Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “março, 2010”

A morte de Anira – Parte 6

Ele foi encarregado de ligar para todas as pessoas. Com o celular de Anira nas mãos, Ricardo deu a última péssima notícia do dia. A Zélia, vizinha costureira, fora avisada. Na beira do caixão, os pais choravam. A avó tinha passado mal, estava tomando água com açúcar na cozinha. Ele viu quando Bianca caiu, correu para ajudá-la minutos depois. Deixou que ela sentisse aquele momento. Deixou todos sentirem.

Encostado na porta, cumprimentava os convidados. Ele tinha falado com 80% das pessoas que passaram lá. Reparou na dor e no respeito de todos. De repente, parou nela. Fixou os olhos grandes e redondos para observá-la. Sabia que não ia durar muito. Logo iriam levá-la para a terra, para o nunca mais. Reparou em suas mãos, no anel velho de guerra. Presente seu. Os cabelos estavam bonitos, macios ainda, a pele arranhada, mais pálida que o comum, mas linda.

Ah, como ele gostava dela. Ricardo e Anira eram como unha e carne, só se soltavam quando Bianca precisava desabafar, ou Guilherme precisava beijar. Mas estavam ali, num companheirismo raro, coisa linda de viver. Ele não conseguia chorar. Mas não sorria também. Pegou o mp4 no carro, acendeu um cigarro, fumou um maço inteiro e voltou.

Chegou pertinho do corpo, daquilo que restava dela. Tirou o tule , afastou os cabelos, colocou um fone em cada orelha. E chorou. Com a falta de reação, com o olhar que não havia, cadê seu sorriso, Anira? Ela não resistia a Led. Muitas lágrimas molharam o rosto da amiga, enquanto ele se questionava se era só aquilo mesmo. Se tanto amor se resumia em amizade. O que fosse…Ela não estaria mais ali.

Foi a primeira pessoa a ter de ser retirada de perto de Anira. Ele estava conversando com ela, dizendo que não a abandonaria e que a visitaria sempre. Mas não é muito correto colocar uma música no último volume em um velório. Ninguém vê com bons olhos, mesmo que Anira visse.

– Eu não sei como vou viver sem ela, mãe. Eu não sei. Eu não quero, eu não quero.

Ricardo pegou a tristeza e jogou na cara de todos. Pois sua Anira estava ali, mas não estava.

7ª Madrugada

Chuva. Por todos os lados. Um vazio de almofadas no sofá. Um buraco no tapete do banheiro. Os cachorros não latem. O gato da vizinha não mia. Me sinto só. Como talvez nunca tenha me sentido. Uma solidão ardida, berrante, silenciosa. Olho o relógio retrô na parede. Tic. Tac. Nada.

Sobre ser só, não sei ser. Sempre estive rodeada de gente. Pessoas inteligentes, bonitas, feias, estúpidas, grosseiras, altas, baixas, ponderadas, generosas, conservadoras, ridículas. Gente. Humanos, em geral. Eu tinha um cachorro lindo. Branco, com pintas marrons. Se foi também.

Eu sempre tive aquela coisa de ‘necessária solidão’. Dizem que é do signo, mas não sei não. Por mais amada que eu me sentisse, ou por mais amor que eu nutrisse, eu precisava, de tempos em tempos, estar sozinha, com meus pecados, minhas reservas. Comigo. E só.

Não consigo descobrir se abusei da sorte. Se me fiz distante demais, se fiz todo mundo de menos. Não sei. Agora estou aqui, num apartamento em L, com o sofá caro que escolhi, olhando os quadros caros que comprei, o vaso vazio, das flores caras que não recebi. A inexistência dos livros caros que ele levou…

A dor de não dar certo já passou. Agora tenho que pensar em como resistir. Acho que vou trocar tudo o que tem capa, colocar discos na estante, tirar o pó, o que for preciso. Hoje recebi três convites pra sair. Não fui capaz de aceitar nenhum. Não eram dele. Nem pra mim.

Estou tão só, que não existo.

11

Cortar. Diminuir. Mudar.

Renovar seria a palavra.

Com as fotos velhas esparramadas pelos olhos não é difícil concluir. Eu sei o que mudo em mim quando algo não vai bem.

Os cabelos.

Estrago mesmo. Fecho os olhos e entrego a tesoura para uma cabeleireira barata ou a melhor amiga. Sem medo. Só quero me livrar.

