Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “novembro, 2009”

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Se as crianças correm na chuva, qual é o problema? A água cai sem se importar com o que virá a seguir. Se vier sol, ou se o céu continuar cheio de nuvens, nublado, oprimido, bonito, não vai mudar muita coisa. Qual será a cor do amor? Ou do sabor? Isso tem cor?

E se as flores estiverem chorando? Quem se importa? Se elas sentem aquelas rajadas de ventos doloridos, que derrubam seus pedaços e sacodem seus alicerces sem piedade, quem quer saber? A vida prossegue, sem se importar com você, ou com a sua opinião sobre ela.

A vida não quer saber quando você quer dormir ou acordar. Ela te derruba, te levanta, te lança, te mata, te pega. E não está nem aí. Se você faz o que tem vontade, ou cumpre regras o tempo todo, se é pontual ou procrastinador crônico, tanto faz. A vida vai te trapacear. Aguarde!

 

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Pulou da cama com o cheiro da grama.

Andou devagar, queria apenas chegar.

Se surpreendeu com o que percebeu.

Estava com fome, esqueceu seu nome.

Queria dormir, mas precisava imprimir.

Não sabe rimar, apenas beber e amar.

Anjo

A risada mais gostosa do mundo. Era melhor que de bebê. Talvez porque ele fosse uma criança grande, um marmanjo que só pensava em brincar, um verdadeiro amigo dos cães. Ria alto, forte, preenchia os espaços. Os bons e os ruins. Tinha 20 anos quando sofreu o que não merecia. E se foi. Não está mais ali com seu olhar torto, preocupado, companheiro. Não se escuta mais aquela risada ou as broncas engraçadas:

– Vou contar pro tio Batista que você não faz nada. Você não tem vergonha de ser tão preguiçosa, Letícia?

Era só responder:

– Vai cuidar da sua vida, Bruno. Melhor não fazer nada, do que cuidar da vida dos outros o dia inteiro.

E ele cuidava, era isso o que fazia. Hoje deve ser um anjo, fazendo ronda em cima da quadra, olhando os cachorros e detestando os gatos. Espero que esteja protegendo sua mãe, com os olhos fundos que nunca mais sorriram por completo. Espero que sinta a falta que ela sente, para confortá-la de alguma maneira inexplicável. E que cuide da irmã mais nova, que muitas vezes fica sem pé, cabeça, chão, por achar que vai ficar sozinha.

Mas tenho certeza que ele já faz isso.

O Bruno não era de deixar quieto, e deixou um buraco enorme de saudades no peito de quem o conheceu. Fico triste por não ter escrito algo para ele antes, não ter lido alguma coisa “bonita” que escrevi enquanto comíamos jabuticabas direto do pé, não ter dito o quanto ele iria me fazer falta se um dia fosse embora… Nem eu sabia a dor que a notícia de sua morte me causaria. Foi a maior que senti até hoje, não tenho dúvidas.

Pode ter sido egoísmo elegê-lo meu anjo da guarda. Eu que não sou de chorar, não pude evitar tal pedido. Tive medo. Por ter crescido junto, conversado, brigado, irritado, assustado com a máscara da Minnie. Hoje quando vi sua mãe passando devagar, com o coração quase na boca – e o coração dela é tão grande que não sei como cabe no corpo – lembrei dele. Percebi que há alguns dias não me recordava de seus gritos no muro, das briguinhas cotidianas e senti falta.

O muro está mais alto do lado de lá. Não entendi a reforma, mas era um não-sei sem fim olhar para lá e não encontrá-lo. Atrás de pipa, de papo, de proteção. Eu o amava e não sabia.

Para você, Bruno, o meu amor! Eternamente, enquanto eterna eu for,

Letícia.

Tipo Rita Lee

– Voce é tão ingrata. Tem nome de música.

– Não. Tenho nome de cantora velhote.

– Mas sua vida amorosa pode ser toda musicada. Ingrata!

– Não pedi pra chamar Rita.

Porta na cara. Era revoltada por poucos motivos. Não gostava do nome, óbvio, nem dos cabelos. Queria que tivessem mais volume. Escorridos. Mais do que espaguete quando pronto. Cortou bem curto pra não precisar de presilha. Não gostava da cor dos olhos. Eram azuis, mas gostava de verde. Tinha aquela coisa natureza. Mas era mato, não mar. Não gostava do irmão. Era pouco pentelho pra pôr a culpa nele. Inteligente demais, denegria sua imagem em cada jantar:

– E eu sei lá qual é a capital da Tunísia?

