Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

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28ª Madrugada

De tudo, ao final do dia, uma ou outra certeza pode ser definida como real. No mundo dos achismos e das evidências, saber que uma coisa é certa como o sol cair para chegar a escuridão, é fato consolador. Basta reparar: todos os dias é possível receber dos céus pelo menos uma certeza. Acho.

Uma certeza diária e aleatória é a de que as pessoas podem ser muito mais imprevisíveis do que você imagina. Nunca, e digo isso no palpite mais certeiro do espaço, você vai deixar de se surpreender com os limites do pensamento do ser humano. Para ilustrar essa verdade, brindo à madrugada com aquele tipo de descoberta terrível – e digo terrível para aquele que tem dormido sossegado na rede, sem saber o que a cabeça alheia maquina – o amor inventado.

Recebi um bilhete que informava um desses casos de fantasia exacerbada. O rapaz, desses que bradam aos sete ventos os seus diferenciais enquanto másculo no mundo, tinha uma queda maluca pela destinatária. Eu sempre me assusto com esse tipo de questão, pois me acostumei a deixar sempre claro meus sentimentos em relações pessoais.

Batata: era um amor inventado.

Não bastasse fantasiar o que o platonismo traz “– eu largo a minha para ficar com você, que vai largar o seu e andar comigo num carrossel azul turquesa com luzinhas douradas piscando”, ainda imaginou a reciprocidade, o outro lado da coisa. Como se educação fosse uma forma de demonstrar interesse e recusas específicas um jeito de mostrar sinais. Poupe minhas pálpebras insones, rapaz.

Histórias assim, descobertas em bilhetes amassados e sem sal, fazem com que a gente se mantenha alerta. Amores inventados são legais quando não envolvem pessoas que já estão envolvidas realmente com outras pessoas, que não querem cair em uma teia de invenção sem limites. Invenções podem machucar. Apesar de ser apaixonada pela espécie humana, tenho pavor de algumas atitudes desencadeadas por meus semelhantes. Podia ter vivido uma vida na rede, tranquila e sossegada, sem ter aberto este bilhete de insanidade. Bilhete que rasguei na mesma velocidade em que li. Não vale a pena guardar. De louca já basta a sonâmbula que grita – grito? – quase todas as noites. De loucura já basta a que tenho que enfrentar em corredores encerados todos os dias.

– Acorde, pequeno machista.

Depois do susto e da constatação de que não dá pra ter tanta certeza assim quando se trata de gente, fico tentando lembrar de algum amor platônico, alguma fantasia que inventei, um carrossel de alguma cor fria e feliz que criei para romantizar, mas não vejo nada. Nada.

Vejo o hoje, o palpável, o surpreendente. Vejo a sorte. Vejo até mesmo o destino. Vejo os meus sorrisos sinceros. Vejo a realidade.

Cara, nada supera uma realidade bonita.

Uma rede para chamar de minha

Uma rede para chamar de minha

27ª Madrugada

Incrível como as coisas vêm e voltam na mesma, ou talvez até em melhor, intensidade. Vem tristeza, vai saudade. Vem alegria, volta desespero. As coisas estão sempre rodeando a todos, como se pudessem moldar coisas novas, além daquelas a que já estão predestinadas – elas, todas as coisas.

Ao mesmo tempo em que a menina do quarto 3 chora e grita com os pais, que não devia estar aqui, que tem tentado lutar pra continuar, a menina do quarto 4 se preocupa se vai ter que levar guarda-chuva ou não: está tudo muito bonito pra ela. Mas não dá pra esquecer, que há menos de dois meses, ela estava gritando por dentro, que não devia estar lá, que estava tentando mesmo continuar. Fases.

Dessa fase de bonança, de adaptação, de “não consigo ir à cozinha, porque está sempre cheia de estranhos”, vão ficar, possivelmente, algumas das memórias mais marcantes da minha vida. Eu que sou a menina do quarto 4. A solidão e o desconhecido trabalham juntos para que novas coisas, sentimentos e rotas sejam descobertas, sentidas e traçadas.

Se ontem eu não sabia o que tinha na quadra acima da que estou agora, hoje já sei exatamente o que tem em volta de mim. Fico triste pelos gritos de choro da menina do quarto 3. Queria dizer pra ela, quem sabe colar um post-it na porta: hoje vem desespero, amanhã volta alegria.