Daquilo que vivi com eles.

Nem sempre tem alguém envolvido. Às vezes sou eu, contra o mundo, contra o que não faz bem. Às vezes são eles, que me causaram algum desconforto, ou me sabotaram com frases de impacto.

Cabelo cresce. As pessoas vão e vêm.

Mudar, no fundo, revigora, dá forças. Limita um pouco a tristeza que gosta de invadir. Faz com que você sinta na pele, ou no couro cabeludo, que a vida gira mesmo, o tempo corre mesmo. Você consegue passar por isso. Mesmo.

Mas e se você ficar careca, Letícia?

E se a vida te trapacear tanto a esse ponto?

Aí, vou saber que vivi coisas suficientes para umas três décadas, ou um folhetim desses medíocres, uma biografia amaldiçoada, talvez. Mas duvido. Ele pode ficar curto, quase no talo, mas sempre vai dar tempo de crescer um pouco.

Porque as coisas, realmente, passam.

A cada novo corte, sem nem mesmo reparar, entro em uma de que não vai passar. Como se eu me esquecesse de que não vai durar um ano o drama todo. E pra começo – final – de conversa, cabelo cortado traz leveza, que traz confiança, que traz esperança, que traz o novo drama.

Deve ser um ciclo maluco qualquer.

Fazem algumas boas semanas que olho no espelho e constato o que é nítido: preciso cortar os cabelos. Além de não ter grana para um salão caro, quero poupar minha melhor amiga. Mas acho que lá dentro, lá no fundinho, não quero cortá-los ainda.

Não quero assinar a sentença.

Quando eu cortar meu cabelo vou encerrar mais uma fase desse ciclo de perturbações. É, não sou normal a ponto de cortar porque já passaram seis meses. Ou um ano. Não sou convencional quando se fala de estética. Porque a associo sempre ao meu coração.

Ou à razão.

Estou com medo de cortar os cabelos e ter que assentir que algo acabou. Eu vou cortar, mas dessa vez não será com aquela vontade de erguer a cabeça e seguir em frente.

Vai ser por falta de opção.

A porta verde e suas histórias…

Dois dedos de sobriedade.

– Não gostei. Acho que A língua que não fala seria mais adequado.

– Vou fazer de novo.

Não! O loirinho estava exasperado. Não conseguia achar um nome para sua obra. E aquelas duas estavam a ponto de enlouquecer o novo artista. Vitória sempre soube que ele tinha arte nas veias. Pelo jeito de olhar pro seu rosto, como um medidor de formas. Pelo modo de tocar suas costas, como um texturizador de pele. Pelo modo de andar, como alguém que tem muito guardado dentro de si.

– Você não pode refazer um quadro. Ele já saiu.

– O título é secundário. Assim como a opinião da Penelope.

Era a morena, dona da casa, falando da morena, vizinha de porta amarela. Penelope era um furação. Parecia musa de algum cineasta. Mas algum alternativo o bastante para sombrear aqueles olhos grandes, doidos, doídos, possuidores. Ela tinha acesso diário à casa de Vitória, porque certo dia salvou o gato da vizinha de se afogar numa caixa d’água. Felipe, ou loirinho, nunca vibrou tanto com algo. Ela era heróina. Dava um pau em qualquer Tieta.

Ela riu do comentário, no minímo, maldoso.

– Felipe, meu lindo, faça como quiser. Eu vejo uma vontade imensa de gritar nesse quadro. E um silêncio forçado pelas contigências. Você decide. Só você, meu lindo.

Penelope era natural demais. Andava bonito e sorria quando dizia “lindo”. Falava aquilo pra qualquer pessoa, sem parecer vulgar ou forçada. Vitória, por sinal, reconhecia todas as qualidades da vizinha. Mas era ariana e não gostava daquela competição direta com o objeto de cobiça. Ela viu primeiro, era dela. Mal sabia que Penelope não tinha pretensão alguma de fisgar o loirinho-talento-mor. Pelo menos até aquele momento.

– Claro que ele vai fazer o que bem entender, Penelope. Mas está na cara que a energia do quadro é de recuperação. Ele tapa a boca com os dedos e não bebe mais. Fica nítido com a posição das garrafas…

– Gente, chega!

