Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

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A vida.

A vida atropela.

Às vezes com vento, outras com feno. A vida bate forte como um tambor. A melodia de uma dor atrás da outra. De uma lágrima que cai num lindo dia de sol. De uma lágrima que fica presa nos olhos da depressão. Todas as dores do mundo. O ininteligível. O que não se vê. Todas as dimensões de uma dúvida que paira no ar, como aquela folha miúda que voou longe com a tempestade. Não volta mais.  A vida.

Cada dia mais complexa, algo que transcende as dificuldades da vida adulta. Ser humano é arame farpado. Ser humano é mais humano do que real. A realidade. Ser. Não ter. Ser. A pureza dos sentimentos inatos. A certeza do que foi aprendido. Apreendido em si. O desentender. Todas as tragédias do mundo. O grito que ecoa nas paredes silenciosas da mucosa. O furacão que infla o interior e faz sofrer. A vida.

Não houve preparo, não existem respostas. Humanos, encrustados em pele densa, em sangue vermelho enferrujado, em ossos que balançam. Perdidos. A vida. Derradeira, impetuosa, única.

Muitos são os mitos e poucos os sentidos. Cinco. Menos do que os pecados. A religião que não dá conta. A esperança. Os olhos fechados enquanto o coração lateja. Ainda bem que existem os sonhos.

A vida.

Inexplicável.

A vida.

Caminho irremediável para a morte.

A vida atropela.

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Quando a véspera precede o amor ela passa em branco.

Vésperas são difíceis para mim. Sempre foram. Espero que isso não seja mais um dos muitos vícios de espírito, que parecem me acompanhar, grudados aos tornozelos como lodo nas pedras mais molhadas.

Vésperas são impossíveis. A ansiedade que vem antes de cada realização, atinge seu ápice algoz no dia anterior ao grande momento.

As vésperas acabam com o preparo, com a espera, com a sensação de que finalmente algo vai acontecer. A véspera marca mais do que o grande dia em si, pois quando tudo passa e a mão decide não derreter  – mesmo após todo o suor escorrido entre os dedos, axilas, seios e onde mais as glândulas se rebelarem – sobra o alívio, aquele “ufa, ainda bem que acabou”.

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Hoje chove. Escuto The Mamas and The Papas, decorrência de Elena, belo filme que assisti enquanto segurava uma véspera pelos cabelos. Tento dizer: não me corroa, maldita, você é apenas um espectro ruim das minhas expectativas. Ela, sempre danada e atenta, gosta de me provocar. Revira meu estômago ao menor sinal de relaxamento. E assim fico, como se o gelo do Alasca estivesse concentrado em minhas vísceras.

Volto à música. Escuto “Monday, Monday”, enquanto espero o esmalte secar, e aí me recordo de que tive a brilhante ideia de passa-lo antes de lavar a louça em cima da pia. O que me lembra de que moro sozinha há um ano e dois meses, e aí também lembro do tamanho das minhas bochechas em plena Praça do Japão, em uma véspera. Eu queria sorrir, mas o medo não permitia.

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Véspera de ficar sozinha no frio, de desistir de uma vida a qual eu estava habituada, de começar uma trajetória com a qual sempre sonhei. Nessa véspera chorei muito, enquanto o carro com meus pais e irmã ia embora, pela rua deserta e cinza. Eu nunca quis tanto correr. Nunca fiquei tão estática.

Essa véspera me recordou outra. Lembrei que estava muito infeliz no dia anterior ao 24 de novembro de 2012. Tinha passado por maus bocados e estava cansada, realmente esgotada da vida que estava levando, do modo como deixei meus dias desandarem.

Eu não sabia que era véspera de algo muito importante, portanto não tive o sofrimento da expectativa.

No dia seguinte, um sábado bonito, meio nublado, como os dias de que mais gosto, conheci uma pessoa que mudou minha trajetória, me colocou em eixos bonitos, com flores imaginárias envolvendo meus cabelos, que me fez e faz sorrir todos os dias e congela minha barriga nos olhares mais longos.