A alegria, essa pequena semente que habita dentro do meu nome, está aqui. Que delícia sentir que mesmo só, mesmo longe, você pode ser (e talvez realmente ser) a pessoa que você é.

É muito consolador.

Hoje eu comi sozinha, enquanto me enchia de coragem pra cuidar direito de mim. E sozinha, ainda, é muito mais fácil identificar as coisas que você realmente gosta, ama, sente saudade, sente vontade…

E nessa de solidão enquanto todos bebem em um bar, tive a companhia de grandes homens que admiro. De Kubrick a George R.R. Martin. De John Frusciante (a melhor companhia no momento, diga-se de passagem) a Patrick Dempsey. Eles cuidaram de mim, se importaram, fizeram hora comigo e estiveram quase dispostos a me ouvir – se pudessem, acho que realmente o fariam. Ah, fariam!

“You don’t need anyone. Just hold on to the end and you don’t even have to look good…”

 

25ª Madrugada

Aquecida em uma madrugada fria, sinto-me de volta. Não ao ponto em que parti, porque não cheguei a ir, mas ao lugar em que deveria estar. Voltar me deixa contente, pois sempre sinto muito falta quando estou longe. Ou dos meus pensamentos mais internos – consequentemente intensos – ou de um cotidiano que me force a ser criativa e produzir o que fica preso no gargalo da imaginação.

Preciso sempre de uns puxões de orelha, doloridos, de preferência, pra me colocar no eixo do que é melhor pra mim. Não que eu esteja novamente solitária, ou novamente sem ter no que pensar emocionalmente. Pelo contrário. Nunca estive tão nutrida de sentimentos, os mais nobres possíveis. A alegria, assim, só pode ser duplicada.

Quando a gente baixa as expectativas é muito mais fácil conviver com a vida lá fora. Com a vida aqui dentro também. Toda possibilidade é grande e significativa demais pra que se trace todas. Não que eu tenha aprendido a esperar, mas desde que imaginei um futuro em branco, sem nuances ou cores premeditadas, esperadas ou necessárias, tem sido mais fácil respirar.

Às vezes é pensando menos que se sente mais. E nessa madrugada de tosse desmedida, está muito mais interessante ouvir os ruídos minúsculos lá fora do que imaginar “o que será que será”.

As madrugadas voltaram.

24ª Madrugada

O pesadelo matinal começou sufocante. Terminou tão bonito, que eu não pude acreditar. Acho que consegui controlar um sonho, afinal. Era como se eu não tolerasse mais aquele sofrimento, a angústia era tão chata, que foi muito mais simples sorrir. Eu estava ali, entre canaviais coloridos, com uma camisola dessas de avó e meus dentes se mostravam para o monstro. Diga adeus, fase ruim, estou indo embora de você.

Levá-lo ao aeroporto foi fácil. Difícil foi sair de lá sozinha. Chegar em casa, passar canais, constatar que não tinha mais cerveja e pimenta mexicana. Tive que jogar fora os últimos cinco marshmallows do saco, presentes dele. Um dia desses, espero, alguém vai me fornecer um ótimo argumento para esses meus ataques de alegria pervertida. Eu deveria estar triste, mas sentia aquela liberdade única, que nem sempre aparece. Vá para Barcelona, super affair, eu vou ficar por aqui me entupindo de referências que só o Richards pode me dar.

Lá pelas tantas, porém, um neurônio teimoso resolveu fazer zona, e os lapsos de solidão não programada me assolaram. Acho que é normal após despedidas. Acho que é muito óbvio após resoluções do tipo:

– Você vai? Então, fim.

Resolvi marcar um carteado em casa, mesmo que eu não estivesse disposta a jogar. Eu sequer estava disposta a estar. Mas senti que eu precisava encher a casa de pessoas queridas para amenizar a tristeza das paredes. Nós estivemos tateando todas, enquanto nos tateávamos, pela última vez, naquilo que se chama sexo bom. Muito bom. Oxalá.

– Você nem ficou triste do cara ir?

Olha, melhor amigo todo cinza e cheio de conselhos, não, eu não consegui ficar triste.

– É, eu sei bem o motivo.

Quando se existe essa coisa mal resolvida, essa coisa amarga, essa coisa que faz a gente molhar alguém na cama depois de andar chorando numa chuva…Quando existe isso: o que é tristeza? Ficamos todos com a dúvida no peito, os olhares uns nos outros para descobrir os blefes, as risadas explodindo o tempo todo em nossas consciências. Fomos felizes até às quatro e meia da manhã.