O loirinho não era de se exaltar. Era tímido de se esconder sozinho em casa. Mais difícil do que pintar aquela ou qualquer outra tela era ter que se relacionar, se envolver e se desligar daquelas duas mulheres. Vitória era sua inspiração. Amava aquela independência e como ela valorizava suas ideias, sustentava seu vício por sexo e cigarro sem nunca cobrar nada. Ele era apaixonado por ela, não tinha dúvidas. Mas Penelope…aquele trançar de pernas, aqueles olhos tão completos, com uma introspecção que parecia original demais pra ser real.

Não sei. É esse o nome do quadro.

As mulheres da vida do loirinho se olharam. Gargalhadas genuínas a seguir. Cigarros.

– Deixem os críticos se matarem para descobrir porquê.

Ele lavou as mãos, pegou o cigarro da boca de Penelope e foi beijar a nuca de Vitória.

Continua…

#

Hoje eu acordei, vou dormir e acordar novamente, meio Mary Wilke. Sem o drama, só com a estima.

10

Engraçado.

É tudo ficção.

E o que não é

invento.

Presunção comigo é besteira.

Porque me escondo.

E disso

faço questão.

Me chame de covarde,

de esperta, de velhaca,

do que quiser.

Mas a certeza absoluta,

a que eu não sei

e a que acho que tenho,

eu não posso dar.

6ª Madrugada

Acordei de um devaneio. Exausta. Ofegante. Lotada. Não quero mais. Pesei mais contras do que prós. Senti mais raiva do que alegria. Cansei. De ter que fingir, de ter que sorrir, de ter que entender o que não é compreensível. No meu sonho acordado éramos duas pessoas que buscavam as mesmas coisas. Sossego, conforto, carinho, prazer, ombro, sorriso. Quando abri os olhos: puf. Sem magia. Só solidão.

Não digo que não foi bom enquanto durou. Sempre é, senão jamais teria durado. Mas quando acaba dá uma vontade de excluir tudo, deletar as lembranças, queimar os presentes, rasgar os post its. Pisar. Na cara, nas roupas, na estima, no orgulho, na dignidade.Ferir. Bater na cara, puxar os cabelos, arranhar as costas, socar o nariz, chutar o baço. Esquecer.

A pior coisa é ter que sentir a pessoa no ar. Na fila do banco, o mesmo perfume. No trabalho, a mesma gravata. No almoço com a família, a mesma cerveja. No avião, o mesmo livro. No vizinho, a mesma cara de pau. No quarto, o mesmo travesseiro. A pessoa fica em você, quando tudo o que você quer é que ela morra escalpelada e que, sem opções, arda no fogo do inferno.

E daqueles estágios ainda estou no primeiro: negação. Nego o que me perguntar. Nego que gosto, que gostei, que sinto falta, que consigo ficar sem, que por mim tanto faz, tanto fez. Quando acaba, acaba. Quero que ele seja feliz. Mas quero que eu seja muito mais feliz do que ele. Porque mereço. Por sorte não chegamos até a entrega dos convites. Casamentos que acabam de última hora estão em baixa, é brega, eca.

Fiquei com o apartamento e com a cara da coragem. Quem me vê nem imagina. A minha fila andou e espero, profundamente, que não se encontre com a dele daqui dez anos, como a vida ameaça que vai acontecer.

A morte de Anira – Parte 5

Todas as partes

Ela estava inconsolável. Não teve tempo para lavar o cabelo, nem para se maquiar. No fundo, estava tão chocada, que a ficha ainda não havia caído. Sentada no chão, do lado de fora da capela funerária, Bianca chorava. Ela era canceriana e, por natureza, lavava o rosto com lágrimas salgadas sempre que possível. Mas naquele momento, tudo estava tão dolorido, que era como se tivessem atirado em seu peito. Sua melhor amiga morreu.

Elas se conheceram no auge dos 11 anos. Com geladinhos de leite condensado e pedaços de chocolate nas mãos, trocaram os primeiros diálogos animados de uma vida mais divertida impossível. Eram muito próximas, sabiam tudo uma da outra, eram confundidas como irmãs, mesmo uma sendo loura e a outra morena.  Pareciam até mesmo um casal. Com suas brigas, ciúmes e crises. Como todo bom e velho relacionamento.

Bianca chorava por saber que não conversaria mais com Anira. O telefone não iria tocar para lhe aborrecer, com um convite maluco para qualquer lugar maluco da cidade. Ela não teria mais com quem assistir filme, ou partilhar as desaventuras de morar tão longe de todos. Não iria mais ter alguém pra cuidar sempre, insultar com carinho, compartilhar o dia a dia. Ela não ia poder contar sobre o novo amor, o novo emprego, o futuro.