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Já faz um ano. O melhor ano. Essa história começou tão bonita, que nem precisei sofrer por antecedência. Ele apenas surgiu, com sua simplicidade, honestidade e carinho, e com o tempo me fez feliz. Hoje é o meu amor.

Pois é. O amor não avisa mesmo. Chega, invade, fica, sem anunciar, muito menos pedir permissão.

Não tem nada melhor do que não saber quando será a próxima véspera que vai balançar sua vida.

Sobre o sonho que é real

E por um segundo pensei que talvez meus dedos fossem feitos de imãs, pois a atração por sua pele é irremediável. Cogitei, enquanto me via deslumbrada por sua beleza adormecida, estar em mais um sonho complexo, em que coisas inacreditáveis deixam rastros de loucura, real e ficcional. Eu não dormia.

E me vi embevecida por sua respiração, leve, limpa, quase inaudível. Estava escuro, mas consegui ver claramente. Cada poro, pequeno detalhe, as marcas da vida que teve desde que veio ao mundo, as marcas que adquiriu enquanto nos conhecíamos, as marcas que agora fazem parte de nossa história a dois. Que sonho bom!

E senti algo inexplicável, que se repete, me acomete, muitas vezes faz meu coração acelerar, gira meu estômago como em um vulcão de borboletas em erupção. Todas as metáforas fazem sentido agora. A invenção não é necessária quando a realidade assume um posto tão bonito.

E, de repente, eu estava confortável como nunca estive, em uma bolha mágica que abriga nossas metades. Flutuando para além do que os olhos dão conta de ver e a boca de narrar. No céu, entre as estrelas, tocando a imensidão com a ponta dos dedos. Os imãs dominando o corpo todo e unindo tudo o que nos representa.

E eu te olho, te descubro, te abraço, te espero, te entendo, te quero, te encontro, te beijo, te venero.

E eu te amo.

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Entre uma letra e outra

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Rabisco porque gosto. Escrevo porque me fascina.

Entrar em outra dimensão e resolver quase qualquer questão com palavras. Essa é a mágica que me move. Vivo de mágica, de sonhos, de universos paralelos, de cheiros desconhecidos e cores inexistentes, que incendeiam os dias frios.

Consigo ser muito feliz com um lápis e uma folha em branco. Sou grata à existência por ter me dado esse pedaço de felicidade embutido em meus dedos, que se conectam com os meus pensamentos mais bonitos ou sombrios, e reagem como folhas de outono cobrindo uma rua inteira chamada imaginação. Minha imaginação.

Não sei dizer ao certo quando comecei a gostar de escrever, mas sei que foi muito natural, em um processo em que o único sofrimento estava no fim de um caderno de brochura encapado com papel de carta. A última linha, o último ponto final. A ponta quebrada do lápis, sem apontador ou facas por perto. A dor de se concluir uma estória. A lágrima caída porque aquela personagem tão rebelde passou do ponto e foi ver a escuridão do desaparecer. A culpa pela falta de tempo para me dedicar aos mundos que resolvi criar.

Sofro com a escrita. Na mesma proporção em que amo. Me entrego, me envolvo, me sinto refém de uma criação quando a sinto presente em minhas palavras. Mas, veja só, estou longe de ser uma escritora, tampouco de jogar meus contos feito vento na cara do mundo.

Longe, eu admito: é muito longe. Perto só estou do meu agora, que sofre com a ausência das palavras que estão em fila nos pensamentos, querendo se mostrar. Como são exibidas as minhas palavras! Repreendo-as, peço-as para esperar. Preciso encarar essa rotina para, quem sabe em um belo dia, voltar inteira para elas.

Inteira. Insana. Insaciável.

Eu não sei o que seria de mim sem as palavras. Sem as palavras em um papel. Sem essa mágica.

Amo-as, minhas palavras. É com vocês que consigo representar o turbilhão de emoções e pensamentos que me corroem, atos de coragem ou covardia, estórias, estórias, estórias.

