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Situações: o primeiro beijo

Situation number three – третье место – Pozycji numer trzy

28/12/02

Primeiro chiclete. Depois um gosto de corpo humano. Sede. Cabelos pretos, encaracolados, praianos. Mais sede.

Melissa havia debutado há pouco. Os pais, separados, fizeram uma bela festa de 15 anos, naquele jeitão caipira-chique. Ela se recusou a usar o vestido-bolo, mas exigiu lembrancinhas cor-de-rosa para todos os 140 convidados. Para continuar a comemoração, foi pra Ilha do Mel com um grupo de amigos. O pai era tão liberal, que além de comprar os cigarros de Melissa, estocou em sua bagagem um arsenal de camisinhas.

Precoce em quase tudo, Melissa ainda não tinha experimentado um beijo. Morria de curiosidade e após gostar do Vinicius aos 10 anos e do Alex aos 13, não nutria muitas expectativas de que o feito pudesse ocorrer um dia. Estava, então, largada em toda sua adolescência transviada, de biquíni branco e rosa chá, de bruços em cima da canga da Moranguinho, fones de ouvido, lata de cerveja esquentando ao sol, Oliver Twist entre os dedos inquietos. Nabocov a teria comido, sem cerimônias.

Lucas tinha a maioridade no RG, no meio das pernas e em cada fio do cabelo desgrenhado que mamãe lho deu. Bermudão listrado, relicário e uma tatuagem na costela esquerda. Sentou do lado da lolita Melissa, que cheirava Sundown e nicotina, e começou a perguntar sobre o livro. Não percebeu que a garota estava com fones de ouvido, que lhe davam Pearl Jam no talo, e que jamais se atentaria ao papo furado.

Pediu para deitar ao seu lado. Disse que quem cala consente. Achou uma brecha no tecido e entrou de ponta cabeça no raio de visão da menina. Ela começou a tremer com a proximidade, desligou a música, quis gritar. Mas só conseguia olhar nos olhos do colírio que não era famoso – hoje, Lucas é elenco de um programa humorístico meia boca, num canal fechado – e desejar, intensamente, que existisse mais vida em sua vida juvenil.

Ele disse oi. Ela respondeu. Ele disse linda. Ela agradeceu. Ele disse bom? Ela assentiu. Ele disse posso? Ela fechou os olhos. Ele agarrou seus cabelos virgens como todo o resto, de leve, foi puxando, devagarzinho, seu rosto em direção ao dele. Foi o primeiro beijo mais estranho do planeta. Do avesso. Meio salgado. Ele quis bis. Ela questionou se lá seria o mesmo gosto. Ele sorriu. Ela questionou o porquê.

– Você é bonita demais para ler histórias de órfãos na praia.

Situações: alguém saiu de casa.

Situation number two – Ситуация номер два – Deux nombres situation

13/04/00

Stop. No papel eram dez itens. Seja rápida, seja rápida. Mãe e filha brincavam. Alerta. Qual é o nome da fruta? Goiaba. Pai e filha brincavam.

Era um sábado ensolarado, não muito quente, tinha uma brisa, Melissa cantava. Sentada no quarto, selecionado um vestido – lilás, algodão rodado, estilo camponesinha nórdica (é branca) – passava os últimos minutos de espera cantando. Na sala, três portas e uma copa adiante no corredor cheio de espelhos e quadrados, sua mãe chorava. O pai, sentado em frente à janela, impassível. Ouviu uma sequência de gritos, porta batida, um carro saiu. Desligou a música, esperou uns dois minutos. Nada de lágrimas. Foi conversar com o pai.

Ainda olhando para fora, indiferente aos passos pesados e suspeitos de Melissa, fechou a janela. Com medo de encarar os olhos indecifráveis do pai, ela resolveu fechar os seus e sentar no chão. Passagem bloqueada, ele deu meia-volta, sentou no sofá de camurça bordô e acendeu um cigarro. Chamou-lhe de Mel, esperou que atendesse e ofereceu. Ela se rastejou, meio gata, meio preguiça. Dois tragos e apagou. Por quê? Falta de amor. De quem? Dela por mim. Duvido. Então pergunte a ela. Cadê? Ela foi embora.