Eu, sozinha no quarto, recebi a mensagem de texto: Vou sentir sua falta. Na vitrola, Air. Aqui dentro, muito. Pra variar.

“Somewhere between waking and sleeping…down at the water’s edge. Somebody waits for me”.

23ª Madrugada

Calor. Por todos os poros, abertos, fechados, até mesmo os danificados. A necessidade de respirar livremente, sem pensamentos antigos quaisquer, aterrissou em meu ser. Podia chover. Podia nevar. Podia passar dois dias. Podia amanhecer primavera. Podia ventar dinheiro entre a escuridão. Eu precisava descer.

Na rua das pessoas carentes tudo estava lindo. Lindo no sentido mais feio da expressão. Era tanta beleza e pouca ação, que nada parecia estar no lugar. Uma desordem silenciosa, dentro da madrugada sem fim, eu, ali, doida para ser levada para longe, cheia de amor pelas folhas que voavam pelos meus cabelos. Nunca senti uma sensação de desapego tão grande. Era como se nada mais me pertencesse e eu beliscava a nuca, mordia os lábios. Eu não estava sonhando.

Sem precisar saber do tempo, continuei andando, sem rumo, mas certa de que estava chegando. Atravessei uns três bairros sem, praticamente, abrir os olhos. Pisando em um  chinelo velho, maior do que meu pé, herança de um pai que me ensinou a andar por entre trilhos, ao meio dia, sem queimar as solas. Eu só queria chegar.

Dobrei uma esquina e percebi que nunca tinha feito aquele trajeto. Mas eu estava ali. As luzes todas apagadas. As lembranças me apertavam com força. Eu tentei correr, mas fiquei estática, os sentimentos doíam, mas eu estava com um sorriso na cara. Uma droga de um sorriso na cara. Desses de denunciar apaixonados ou retardados.

Antes que eu piscasse senti as gotas elétricas. A chuva de verão caiu de repente, refrescou o  torpor que me corroia, me fez fechar os olhos bem forte, enxergar entre o escuro da alma o que me trouxera ali. Tateando a grande camisa xadrez que mal cobria minha cintura, percebi que trazia no bolso o meu enorme molho de chaves. Desde criança era assim: eu tinha acesso livre a todas as moradias de queridos. Não seria diferente com a casa amarelo raio de sol.

Com muito receio apalpei o cadeado. A chave dourada brilhava na mão, parecia nem receber os pingos da chuva. Com um clique enferrujado o portão abriu e eu tinha diante de mim todo um quintal, com nenhuma flor, nenhuma planta, muita saudade. A porta de entrada parecia me chamar. Mas não quis cometer esse delito. Eu iria pelos fundos.

As paredes agora tinham um desenho futurístico. Coisa de gente como nós – que evita crescer. Estava tudo limpo, com exceção de um canto cheio de latas vazias de cerveja. A porta dos fundos sempre apresentou resistência, mas dessa vez ela parecia estar aberta. Sem pensar, fui entrando pela dispensa, não acendi luz, era só percepção e no final do corredor, droga, ouvi dois passos. Com medo e a vontade de gritar resolvi ir mais longe.

Na ponta dos pés, prendendo a respiração, a blusa molhada quase correndo de mim, tamanha era a ousadia do ato, vi a luz do quarto dele acesa. Entre polícia e um empurrão porta de entrada afora, não pensei duas vezes. Que me algemem então! Corri todos os degraus em um cobiçado silêncio. Escorreguei quando cheguei à porta. Estava vazio. Passei os olhos pelas paredes – os mesmos quadros clássicos, a mesma prateleira com coisas legais – disputa nossa de quem conseguia soar mais interessante. Uma foto dele com a mãe e o irmão. Uma foto dele com dez anos. Uma foto dele com ela.

Quando a primeira lágrima ia cair dos meus olhos, já cintilando amargura, senti uma respiração atrás de mim. Se fosse fêmea,eu iria ter que me defender. Se fosse ele, talvez um desmaio repentino. Preferi não me mexer, até porque eu só conseguia enxergar a dama da noite, dentro de um vaso magnífico, mais bonito do que o que levei com a semente. Ela crescia ali, no antro de amor dele com outra. Mas era nossa.

– Como foi que você entrou?

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22ª Madrugada

Sono raso substituído por amargura profunda. O despertador perdeu toda a impertinência com o tombo – acidental só no Alabama – que levou. Não suporto mais o tic-tac. As horas passam em minutos sonolentos. O mundo dorme, os fracos sofrem. Eu sofro.

