Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Madre.

Talvez porque ela tenha sido, de fato, minha segunda mãe. Talvez porque ela ministrou doses de sentimento puro e simples em meu pequeno e frágil coração. Talvez porque a confiança em seus conselhos e ensinamentos me tenham feito desmaiar, ao mesmo tempo em que eu crescia uma década. Talvez porque a saudade contagie meus neurônios sempre que uma gota de infância cai em cima das minhas costas. Onde habita o meu coração.

Eu fecho os olhos e consigo me ver na 122, aquela casa cheia de espaço e carinho, em que minhas dúvidas se resumiam a quantas folhas de videira eu conseguiria pescar, enquanto disputava corrida com meu menino favorito. As tardes, os retalhos, os panos de prato pintados – eu cobiçando um talento para as artes que nunca foi possível – o cheiro do pão de queijo feito a seis mãos…Ela era sorriso, brincos imensos, batom vermelho, mangas efusivas, risadas contagiantes, aquele cabelo preto que fazia com que nos confundissem como mãe e filha, abraços eternizados nas minhas melhores lembranças. Minha madre!

Sempre me orgulhei de tê-la como mãe, amiga, confidente. Se eu disser que não lamento, profundamente, esse distanciamento que a vida adulta nos trouxe, estaria mentindo. Às vezes, em tardes problemáticas, tenho vontade de pegar minha bicicleta preta e verde – que foi roubada – colocar um shorts de moletom por baixo de um vestido – que não serve mais – e sair correndo em direção a sua casa – que fica muito longe agora – e deitar minha cabeça em seu colo, sentir o cheiro do seu café – o único que suporto – esperar ela ouvir minhas lamentações e aconselhar. Mas a vida não colabora, sabe?

Dentro da minha caixinha de lembranças relevantes, as mais importantes, eu diria, está aquele lindo cartão colorido, cheio de glitter, em forma de pônei. Nele, estão as letras redondas e pequeninas, esferográfica preta, e o tremor das palavras: sinto tanta saudade, que confundo as outras crianças com você. Se preciso me sentir humana, é só abrir aquele pedaço lindo de papel e lembrar de como pensei que meu coração nunca mais seria consertado quando ela foi embora para Curitiba. E depois lembrar o quanto a amei mais quando, enfim, voltou.

Ela me deu mais do que afeto incondicional. Me deu o melhor amigo, um irmão, desses que te conhecem como a palma da mão – desses de sentir falta de doer o peito. Me deu uma filha, uma afilhada linda, que me faz sentir orgulho por cada pequena grande conquista, que me enche de um amor único, livre de qualquer conveniência de humanos. Me deu muito mais do que vou conseguir devolver.

Sabe, Madre, o meu amor por você está intacto, dentro do meu corpo de velha nova, no meu “nariz gelado”, nos meus batimentos cardíacos e, principalmente, em tudo o que você me permitiu sonhar e viver. Porque você deixava.

Eu te amo, tanto quanto naquela quarta-feira nublada, em que o cheiro de pipoca se misturava com as nossas risadas de mãe e filha. Não me abandone jamais.

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5 opiniões sobre “Madre.

  1. Minha Lê ,eu não consigo enxergar e tá difícil escrever …..acho que vou esperar as lagrimas secarem um pouco … QUE BOM TER VOCÊ serei eternamente grata as seus pais pelo presente que recebi VOCÊ! Amo , sua vitorias e suas conquistas , mesmo de longe , mas com certeza dentro do meu coração todos os dias …Obrigada por ser minha Lê .
    a unica sempre verdadeira. AMO minha pequena do nariz gelado meu grão de arroz, obrigada pelo que me fez sentir agora.

  2. Lê vou seguir vc , mas vou aprender ainda . rrrsrs

  3. Vou sempre chorar todas as vezes que ler.! te amo.

  4. Rosangela em disse:

    Que lindo!! eu chorei.

  5. Que linda! 🙂

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