Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “janeiro, 2012”

Manhã.

Nunca iria se acostumar com a luz do dia. Tampouco depositaria mais confiança nas pessoas do que deveria. Fora criada dentro de um ideal de imperfeição, que incluía ausência de beleza, café sem açúcar, alergia a algodão e seres humanos mentirosos. Quando criança, já amante da solidão, sabia calcular perfeitamente o valor de suas palavras, as reais e as inventadas, nutrida de uma vontade revigorante de sobreviver. Desafiar a inteligência alheia era tudo para ela. Como não podia confiar em si mesma – não raras vezes cometeu delitos e encontrou terríveis defeitos de caráter em seu próprio cotidiano forjado – não confiaria em ninguém. Não chegava a ser uma regra, pois se sentia livre para lançar auto-amarras. Era apenas precaução. Algo como preservação sentimental. Inteligência emocional, diriam aqueles que acreditam ter explicação para tudo.

Naquela manhã, em particular, precisou de mais força para encarar a forte luz do sol. Sabia que teria um dia dificílimo, desses de temor, em que o coração poderia entrar em colapso com o cérebro e colocar tudo a perder. Ou a ganhar. Não tinha um plano certo do que faria, apenas deixou-se guiar pelo ritmo do vento, que tentava sem sucesso movimentar seus cabelos estrategicamente presos. A rigidez com que se vestira, escovara os dentes e pisara firme em cada degrau da escada rumo à porta, fazia com que seus ossos doessem de ansiedade. Ela nunca se arrependia, porque no final das contas, aquilo tudo – do torpor ao ato concretizado – era o que lhe dava forças.

Chegou ao seu destino. A casa estava vazia. A sala, sem mobília, com exceção de uma velha penteadeira. Seus passos solitários e cheios de eco a deixavam excitada. Não precisara arrombar nada. A porta estava aberta, poderia jurar em um tribunal, que estava, inclusive, a sua espera. Eram cinco gavetas antigas e ruidosas, com cheiro de história. Mesmo ansiosa, mantinha a cautela. Andou pelo primeiro andar da casa, com medo de encontrar algo mais que a prendesse naquela loucura falsamente premeditada. Não tinha um bilhete, e ao perceber isso sentiu necessidade de vasculhar todo o local, na busca por palavras já escritas, que representassem toda a bagunça em que parecia ter se metido. Nada.

Entrou por uma porta aberta, sem chaves, nem privações. Podia sair, respirar e voltar para aquilo tudo o que tinha decidido banir. Pensou que não houvera, de fato, uma decisão, mas que precisava encontrar suas respostas. Ela não havia crescido naquela casa, muito menos conhecia seus donos. Se saísse, no entanto, gostaria que todas as pessoas estivessem mortas, que o mundo fosse um imenso depósito de toda a sua satisfação em estar viva, sozinha, para solenemente viver a mentira que era toda a sua existência. Ela, que queria ter tido uma infância difícil, correr mais riscos, ser bastarda ou qualquer coisa que o valha e se equipare a uma maldição. Não. Era simples. Era comum. Era igual a todos os outros.

Furiosa com a perda de tempo, cansada de cheirar e tatear as paredes daquela casa abandonada, ajoelhou-se em frente à penteadeira. Na primeira gaveta, muitos documentos, em uma bagunça que não combinava com a aparente importância dos papéis. Nada ali fazia sentido. Na segunda, várias peças de roupa feitas a mão, de lã, bem quentes, cachecóis, toucas, suéteres, meias. Tudo extremamente bem feito, extremamente abandonado às traças. A terceira gaveta era interessante. Cheia de livros que, com ilustrações maravilhosamente perturbadoras, apresentavam a concepção de uma vida em detalhes. O pequenino feto, as entranhas rasgadas da mãe, a cabeça que saíra para colocar a criança no mundo. Sangue que não acabava mais. Perdeu muitos minutos naquela gaveta. Descobriu coisas que jamais imaginara e sentiu pena das entranhas que a colocaram no mundo para ser livre.

Faltaram-na forças para abrir a quarta gaveta. Estava pesadamente trancada, sendo a única que apresentava uma fechadura de ferro, bonita, muito bem feita. Hipnotizada, prosseguiu, descobrindo a última gaveta totalmente vazia. Definitivamente, estava faltando o que procurava. Mesmo sem saber, encontraria naquele lugar, iluminado pela falta de cortina, por aquele sol que agora ela odiava. Percebeu ao encarar as janelas, que aquela parede tinha um branco diferente das demais, quase creme. Foi quando teve a certeza, e a ideia.

