthur estava, pois não confiavam na babá. Parece filme americano, mas é minha vida. Fui pra lá uma e meia da madrugada.

1) Tia, você não vai casar?

– Você acha que eu devo me casar?

– Eu gostava do seu namorido.

– Namorado.

– Namorido. Ele me disse que era namorido seu.

– Tá. Ele foi pro céu.

– Ele morreu?

– Não, mas ele se afastou da tia.

– Se eu me afastar de você, eu vou pro céu?

– Vai, mas aqui com a tia é mais divertido.

Tive que ligar Playstation 3, jogo de skate, pra parar. O saldo foi positivo, porque agora estou louca atrás de um skate. Quando meu irmão chegou, meia hora depois, eu ainda não tinha sono e precisava me alcoolizar- não é todo dia que uma criança diz tanta coisa cheia de karma, significação e terror.

2) Moça, me responde rapidinho: você é aquela cantora?

– Que cantora?

– Aquela da bocheca de maçã…

– ?

– Não lembro o nome, mas parece. Posso te perguntar uma coisa?

– Não.

Gente insistente me cansa.

3) Alô. Você tá em casa?

– Na verdade, não.

– Onde você tá?

– Resolvi dar uma volta.

– Posso te encontrar?

– Vai pra minha casa.

Parece promiscuidade, mas é a minha vida.

4) Alô. Filha?

TUC, TUC, TUC.

Parece descaso, mas é a minha vida.

5) Por que você não atende os meus telefonemas?

– Porque eu não gosto de você.

– E quem disse que eu gosto de você?

– Você.

Parece um desamor, mas é a minha vida, cheia deles.

6) Eu gostei, hein. Você gostou?

– Não sei, vou ter que sentir mais um pouquinho.

Não me façam mais perguntas. Estou dormindo. E a minha vida segue estrela cadente, cheia de brilho e pedidos, até a infinitude.

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