Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “dezembro, 2009”

6

Que engraçado. Se ela pudesse iria se jogar no chão e rir. Como criança. Sem noção, sem responsabilidade, sem intenção. Gargalhar até as lágrimas escorrerem. Era muito hilário.

Tudo começou enquanto ela esperava o namorado no bar da esquina. Eles tinham combinado se encontrar às 21h. Era dia de jogo de basquete. Ele era o número seis e ela adorava aquilo. Por ser final ela resolveu não assistir. Ficava nervosa demais e roía as unhas. Abriu uma Original bem gelada e esperou. Tinha dois amigos e três amigas na mesa. Mas não conseguia prestar muita atenção. Olhou para todos os lados e parou na mesa à esquerda. Eram dois, mas só reparou em um: barba por fazer, cabelo interessante, camiseta lisa azul marinho. Guardou. A fisionomia, o formato dos olhos, o sorriso.  Reservou. Um espaço em seu coração para um futuro flerte. Assustou. Quando sentiu duas mãos em seus ombros, quentes e ofegantes. Era o namorado.

No dia seguinte resolveu sair sem avisar. Foi jogar truco e beber com outros amigos. Gostava de se aventurar. Foi direto para uma das festas favoritas. Com outros amigos. Quando estava lá, sem saber se esperava o namorado ao acaso, sentiu uns olhares penetrantes. Mais do que de costume. Se sentiu desejada como há tempos não se sentia. Era ele, do dia anterior. Resolveu corresponder às investidas, não deveria ser de todo ruim. Olhares, intensos, olhares, desejosos, olhares, olhares…Quando viu ele estava com a mão em sua cintura, já tinham se apresentado, se reconhecido de outras vidas…Beijo na boca. Com gosto de perigo, de aventura, de cerveja, de beijo.

O namorado chegou depois, ela teve que se afastar e rezar pra não ser vista pelo “estranho”. E eles continuaram assim. Um dia se beijavam, em outro conversavam, em outro mal se olhavam, mas estavam sempre ali, um para o outro. O tempo passou, o namoro acabou, outro começou…Mas aquele menino era um enigma, um labirinto de sentimentos e falta de informações.

E agora viu ele ali, na sua frente e queria dar muita risada. Ele tinha atravessado metade da cidade para falar com ela. A noite era terrível, tensa como dia de chuva com teste de auto-escola. Ela sofria a dor de um desamor, sem ter pra onde correr, nos buracos musicados em que se metia todo fim de semana. E ele apareceu bonzinho, bonito, cheiroso, como da primeira vez que o viu. Sentiu vontade de gargalhar, pela sorte que tinha. Era uma euforia bonita, incansável. Não sabia o que o futuro reservava, mas gostava das faíscas que saíam de seus corpos. Temia um pouco pelo beijo – que não era coisa de outro mundo – mas as faíscas…ah, as faíscas!

5

O sentimentalismo é barato. Eu sou pobre. Eles deveriam casar em minha vida, certo? Talvez. Pra começar, não acredito nessa  coisa de certo ou errado. Eu acredito em bom e ruim. Claro que quando se quebra um conceito tão forte como o do que é certo e do que é errado, você pode “errar”. E o que é bom pode ser ruim. Vice-versa. Costumo enrolar, dar voltas e voltas, mas quero concluir: não sou sentimental.

Mas tenho lá meus sentimentos. Quando passei no vestibular pela primeira vez chorei de alegria e senti uma coisa muito boa dentro de mim. SENTI. Quando meus pais se separaram oficialmente – o que significa quando minha mãe partiu de casa – senti um buraco corroendo minhas tripas. SENTI. Quando perdi um grande amigo e quando vi grandes amigos perdendo grandes amores, senti uma impotência em relação à vida, ao mundo, às contingências. SENTI.

Quando chove sinto saudades. Quando faz sol sinto vontades. Quando estou triste sinto medo. Quando estou feliz sinto esperança. Quando gosto sinto carinho. Quando desgosto sinto decepção. Quando acordo sinto desgosto. Quando vou dormir sinto cansaço. Quando eu corro sinto energia. Quando caio sinto dor. Quando minto sinto vergonha. Quando falo a verdade sinto arrependimento. Quando sou eu mesma sinto que não sei quem sou.

Sem pé nem cabeça. Isso está assim e reflete meus dias, minhas desavanturas, meu cotidiano. Hoje é um dia que devo guardar. Talvez fosse o caso de deixar registrado que todo alguém que me fez rir, se importou e me deixou com um belo estado de espírito enquanto esteve e ao sair de minha vida, merece ser feliz.  Eles. Eu. Nós todos.  Mas cada um ao seu modo, sem nos esquecermos de como nós nos fizemos tão bem, antes de nos fazermos tão mal. Pois é sempre assim.

Quanto ao sentimentalismo? Se é tão barato, prefiro esperar enriquecer para comprar algo mais nobre.

4

Não dói nada. Espero as pontadas, os cortes nos órgãos vitais. Nada. Talvez raiva. Sim, raiva sim. Mas passa tão rápido que não dá pra saber o que é. Aí, de repente, fica claro: decepção. A melhor palavra para significar tudo o que fica sem sentido de uma hora pra outra. Você espera, vive, aprende, gosta, desgosta, gosta de novo e se decepciona.

Somos humanos, afinal. E se não fossemos, provavelmente, decepcionaríamos de alguma forma. Cada um tem um motivo, mas a maioria das coisas termina porque faltou algo que você esperava. Decepcionou, desandou.

Não falo de amor, apenas, nem de relações sociais quaisquer. Falo de vida. Se você trabalha, como condenado, se mata por um ideal e não é correspondido: decepção.

Mas claro que não escrevo sobre trabalho. Nem sobre amor. Escrevo sobre loucura. Me decepcionei com ela, que sempre me acompanha e tem me deixado perdida nos últimos tempos. Não me deixa alucinar, ou brincar com quem quero. Não me deixa ser livre, nem desencanada como gosto. Ela me pira, me faz perder o bom senso. Estou decepcionada com você, minha loucura. Por tempo indeterminado.

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