É engraçado como a inveja se manifesta de forma compensadora em cada um de nós. Sempre fui invejada por minha capacidade de esperar o sol nascer, na praia ou em qualquer lugar, em qualquer fuso horário, inclusive, enquanto todos os outros – pobres mortais – padeciam de um sono infinito e reclamavam no dia seguinte por perderem o espetáculo. Sempre me invejaram, no trabalho, por conseguir terminar prazos curtíssimos madrugadas afora, dias lotados de trabalho adentro. Eu nunca precisei do café.

Ao mesmo tempo, sempre invejei as pessoas que, cansadas, chegam em casa, tiram os sapatos, escovam os dentes, passam pelos canais malignos da TV aberta – ou os muitas vezes repetitivos da TV paga – e após nove minutos de resistência moral, fecham os olhos e se entregam à sublimação da alma em forma de sono. Dormem feito girassóis sem sol, descansam o corpo inteiro, respiram devagar, são felizes.

Nesse momento taciturno, daria o pote de sorvete de uva com creme que me conforta e todas essas roupas amontoadas no pufe, para conseguir dormir. Eu sei que meu amor pelas madrugadas vai além do poder de descobrimento pessoal que só esse horário permite. Aquela emoção de tocar cada poro do corpo em sintonia com os berros dos grilos pendurados na janela semi-aberta. Aquele sentimento de que se é o contrário das leis naturais.

Estranho. Bocejei forçosamente e fiz dois estralinhos com a língua. Minha percepção de mundo sorriu marota como se quisesse me enganar. Não sei de mais nada. Os meus dias são preenchidos com ocupações, belas amizades e noites eternizadas por suspiros múltiplos, sempre novos, nunca os mesmos. Repetições inéditas. Os paradoxos me preenchem. No buraco vazio dos momentos de solidão: sai saudade. E da vontade: sai meu grito de chamada.

Ele pode ter dormido na cozinha, enquanto derretia chocolate para colocar nos marshmallows que comprou pra mim. Sinto o seu cheiro na fronha grossa e lilás, que minha meninice não ousa se desfazer. Sinto carinho por ele. Que agora ronca mansinho, enquanto engordo, acordada, mais um pouco de delícia.

21ª Madrugada

Cheiro de imensidão. Os olhos castanhos, novos, de uma excentricidade renovadora pesando sobre os meus. Aquela sensação de que o ontem havia sido épico e o que o amanhã poderia ser único. Um carinho. Um abraço em meia lua. Um beijo no canto da boca. Gosto de quero mais. Todas as sentimentalidades baratas, mundanas e desejadas por adolescentes cheias de cartas em rolo de papel, todo esse temporal de emoções passam por mim, pela testa, entre os seios, entram pelo umbigo e descem, sem escada nem elevador, até chegar aos dedos dos pés. Ele se despede.

Me espreguiço, ainda é cedo, apenas 9h de uma quarta-feira meio nublada, meio chuvosa, vejo um risco de sol, nem faz cócegas. Coloco a primeira roupa que encontro, um pouco amassada, mas meu corpo não liga, sequer deseja se vestir. Está embriagado. O vizinho quase me atropela ao sair do prédio, desce do carro para se desculpar, olho pra ele, aqueles olhos verdes cheios de culpa e eu sorrio e digo: manda a cesta de natal no 404. Tudo parece lindo.

Comprei cinco fardos da melhor cerveja do mundo para entrar na quinta-feira na ponta dos pés. Não vou tomar tudo isso sozinha. Planejo um belo jantar, simples e contemporâneo, um convite para dois amigos – a melhor e o pior – e uma presença inusitada madrugada afora. Isso não é coisa que se planeje, estou ciente, mas é o que tem acontecido nos últimos dias quando as estrelas começam a ficar com sono. Elas cochilam, enquanto eu acordo para as melhores vibrações. A campainha toca.