Um dia, talvez, quem sabe, eu chegue lá.

“Mas há palavras em meu coração, letras e sonhos, brinquedos e diversões…”

Sobre buracos.

Buracos são buracos em qualquer lugar do mundo. Existe, no entanto, uma infindável família de buracos. Buracos são denotativos, no meio da terra, do asfalto, como poços artesianos e, repletos de água, poças se fazem. Buracos são fantasiosos, no meio do corpo, dentro do coração, no fundo da alma. Buracos têm várias excentricidades. Buracos sempre machucam.

Caia em um para ter certeza.

Em uma rua comprida, com duas margens distintas – uma urbana, a outra florestal -, rua dessas que inspiram poetas apenas por ser desigual, os buracos se mostram inteiros. Eles gritam por sua atenção. Até mesmo os pedestres, com exceção dos excessivamente distraídos, se interessam pelos buracos famintos, que choram e gritam por não conseguirem se locomover.

Sentem-se presos em um filme francês, com Bach no último volume, enquanto são massacrados, diariamente, sem dó nem compaixão, como se tivessem escolha. Eles se formaram pelo tempo, pela natureza das coisas, até mesmo por um serviço mal feito. Bebês da humanidade, filhos da modernidade. Buracos. Apenas tristonhos e estáticos buracos.

Dentro da menina que acordava às dez da manhã para observar os pássaros na grama da casa de infância, enquanto bolava planos para o futuro em papel colorido, um verde água escolhido como a melhor cor de lápis de cor do mundo, havia um buraco. Um buraco pequenino, flexível, pronto para ser alargado.

Ela não sabia o que a esperava. Ela sonhava com um lugar frio, em que pudesse andar com lindos cachecóis enquanto sentia o vento gelar as bochechas gigantes. Ela via sua maturidade crescer entre árvores floridas, quem sabe em um sobrado desses com floreiras coloridas. Imaginava o sucesso fácil como chupar um picolé de morango. Era feliz. E mantinha o buraquinho pequeno, invisível para quem estava fora de si.

De repente, estava no frio, com as bochechas crescidas geladas e o sucesso colado em suas costas. Na perspectiva em que cresceu, faltava muito pouco, era metade do caminho andado e ela mal precisou correr. Tropeçara em poucos buracos, até então, não tinha ralado os joelhos jamais.

Caiu. Precisou cair em um para ter certeza.

Hoje a menina sente a cicatriz do enorme buraco que teve que costurar. Não era no coração, porque as coisas do coração são fechadas. O coração tem arquivos com pastas, muitas pastas e cadeados. Você só precisa saber trancar e abrir. É muito mais fácil lidar com o coração.

Seu buraco cresceu na expectativa. Essa mesma, que fica solta dentro do corpo e nos atinge como um balão cheio de fogo. Ela teve a maior parte do que desejara nas manhãs ao som dos passarinhos. Mas lidou com um buraco no meio do caminho. Já dizia Nhá Barbina: “esta vida é um buraco”.

Como foi que ela fechou esse buraco? Perguntam os amantes de flores emburacados.

Ela fechou com paciência, com pessoas queridas, com mais alguns tombos, com a descoberta dos seus limites, com carinho, com um novo encontro, com sorrisos leves, trabalho duro, seus passatempos favoritos antigos, sua personalidade própria,  com amor. Ela fechou com muito amor.

– Esse buraco, diz ela, já não abre mais.

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Tenho.