Ela não tinha coragem de chegar perto do caixão. Sabia que não ia ver qualquer careta na cara da amiga. Sabia que ia ter naúseas com as flores que a cobriam. Sabia que ela iria querer morrer se soubesse que aquelas não eram as flores que ela queria. Sabia que ali estava um pedaço de si. E desejou sumir do mapa também. Desaparecer. Mas não podia. Alguém ia ter que consolar a mãe, ajudar Guilherme a chegar perto do caixão, encaixotar as roupas de Anira.

Ela demorou umas 15 horas para se aproximar da seriedade sem fim que cobria a melhor amiga. Quando chegou perto, caiu de joelhos, não sabia como levantar. Nas mãos um bilhete:

“Quando eu voltar de lá nós vamos fazer as pazes, Bi”.

E foi dor, muita dor, remorso, muito remorso. E uma vontade incontrolável de espancar a vida.

Do Vitor.

Não é todo dia que alguém me faz chorar. Mas ele é campeão em despertar sentimentos em mim:

Para Letícia

Ela me escolheu entre tantos outros

Apontou o seu dedo e me nomeou

Elegeu-me o companheiro pra vida inteira

E com todo amor,apesar das brigas e das distancias

Estamos juntos.

Lembro das tardes brincando na Uveira

Nosso pão de queijo e o carnaval de panos

E os eternos anos de castigo,que duravam apenas dois dias

Nossa vontade de se ver era tanta,enchíamos a piscina,

Você com sua tanga,eu com minha mochila.

Você tirou sangue de mim,eu, um sorriso de você

A única que me fez ver,que colocou um trilho sob meus pés

Ensinando os caminhos da vida

Que tanto preciso aprender.

Estamos tão distantes…há menos de 1 quilometro

Me bate uma saudade,um nó na garganta

Meu olhar se perde por um instante,mas sei que estamos juntos.

Preciso do teu gosto de morango, com cobertura de chocolate

E se me bate essa saudade, é porque te amo!

Para minha LÊ, com amor,Vitor

Obs: não sou poeta,não sei escrever certo,mas isso foi o que me veio na cabeça, as duas da manha, quando acordei pensando em vc!

Obs 2: Uveira, é o pé de uva,não sei se ta certo..te amo“.

Nem sei se mereço. Mas como o amo incondicionalmente, estamos quites!

Bisa.

Ela dá um livro. De borda bem larga, com fios dourados, capa dura de veludo, letras garrafais com seu nome: Maria. Ela viveu muito – nove décadas e seis anos – e tem tudo registrado na pele, na cabeça branca, mais sã impossível. Eu gosto tanto de passar as mãos em seus cabelos lisos, que ficaria horas fazendo isso e ouvindo. Seus causos, seus conselhos, seus problemas, suas incríveis soluções. Das muitas pessoas queridas em minha vida, tenho um medo enorme de perdê-la. Já pensei várias vezes em como seria mais cômodo partir antes dela, pra não ter que me aproximar de suas mãos confortáveis e enrugadinhas e senti-las sem vida. Mas aí, resolvo deixar pra vida decidir o que é melhor pra nós duas. Porque sei que nos amamos. Sofreríamos em pé de igualdade. Mas pra que pensar em sofrer, não é mesmo? Talvez seja a idade e o tempo tão macabro, talvez seja a vida que arrasta nossos corpos, talvez seja o medo de se sentir menos amada… Minha bisavó tem dez filhos, muitos netos, muitos bisnetos e um tataraneto. Tem um filho especial, que carrega no colo e no coração há mais anos do que o Jornal Nacional existe. Tem um segredo comigo, que é tão bonito e me emociona, que eu escreveria detalhadamente, se não fosse secreto. E se não fosse deixar uma família inteira enciumada. Ela tem olhos azuis, braços que “não tem pelanca”, muitas amigas e algumas das flores mais lindas do mundo. Me orgulho de algumas coisas na vida, e uma delas é a de conhecê-la e ter essa relação tão estreita com ela. Pergunte a quem for: ninguém conseguiu tirar uma foto dela sorrindo assim. Só eu. Pra ela eu dedicaria um livro, cantaria um disco, produziria um filme, andaria até o Panamá. Te amo, Bisa.

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