O tempo é ligeiro, mas camarada. As coisas boas passam, mas se intensificam. As ruins logo se perdem, não sobra espaço pra mais nada quando se está cheia de paz. Quando os cílios quase se quebram por causa de um sorriso que as pálpebras acompanham. Quando a música invade os ouvidos e faz delirar. Quando duas horas de sono viram uma hora e meia de sonhos em que uma nuvem gigante carrega o seu corpo cheio de ar para a infinitude. Quando o céu fica cinza amarelo azul verde claro médio escuro normal  e te coloca numa cena de Godard. Você dança, dança, dança…

20ª Madrugada

E lá estive. Repleta da decência que os meses vêm trazendo. Pouco a pouco, um a um, empato a formalidade com a indiferença e sigo em frente. Quem me conhece sabe que, além de cheia de respostas, não sei viver com dúvidas. Tive, porém, uma madrugada interrogativa do tipo massacrante, que me fez mais do que pensar: me fez responder.

Sai mais cedo do que de costume da festa. Encontrei meu irmão e a ex-mulher num barzinho old-cool-não-vamos-mais-pra-school. Os dois estavam tão faceiros que me contagiaram. Nem percebi quando fui incumbida de ver como o Arthur estava, pois não confiavam na babá. Parece filme americano, mas é minha vida. Fui pra lá uma e meia da madrugada.

1) Tia, você não vai casar?

– Você acha que eu devo me casar?

– Eu gostava do seu namorido.

– Namorado.

– Namorido. Ele me disse que era namorido seu.

– Tá. Ele foi pro céu.

– Ele morreu?

– Não, mas ele se afastou da tia.

– Se eu me afastar de você, eu vou pro céu?

– Vai, mas aqui com a tia é mais divertido.

Tive que ligar Playstation 3, jogo de skate, pra parar. O saldo foi positivo, porque agora estou louca atrás de um skate. Quando meu irmão chegou, meia hora depois, eu ainda não tinha sono e precisava me alcoolizar- não é todo dia que uma criança diz tanta coisa cheia de karma, significação e terror.

2) Moça, me responde rapidinho: você é aquela cantora?

– Que cantora?

– Aquela da bocheca de maçã…

– ?

– Não lembro o nome, mas parece. Posso te perguntar uma coisa?

– Não.

Gente insistente me cansa.

3) Alô. Você tá em casa?

– Na verdade, não.

– Onde você tá?

– Resolvi dar uma volta.

– Posso te encontrar?

– Vai pra minha casa.

Parece promiscuidade, mas é a minha vida.

4) Alô. Filha?

TUC, TUC, TUC.

Parece descaso, mas é a minha vida.

5) Por que você não atende os meus telefonemas?

– Porque eu não gosto de você.

– E quem disse que eu gosto de você?

– Você.

Parece um desamor, mas é a minha vida, cheia deles.

6) Eu gostei, hein. Você gostou?

– Não sei, vou ter que sentir mais um pouquinho.

Não me façam mais perguntas. Estou dormindo. E a minha vida segue estrela cadente, cheia de brilho e pedidos, até a infinitude.

19ª Madrugada

Tive três sonhos curtos, consecutivos, em intervalos que intercalavam sono profundo com acordar assustado. No primeiro deles, eu estava em uma ilha, aparentemente deserta, colhi dois cachos de uvas, bem doces, quase aveludadas. De repente, vi uma criança nadando contra uma micro corrente que se formou nas águas transparentes do mar. Tentei correr para ajudá-la, mas não consegui sair do lugar. Meus pés, cheios de areia, estavam presos e tudo o que eu podia fazer era continuar comendo uvas. Cega por um raio solar, bem no meio da retina, acordei.

Assim que Orfeu chegou de novo – e essa expressão “cair nos braços de Orfeu” é uma das mais bonitas que o teatro já nos deu de presente – comecei a sonhar de novo. Dessa vez eu era narradora observadora de um casal de senhores. Dois homens, mãos dadas, caminhavam rindo ali perto da padaria do seu Antônio, e me desculpe se você não sabe de quem estou falando (o seu Antônio sequer existe, estava num sonho). De repente, o mais novo, lá pelos 74 anos, soltou as mãos e começou a correr. O mais velho, lindinho com cachecol xadrez e all-star marinho, uns 79 aninhos, gritou: não! Aterrorizada pelo grito, acordei.

Duas reviradas pela cama, uma ajeitada de travesseiro no cangote, novo sonho. Voltei a dar as  caras, num vestidinho estampado marcado demais – puta figurinista ruim, hein – e estava no fundo de uma casa imensa. Lá tinha um pé de jaca, com todo aquele cheiro de nojo, uma piscina bem suja e muitas pessoas. Identifiquei alguns amigos, que por algum motivo não eram meus amigos, pois não conversavam comigo. Identifiquei uma menina sem rosto, que me dizia oi e contava todos os podres de uma outra menina sem rosto. De repente, avistei no pé da jaqueira, um casal sentado, a menina entre as pernas do menino. Dois amantes completamente desconhecidos. Achei tão lindo, que sorri com uma boca enorme, achei uma cerveja no chão e fui saindo da casa.