Tenho sonhado com paisagens quentes, outras dimensões e atmosferas, sorrisos dóceis e sinceros, folhas voando contra os cabelos, nuvens em formatos variados. Tenho pensado em passar reto pelo destino, saltar de ponta em um rio, fechar os olhos e flutuar. Tenho esperado a chuva ir embora, o frio amenizar, as roupas secarem, o ônibus passar. Tenho sentido saudade de casa, das minhas pessoas, de sentir alegria, de realmente ser ouvida, de me sentir amada. Tenho vivido no limite da loucura, ao mesmo tempo muito sã, talvez como nunca estive. Tenho sentado no meio de uma grande cama nas tardes de domingo e chorado, e sorrido, e chorado, e sorrido. Tenho intercalado meus pensamentos em presente e futuro, sonho e realidade, e nem sempre consigo saber onde estou. Tenho lembrado de longas conversas que não existem mais, de abraços que não recebo mais. Tenho esperado as palavras saírem de mim. Tenho a sensação de que estou além do tempo, ao mesmo tempo em que perdi a noção do tempo, e quero apenas voltar no tempo. Tenho visto o tempo passar, os dias correndo, as manhãs quentes dão ao lugar a um frio abrupto e o dia termina com o corpo envolto à névoa. Tenho medo. Tenho muito medo. Tenho mais medo do que eu jamais tive. Tenho, também, meus sonhos, e deles não abro mão. Tenho amor. Tenho, ainda, apesar de tudo o que não consigo mais dizer, muito amor dentro de mim. Tenho.

 

O vento

No primeiro dia queimei as bochechas. Claro, elas não podiam ficar de fora da festa. Queimei como se elas fossem se escaldar. Queimei e senti pena de nós três. Eu e as bochechas. Depois veio a gélida impressão de que os meus ossos iriam quebrar, eles que já são tão frágeis. Em seguida, o calor: ei, alguém tira esse monte de blusas de cima de mim? Então a chuva, os cabelos acompanhando a direção das gotas, a sensação de que se poderia voar do meio da rua para a lua. Logo senti o calafrio, o cheiro do medo, vontade de sair correndo. Então a paz, a calmaria, o vento…

Seis dias em Curitiba hoje, nem uma semana. Seis dias e já consigo imaginar um ano inteiro.

A espera.

Ela chegou mais cedo, sentou em um banco vazio, apoiou a testa nas coxas, os cabelos deixaram a nuca à mostra para que o vento assoprasse seu espírito: era sua posição de conforto. Assim, sempre ouvia os pensamentos, além de descansar do peso que sentia por ser quem era, mesmo não sendo ninguém.

Com paciência, esperou durante muito tempo, esfregou as unhas compridas nos tornozelos, desenhou mapas no ar com a ponta dos dedos. Esperou, cantou mentalmente, ouviu os suspiros da natureza ao redor, amarrou e desamarrou os cadarços até perder a conta.

Estava desolada por fora e muito compreensiva por dentro. Tinha isso consigo. Não demonstrava emoções facilmente, nem conseguia manter aparências a longo prazo. Estava cogitando levantar e correr pra longe, mas estava confortável demais para isso. Manteve-se ali.

Estática. Frágil. Tranquila. Um sossego pra chamar de seu, um banco pra guardar de recordação, o vento pra acariciar e oferecer sua pele macia. Um mundo infinito de possibilidades assim que abrisse os olhos. E a espera. E a espera.

Quando não pôde mais, ergueu a cabeça, ajeitou os cabelos, verificou se os cadarços estavam no lugar, abriu um sorriso, levantou-se em um segundo e caminhou, calma e silenciosamente, como se estivesse predestinada ao que a esperava, àquilo a que tanto esperou.

Caminhou até chegar ao ponto de partida. O viu forte por fora e desesperado por dentro. Sem saber se poderia confiar no que via, não pestanejou. Ajoelhou ao seu lado, colocou uma mão sobre a dele, que estava em cima do joelho. Respirou fundo, um último olhar para decorar o seu rosto, a invisibilidade que chega com os olhos cheios de lágrimas…

– Nós vamos ficar bem.

Deixou a última declaração de amor ao lado de seus pés de calçados sem cadarços. Um minúsculo coração feito com capim dourado, numa tarde ensolarada de inverno.

Ela estava em movimento outra vez. Não precisava esperar por ninguém, por sentimentos, por aventuras, palavras ou atitudes. Sozinha.

Em si ela sempre confiaria.