Talvez tenha levado três dias, talvez nove, ela diz que uns 15, para que a ficha de Melissa caísse. Sem mãe, se viu perdida e banida em sua própria casa, mais ríspida ainda com a apatia, permanente, do pai. Com 10 anos, fumante inveterada e autorizada, teve a menarca após, exatos, 23 dias sem notícias da mulher que a colocou no mundo. Implorou para a empregada não contar nada pra ninguém. Na mesma noite, o pai chegou com uma caixa de O.Bs. Ela chorou na farmácia, na escola e o tempo todo enquanto aquilo durou.

Mas esse fato –  o dia em que alguém lhe abandonou, não era pra ser dramático. Tampouco motivo de pena. Foi apenas a primeira pessoa que iria lhe deixar na mão quando mais precisasse, apenas um dos inúmeros vexames que sua vida de 23 anos já deu conta de viver. Naquele dia, Melissa soube que sua vida não seria colorida como os comercias de tv, que dinheiro nenhum pagaria seus sonhos reais, que a vida bate mesmo, sem motivo aparente, pra depois assoprar de leve, jogar uma água para refrescar no calor, mas que, de repente, num passe mágica: inferno. De novo. Looping infinito.

*15/10/10 – Aniversário da mãe de Melissa. Em sua agenda: página em branco. No rodapé, pequenino, quase invísivel, um lembrete: menstruar, por favor, obrigada.

Situações.

Por não ser uma dessas pessoas, desesperadas, que precisam contar a vida toda, o tempo todo, a qualquer um, farei uma apresentação. Meu nome é Melissa, como a sandália e a flor. Tenho 23 anos, como carne, não tomo refrigerante, corro três vezes por semana, não fiz balé, mas lutei boxe na adolescência. Tranquei minha faculdade há dois anos, conheci a europa inteira em um, estive com ele em outro. Sou comum, poucos amigos, uma tatuagem, poucas drogas, muito cigarro. Minha história é cheia de situações tensas. Sabe como é?

13/07/10

Visão periférica ativada. Finjo que não vejo, no entanto, sei de tudo. Ele resolve guardar segredo, eu resolvo abandoná-lo.

Situation number one – Sitution номер один – Un numéro de sitution.

Liguei para a pizzaria, cancelei o pedido, torci o pé quando desliguei o telefone, vi o filho da puta, pela janela, conversando com alguma…filha da puta. Ponderada, abri as cortinas, me fiz aparente, não fui notada. Eu lembrava do rosto dela, de alguma festa da faculdade: acho que foi a menina que vomitou um líquido grosso e rosa nos pés do Bruno. E o beijou depois. Era a própria. Reconheci pela barriga e pela cara de safada. Danem-se.

Levei uns cinco minutos para terminar a maquilagem, não aguentei o salto, resolvi ficar em casa, tranquei a porta. Aqui não entra mais. Fui até a janela, eles se despediam com um abraço, vi tesão no olhar de ambos, meu estômago pediu comida. O idiota tinha acabado com meu último pacote de Tostines, nem miojo tinha ali. Liguei para a pizzaria. Meia hora é tempo demais, vou desmaiar até lá, saí descalça, pelos fundos, fui comprar o hot dog da rua de trás.

Fiquei duas horas fora, comendo sozinha, com um pé inchado e o outro encardido. Conheci um senhor bebaço, que dizia ser avô do Elvis e, por coincidência, já ter ficado com a Tarsyla. Nunca ri tanto numa praça, à noite, descalça, traída. Voltei com dor e uma pitadinha de liberdade. Ele estava sentado na porta, um cu e meio, nem olhou nos meus olhos. Eu disse: não vai entrar. Ele disse: eu pago metade. Eu disse: não paga mais. Eu tinha ensaiado, joguei trezentos reais no chão, no topo da escada, pedi licença: seu cheiro está me enjoando.

Ele tentou se explicar, disse que era uma velha conhecida, que sentia falta de quando era solteiro. Eu mandei todos, eu disse todos, os librianos do mundo se foderem. Peguem o cabo de uma enxada, se necessário, mas saía da minha frente, desgraçado. Ele ficou com raiva, eu disse que tinha uma teoria de nomes, ele pediu pra ouvir, eu disse que não tinha mais o que falar. Eu te avisei, minha mãe disse ao telefone, ele também: eu quero conhecer o maior número de mulheres que eu conseguir. Boba é quem acredita que ele parou porquê conheceu você. BULLSHIT.

Nesse dia dormi sozinha, assistindo Dr. Fantástico e torcendo para virar personagem de alguma coisa. Resolvi resignificar minha vida, nem que fosse pra uma garota, obssessiva, usá-la em um blog qualquer.

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