Tirou a quinta gaveta, bateu forte no fraco forro daquela que estava trancada, até que descobrisse uma forma de retirá-lo. Por uma surpresa que pareceu um sinal de pura coincidência, o forro soltou-se sem muito esforço. Caiu em suas mãos ardidas pela fricção com a madeira. A caixa que veio a seguir era vermelha sangue, quase de aspecto real, não fosse a claridade que denotava toda a simplicidade daquele cômodo. Após conferir o conteúdo não levou nem meio minuto. O objeto gelado passou a fazer parte de seu corpo, uma verdadeira extensão das mãos que a levaram para tantos lugares, inclusive a entrar naquela casa. Encostou-se na parede manchada, se escondendo inutilmente do sol que entrava com todo o vigor. Respirou fundo. Tudo ficou preto.

Jamais fora encontrada. A parede mudou de cor, definitivamente. Agora estava com cheiro de ferro e da cor daquilo que os sonhadores chamam de amor.

Em seu quarto, abandonado naquela manhã quente, as palavras finais voavam na finura de um guardanapo, fixado embaixo da xícara repleta de formigas.

“Eu não preciso disso. Eu nunca precisei”.

Ângela.

Ela acordou logo cedo, com muita dor de cabeça, a barriga recheada de fome e uma amnésia que teve fim ao lembrar do longo sonho da noite anterior. Havia sido um longo dia, desses em que faz frio e calor, intermitentemente. Durante a madrugada, sonhou por uma vida, com bombas-relógio, prédios infestados de gente morta, presságios do apocalipse, sequestros, comidas, sentimentos esquecidos. Seus sonhos, sempre característicos, diziam muito sobre ela, sem que soubesse. Se parasse para analisá-los, de vez em quando, perceberia diversos padrões, que especialistas apontariam como obcecada pela morte, gulosa, terrível relação com a família. Mas ela não gostava de sonhar, tampouco de fazer esforço na manhã de um dia cheio pela frente, para lembrar o que havia “atrapalhado” seu sono. Ela gostava de dormir.

Tomou remédio, abriu as cortinas, abriu as janelas, cambaleou cozinha adentro, percebeu que a geladeira estava cheia de coisas que não serviam para sua fome, constatou que talvez fosse melhor fazer uma boa limpa naquilo tudo – afinal, pra que usaria os três potes praticamente vazios de maionese ou aquele pedaço de queijo, já preto de tão estragado? Encontrou no fundo do armário, um pacote de bolacha e voou para o sofá, pronta a destruir a guloseima. Não ligaria a televisão. Na verdade, lembrou-se de que existia um aparelho televisor na casa, tamanha quantidade de tempo que não o ligava. Há muito tinha perdido totalmente o interesse por aquilo que era transmitido a tantas pessoas, que,aparentemente, se viam obrigadas a entrar em contato com aquilo como se, ao não o fazer, estivessem por fora de uma grande bolha social. Ela não. A sua bolha era única, própria e de mais ninguém.

O dia se arrastava lento, os flashs do longo sonho invadiam seus pensamentos, em contraste com o mundaréu de indecisões que a acometiam. Era apenas mais um dia. Entre todas aquelas nuvens, que iam e vinham, escondendo o céu e milhares de segredos, ela se sentiu perdida, sabendo que era pequena demais para tudo o que existia. Ela gostaria de acordar sem dor, saciada com o hoje, mas sabia que estava muito aquém do que podia, mesmo que de certa forma ainda não tivesse descoberto o que fazer. Tinha sede de desvendar todos os mistérios, despir as pessoas de todas as suas caras repletas de falsidade e moralismos mil. Tinha toda uma ânsia revoltada, explodindo de seu peito. Queria que tudo mudasse, que as nuvens escapassem do céu, que as pessoas tivessem consciência de sua pequenez, que a bolha imensa explodisse, inundando casas, apagando vulcões em erupção, que a Terra não precisasse mais de rotação.

Terminou a última bolacha do pacote, virou para o lado e dormiu. Os sonhos, dessa vez, não seriam recordáveis. A revolta passava ao terceiro bocejo, constataram as nuvens.

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