“My breaking heart and I agree
That you and I could never be
So with my best
My very best
I set you free”. 

26ª Madrugada

Odeio dias ensolarados. Odeio o azul claro intenso, o sol que parece dar gargalhadas na minha cara, as nuvens que me fazem inveja, tão altas e distantes do dia horripilante que tenho que viver aqui embaixo. Odeio dias ensolarados porque eles representam a beleza e a alegria que a vida não tem, não por completo. Eles dão a sensação de que uma ilusão, muito distante de nós, é melhor do que qualquer coisa que podemos vir a fazer um dia. Provavelmente, isso está muito certo.

Odeio dias ensolarados, mas odeio tantas outras coisas que sou considerada uma pessoa que odeia. Não sem motivos, gosto de acreditar, mas apenas porque não vejo muita graça ou vantagem ou incentivo em muitas coisas. Também não faço parte do time de gente que acha que gostar de todo mundo ou de tudo vai fazer do mundo um lugar melhor. Gentileza gera gentileza e também gente folgada. E eu odeio gente folgada.

Hoje o dia estava, estupidamente, ensolarado. Ele estava jogando na minha cara que minha vida está de cabeça pra baixo, que não tenho um emprego dos sonhos, que minha barriga está roncando e estou sem dinheiro pra comer, que a vida parecia menos inóspita quando eu tinha sete anos de idade, que eu não posso mais acreditar nas pessoas – nunca por completo, não mesmo -, que eu tenho uma montanha de decisões pra tomar, todas, preferencialmente, de forma racional…Sabe? Aquele céu azul “lindo” estava tirando um sarro imenso da minha cara.

Ando um pouco mais revoltada do que de costume. Talvez porque as coisas estejam mais irritantes e revoltantes, talvez porque essa falta de sentido pra vida canse a qualquer um, uma hora ou outra. Sei que das relações sociais existentes, tenho suportado bem poucas, que eu tenho andado de mãos dadas comigo mesma pra não desfalecer, que, infelizmente, minha falta de confiança nas pessoas chegou a um nível alarmante, do tipo: não deve existir ninguém que se interesse por um pouco mais do que a superficialidade intensa. Ando com raiva de gente que se diz de uma forma, enquanto na prática, oh céu ensolarado!, age de modo egoísta, e acaba se importando apenas com as suas emoções.

Esse é um ode à solidão. Eu sempre bato nessa tecla, de que deve ser melhor ficar sozinha mesmo, encaixotar o que importa e ir embora pra um lugar só seu, que te dê calma e espaço pra trabalhar naquilo que  te faz bem: a sua alma. O lance é que a cada dia que passa, me sinto mais sozinha nesse túnel escuro chamado vida, por onde tenho obrigatoriamente que passar, eu que sou covarde demais pra soluções mais drásticas, eu que não passo pelo ralo, eu que preciso trabalhar pra fugir, eu que odeio…

Talvez seja triste constatar isso, talvez seja até tardio. Mas nessa madrugada insone, meu abraço próprio – aquele em que envolvo meu colo e minhas costas com meus braços arrepiados – me parece a única forma de dormir bem e em paz.

The Strokes.

Sempre imaginei como seria o momento em que, sem ter como voltar atrás, os avistaria de tão perto que seria difícil segurar o ar dentro dos pulmões. Apesar de imaginar, como tantas outras coisas, não contava, efetivamente, com tal astúcia. Era sempre um não-sei sem-fim. Eles poderiam entrar em um hiato eterno, nunca virem ao meu país, pensamentos pessimistas como a dona. Cogitar um show perfeito dos Strokes, uma das minhas bandas favoritas da vida toda, era muito pra mim. Até que tudo esteve na frente dos meus olhos. Aquela sensação que invadiu meus espectros e tem me dado forças para aturar o cotidiano sem a perfeição, essa tal de mortalidade.