Acordei há cinco minutos, com uma mão na fechadura da porta de entrada. Estava saindo de casa. Camisetona, meias de dedinho e os olhos cheios de cansaço. Pra chegar a andar dormindo preciso estar exausta. E assim tenho estado. Uma exaustão física, que apenas shows alucinantes de puro e bem feito rock’n’roll podem explicar. Uma exaustão mental, que apenas um acúmulo de coisas para resolver no trabalho pode causar. Uma exaustão emocional, que apenas um ser humano inconstante e megalomaníaco poderia provocar.

Agora que não estou sonhando, tudo parece mais fácil. Não tem nenhuma criança se afogando, a não ser a que vive em mim, dia após dia e me faz crescer. Não tem velhinhos se separando com a morte, a não ser as perspectivas de amor puro, livre e duradouro, que caem por terra a cada novo envolvimento. Não estou em nenhuma dessas festas alucinantes, em que tudo o que me sobra são cervejas e a vontade de ir embora sozinha. Não preciso mais sofrer.

Está tudo tão bonito. O céu estrelado lá fora parece infinito. O meu amor por mim cresceu tremendo feito um vulcão de felicidade que se instalou em meu ser. Sinto a lava preenchendo minhas vértebras, sinto a paz queimando minhas neuras. E vou dormir, agora, sentindo todas as dores boas do mundo.

 

18ª Madrugada

E já dizia meu pai: para esquecer é preciso parar de pensar a respeito, ocupar a cabeça, desanuviar. Lembrei daquela dos hermanos: não te dizer o que eu penso, já é pensar em dizer. Mas percebi, mais uma vez, que é deixando de falar que se supera. Alguns maus seis meses depois, chegou a hora. Acabou.

Evitei durante muito tempo pensar sobre o que eu fiz. Sempre coloquei a culpa de meu sofrimento e momentos de solidão não desejada nele. Ele era o insensível, que me deixou jogada às traças e às perspectivas alcoólicas. Ele que desligava o telefone na minha cara. Ele que era o vilão da história. Não. Assumo minha culpa. Sem saber do meu sentimento – e talvez do dele – consegui falar coisas irreais para feri-lo e…essa é difícil: trair. Sua confiança, suas expectativas, seu compromisso comigo.

Era um dia de calor, eu tinha bebido too much tequila, cerveja e uma certa solução misteriosa, corri meia cidade para chegar a uma das festas mais lotadas em que já estive. Não lembro de quase nada, apenas do fim, em que ele já havia decidido não falar mais comigo, sequer olhar em minha cara. Foi bondoso e me abrigou aquela noite. Não sei como. Nem tenho mais o que dizer. Depois disso, tudo ficou cinza, os dias alegres acabaram, evitava as ligações, resolveu sumir.

Mudou as roupas, o cabelo, desapareceu. Mudou os lugares que eu continuei e continuo frequentando, mudou o jeito de falar com as pessoas. Mudou. Descobri por esses dias que aumentou o cigarro, começou a andar com mulheres estranhas, sem muito futuro. Imagino que tenha canalizado as ligações, extremamente frequentes, para outra pessoa. Assim como as cervejas, os planos para um futuro bom, as histórias de velhinho pra boi não dormir. Ah, vou sentir ainda mais sua falta depois disso.

Ainda hoje, logo pela manhã, lembrei de nosso último dia juntos. De como segurou minha mão, meio que medindo o tamanho de um sentimento, vendo se tinha cola – e eu soltei as mãos, pois não era dada a demonstrações públicas de afeto; tinha medo. Ele mexeu na flor vermelha que estava no meu cabelo e fiquei brava, tentei arrumar e perguntei se estava certa. Ele não soube responder, mas disse: está bonita assim.

Não posso mais lembrar dele agora. Nem falar, nem esperar, nem desejar. Vai ser triste no começo e difícil até o fim. E, sabe, lá no íntimo, no fundinho da alma vou desejar, para daqui uns cinco anos a gente se encontrar. Pra casar numa feira, comer frango no domingo e levar os cachorros pra passear.

Mas vou esquecê-lo, por agora.

FIM.

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