Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “março, 2011”

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Hoje acordei meio Elizabeth Wurtzel. Sem nem perceber.

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Sobre substituição.

E, de repente, mágica. Eu não lembro mais dele quando escuto Doors. Eu não sinto o cheiro do cachorro quente do meu padrinho quando olho para uma couve. Agora, tenho medo de andar sozinha na rua, de madrugada, e não mais dos terroristas que invadem minhas noites de sono. Simples como entender um quadro de Dalí: a substituição está entre nós. Ou somente em mim.

Talvez tudo tenha começado com a mudança de quarto. Ir para um menor, sem aquela cortina branca me envolvendo pela manhã, quando eu acordava morta de sono e ia contar os passarinhos do jardim pela janela. Me acostumar com a cama em forma de sofá, escolha minha, mas que exige uma posição específica para dormir. E que pode ser apertada para acontecimentos maiores. Mas eu substitui. Não sei mais dormir na outra cama, que parece ainda menor do que a nova, infantil. Pequena, sabe?

No hall das substituições, troquei o uso demasiado de Tabasco por mostarda escura. Continuo amando a pimentinha, mas não sei fazer um molho qualquer sem usar a bendita – e deliciosa – mostarda escura. E Tabasco é uma coisa para ser apreciada no sofá da casa do meu pai. Aqui, eu preciso sentar como índia, com um copo de geometria curiosa cheio de suco de abacaxi e bolachas de canela. Quase não como mais pipoca. Meus dias de gordices são invadidos por pastéizinhos variados.

Mas a melhor das substituições, a que me fez divagar o suficiente para fazer esse registro, é musical. Foi ouvir “So real”, do amado Jeff Buckley, e pensar em outra pessoa. O segredo me consumirá para sempre, mas foi uma sensação de alívio-frio na barriga-realidade aumentada.

Talvez tenha sido uma cura. Ou pura liberdade de sentimento artístico. Mas foi lindo. Natural e marcante. Como aquela tarde em que desamarrei os cadarços do roller para subir descalça em um skate.

Nesse dia eu cresci uma década, troquei a bala de iogurte pelos chicletes ardidos, o suco de acerola pela cerveja gelada, as brincadeiras inocentes por um beijo na boca.

 

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Hoje eu acordei meio Emily Friehl. “Quando eu começo a gostar de você, você vai embora”.

A tradição.

Todos os anos elas se ajeitavam em peles desejadas, com alguma pintura, um pouco daquela infantilidade necessária para restaurar as vértebras e pedir um novo ano melhor. Era uma tradição recente, mas levada tão a sério quanto as apresentações em guache e machê da aula de artes. As melhores amigas de infância e aquela efervescência de gostos, cabelos, bochechas e cores de esmalte…tão diferentes, tão parecidas, tão únicas.

Por obra de um destino desnorteador romperam um laço. Uma delas não desejará ver as demais por um bom tempo, pois sabe que os ouvidos vão arder com as reclamações – por favor, necessárias – da maldade que fez a mágoa arder no círculo inquebrável. Outra delas decidiu viver de amor. Abraçou o que mais desejava naquele feriado prolongado e fez o amor. Não deveria ser diferente, afinal, que grande dádiva essa de poder escolher e poder, simples e calmamente, ter amor. Ali. À disposição.

Aquela que tem um dos futuros mais cobiçados, de correr mundo afora, sem demora, estava atrás do que precisava para ser feliz. Todo o apoio dos nossos corações e também dos outros seres humanos dessa galáxia. Tão bonita dentro de seus sonhos, com uma dedicação insuperável e aqueles olhos verdes. Tem aquela outra que poderia ter sorrido mais, por ter dentes tão bonitos, mas preferiu a solidão. Solidão que pode ser linda quando bem apreciada, ou fazer sofrer quando pouco imaculada. Mas dentro da menina dos olhos artísticos, de tudo aquilo que só ela sabe sentir, com certeza algo mudou. Mesmo quando as lágrimas não se seguram em um rosto, quando ele é sincero, verdadeiro, feminino feito pérola, o choro clama pela felicidade próxima. Ela vem, não precisa se preocupar.

Para aquela que buscou liberdade espiritual, mandaram um céu colorido, com gotas de chuva que não a incomodavam além do frio-calor que só acentuava a contradição ambulante que é. Viu seu interior, com olhos externos, sem censura. Viu o exterior com os olhos da alma, que parecia leve feito o pêlo de sua cachorra. Quis viver em outro planeta pelo resto de seus dias. Quis que os dias fossem maiores, sem marcação de tempo ou itinerários. Quis que as responsabilidades se resumissem a acordar, saudar o sol, amar os outros e ser feliz. Quis ser a Alegria que a vida lhe manda ser. De tanto querer, conseguiu. Vai precisar de um pouco mais do que atritos vazios para que ela pense em coisas ruins por mais de três minutos.

Elas estiveram em caminhos diferentes, quando juntas deveriam estar. Talvez isso represente, cedo demais, não se sabe, o futuro que a elas pertence. Provavelmente desejariam viver todos os seus carnavais unidas, repletas da amizade que nunca é demais. Mas a vida veio e mostrou, em cinco dias, que tradição é pouco, quando se existe um caminho cheio de escolhas, atalhos, curvas e pedrinhas de rubi espalhadas sob os pés de quem está aqui.

Mas se amam.

Eu as amo. Melhor dizer por mim.

As cinco meninas.

 

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Hoje acordei meio aventureira.

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