Era um sábado, um sábado recente, vesti roupa de fã clube junto com uma pessoa apaixonada por eles como eu. Thaís foi a companheira de ansiedade, de uma espera absurda, que nos fez chorar com as possibilidades, com os momentos, com o fim. Eu tentei acompanhá-la, assim como Felipe, mas ela teve cotovelos mais fortes do que os meus para se aproximar de nossos ídolos. Depois de toda a espera espiritual, acompanhar os três shows que antecederam “o da vida” foi fácil. Difícil foi conseguir respirar quando todos os outros grandes fãs dos Strokes resolveram garantir o seu lugar. Entre atritos com playboys dissimulados – fãs de Beady Eye, pffff – e a sede por água e todo aquele repertório magnífico…eles entraram no palco.

Obviamente, as pontas dos pés não foram suficientes para visualizar cada detalhe possível. Estava tão perto que conseguia vê-los da cabeça aos pés, os detalhes das roupas e dos instrumentos, tudo na frente do meu nariz. As duas primeiras músicas pareciam meu inferno astral, tamanha falta de ar e desorientação que me acometeram. Pensei em desistir de viver, ali, entre os riffs tão esperados, mas o exagero ficava piscando, dizendo: pára com isso, eles estão aí, aproveite. Quando finalmente consegui absorver onde estava, o que estava tocando, quando pude pensar “vai dar tudo certo, estou viva, desmaiar é para os fracos”, eis que os amados (apelido da adolescência, com a eterna Ana Júlia Casablancas) começam a dedilhar The Modern Age e Fabrízio, com suas baquetas icônicas, me fez chorar feito um bebê. Bebê desses que acaba de nascer.

Depois disso, tudo foi ainda mais sublime. Alcancei o estado de observação ideal. Eu podia pular, cantar, vê-los nítidos como num vídeo de Mallick, mas ali, dentro do meu presente. Perfeição. Nada mais define esse show. Os Strokes no Brasil, minha vida acadêmica por um fio para o fim, meus sonhos e planos cada vez mais aguçados… Me senti mais próxima de um paraíso como nunca. E eu queria tanto que eles olhassem pra mim, como se fosse necessário dizer: eu gosto tanto de vocês, que poderia morrer aqui, agora, ou daqui a pouquinho, quando acordar desse sonho. Foi quando Eduardo me proporcionou um dos momentos mais fantásticos da minha vida de fã inveterada. No meio de Alone, Together, ele me levantou do chão e me colocou frente a frente, em visão aérea com todos eles. Infelizmente, não sabia o que fazer com minhas mãos, que passaram de “mãozinhas de rock”, a beijos alucinados e acenos sem parada, até que Albie, no ápice de sua bondade, retribuísse o aceno como em um clipe strokiano. Meu dia estava feito.

Imagino que todos sejam fãs de alguma coisa, e acho até triste se uma pessoa não consegue gostar tanto de algo a ponto de quase ficar sem estômago esperando por ela. Vivemos nesse mundo cheio de fanatismo doentio, e por mais que pareça doença, a música dos Strokes me fez bem nos piores e melhores momentos da minha vida. Foi em um momento cabalítico da minha existência que eles surgiram pregando que ninguém iria entender, mas que a música estava ali. Pra ajudar. Idolatro-as, nesse sentido, sem medo de pieguices ou resquícios de aborrescência. Só me envergonho de não ter tido “pinto” suficiente para correr em direção ao palco, como tanto cobicei e prometi.

Os amados no auge da minha aborrescência.

Quando pensei que tudo estivesse acabado, eles voltaram para um encore que quase provocou a minha morte. Imagine, o que meu coração não sentiu, quando Jules e Nick voltaram sozinhos ao palco para Under Control na capela. Imagine, o que não tive que derramar de lágrimas ao, na sequência, eles tocarem Hard to Explain, possivelmente minha música favorita deles. Imagine qual não foi o poder de libertação quando encerraram o show da minha vida com Take it or Leave it.

De tanto imaginar eu cheguei lá. E sou tão mais feliz agora, que percebo que só eles, mesmo, me fariam me sentir assim. Só os amados.

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