Ela não visitaria Tunes. Queria saber de mais agito. Queria ser grunge em NY, ficar chapada em grande estilo, com as unhas pintadas pela metade, meia e calça rasgada. Queria ser cool. A mãe tentou explicar mil vezes, que sendo brasileira, de olhos azuis e cabelo bom, não existia dádiva maior do que se chamar Rita. Menosprezou desde pequena essa homenagem.

– A Rita tá diferente, não tá?

Mãe sabe das coisas. Percebeu a distração, as unhas bem feitas, o cabelo enfeitado, os olhos alegres, perdidos, quase coloridos. Percebeu a falta de tempo, os telefonemas, o perfume de flor, o sorriso grande, maroto, certeiro. Colocou pra tocar então: Mutantes. Ela estava na sala, com seus pensamentos, o celular na mão e a espera. Demorou pra entender o que acontecia. Foi o tempo necessário para deixar cair duas lágrimas e sentir o quanto estava feliz agora. Correu, abraçou a mãe.

– Minhas mãos não estão vazias, nem serão mais frias.

Admirável tempo escasso

Certas coisas não deveriam ser descobertas. Algumas discrepâncias típicas da vida humana deveriam ficar trancadas por muito mais tempo. O desespero adora revelações cabalíticas em determinado instante de nossa não escolhida existência. Assim, lenta e precisamente, de forma nada cortês, ele vem chegando. Frio, nublado, chato. E o mais desesperador é saber que nada pode mudar tal fato. São conseqüências de atos próprios, os pensados e os impulsivos, e no final das contas a culpa parece ser sempre sua. Escolhas, dúvidas, sentimentos. Não pode-se fugir de nada disso.

Talvez, no final das contas, as coisas devem melhorar. Sim, deve-se acreditar. Sem crenças não existem metas a serem atingidas, sonhos a sairem do papel, destinos aos quais se deve chegar. Crer em uma vida estável, feliz e tranqüila, maculada pelo canto dos pássaros e o correr dos minutos em marcha lenta: é necessário. Crer que qualquer hora dessas o tempo desacelera. Crer que ele vai se cansar, e só após muita ociosidade, resolverá acelerar novamente para que descanse em paz. Ele e você.

O tempo de certa forma, é tudo o que se tem. Saúde, moral e dinheiro encontram-se de forma distinta em cada um, mas a forma de administrar o tempo é que tem de ser levada em conta. Porque ele não pára. Não até que tudo se consuma. Não até que você já tenha atravessado tudo a que foi designado. E ele é escasso. Ó, como é!

Quem tem tempo pode dizer ter quase tudo, pois assim aproveita melhor a vida, dorme, acorda, faz aquilo que tem vontade. Diz-se até que tempo é dinheiro, tamanha sua importância pra tudo. O tempo no momento está correndo, passando e a vida vai junto. Enquanto escrevo tal consideração sobre o tempo e você a lê, ele está se deslocando numa velocidade única e precisa, mas não pára. Já dizia Cazuza.

Faça uma experiência: pegue alguns de seus minutos e jogue fora. Deite na grama, pinte uma parede, mastigue folhas de um limoeiro, cante para seu cachorro, suje os pés na lama, sinta o cheiro da terra que a chuva molhou. Viva.

08/10/2007

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Hoje resolvi transcrever algo que há muito tempo venho sentindo: a minha, nesse instante extremamente necessária, vontade de escrever. A escrita em minha vida é muito comum, desde muito cedo, portanto deveria ser mais fácil. Também acho, é o que desejo constantemente. “Saia, saia de mim, ideia. Fique no papel ou em algum espaço cibernético”. Mas não é assim. Se fosse, os escritores não seriam considerados seres tristes, solitários, suicidas e tudo o mais que lhes atribuem.

Não que eu esteja me considerando uma escritora, dessas profissionais, talentosas e mantidas em suas paranóicas invenções artísticas. Não. Apenas digo que entendo-as. Sei exatamente a dificuldade que muitas vezes se torna pegar uma caneta e colocar o que se pensa no papel em branco. Posso dizer, aliás, que quando as palavras resolvem escapar e se fazer aparentes isso é totalmente natural. Rapidamente, os contornos esferográficos vão dizendo aquilo que a alma de alguém criou, com sofrimento, paixão ou esperança.

O que estou sentindo agora não é isso, definitivamente. É aquela vontade de se registrar ideias que há tanto estão guardadas, que não saem como imagens já codificadas, que precisam de um bom estado de espírito para surgirem. Mas não sou uma escritora, dessas profissionais e talentosas. Então, talvez isso seja mais justificável.

Que seja esse então meu novo refúgio. Aquele que não me pune com o medo do irrelevante, mas que fica visível, faz com que as palavras ganhem mais sentido. É o que elas querem, afinal. Notoriedade. Conselhos. Companhia. A casa é minha, mas é sua também. As palavras são minhas, mas são feitas para você.

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