Arrepios

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As cortinas estão abertas

Hoje as cortinas do lado esquerdo estão abertas.

É muito difícil, praticamente impossível, manter a atenção na tela embaçante a minha frente. As cortinas estão abertas e cada olhar por cima do ombro é verde. Folhas reverberando com o vento. Céu meio azul, meio cinza, exibindo uma naturalidade indescritível. Que linda visão quadriculada!

Lá fora, tudo está no lugar. Eu, desatenta, sonho com as seis da tarde como se sonha em conquistar o mundo em cima de um balão colorido. Busco conter a impaciência, segurar as pontas, por assim dizer.

Meu corpo dói, tamanho o esforço para me tirar daqui. Insisto, porém, que é necessário ficar. Converso com as pernas, que se balançam mais do que uma palmeira na praia. Converso com os quadris, que forçam todo o tronco a se levantar e sair correndo. Converso muito com a boca, que se fecha em zíper forçado a cada ameaça de xingamento em alto e bom som.

Falo com as mãos também – elas começaram a se recusar a fazer coisas irrelevantes. Tenho medo de  que um dia se revoltem e façam greve. Posso vê-las espalmadas, rígidas e vorazes, aos berros:

– Você precisa escrever aquilo que está na sua cabeça.

Antes que tudo vá embora, eu sei. Estou consciente. A consciência, na verdade, é o que me faz permanecer grudada na cadeira. Contas a pagar também, mas a consciência das dificuldades mundanas pesa muito.

Meu cérebro, coitado, tem falado que vai pifar. “Escolha logo um lado para seguir, eu não posso ficar indeciso o dia todo”. As palavras pululam pelo ar. Estabilidade. Dinheiro. Segurança. Comprometimento. Responsabilidade. São muitas e se misturam. Felicidade. Tranquilidade. Relevância. Talento. História. Sonho. Ah, como é bom sonhar!

Em meu sonho eu não preciso colocar meu corpo em luta interna, sequer esperar um dia corajoso, que provavelmente não vai aparecer tão cedo, para minha frustração. No meu sonho, sorrio enquanto meu corpo está em completa sintonia com o que acredito, espero e, realmente, sei fazer. Em meu sonho, vivo como gostaria de viver.

As cortinas continuam abertas, mas a janela ainda está fechada.

Hoje, inerte, permaneço aqui. Amanhã não sei.

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