Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

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Wishlist #3

Eu quero uma casa no campo. “Onde eu possa plantar meus amigos, meus livros e discos, e nada mais”. No máximo, uns filmes, umas cervejas geladas, um grande amor. Sim, mesmo sendo dessas que não acredita piamente em instituições – vide igreja, congresso, casamento – eu acredito em amor. Vejo pessoas se apaixonando o tempo todo, vejo gente sorrindo porque recebeu uma ligação, vejo homens deixando mulheres semi-nuas passar a cinco centímetros sem desviar os olhos da mulher vestida que o acompanha. Vejo muitos sinais de que o amor está por aí. Posso querer um amor pra chamar de amor, oras.

Desde criança tenho esse sonho de morar entre montanhas, árvores, nuvens lindas me dizendo que mais um dia nasceu e as estrelas bem perto pra dizer que amanhã tem mais. Uma vez, em uma temporada prolongada em Minas Gerais – que me fez adorar tudo o que está relacionado a esse estado brasileiro – fiquei hospedada em uma casa imensa, com uns 30 quartos, todos com banheiro, uma chiqueza só. Nada daquilo me atraia na época. Eu não queria saber de possíveis luxos. Eu acordava, pulava da cama e abria a janela pra me deparar com folhas próximas da minha boca sorridente. Eu estava em uma casa no campo, no meio do nada que é tudo: a natureza.

Meus pais sempre me levaram pro meio do mato. Piqueniques, pescarias, caçadas, as mais inofensivas possíveis. E desde pequenina tenho essa atração demasiada pelo verde, pelo cheiro da grama, pelos pés descalços na lama, pela água do rio, pelos passarinhos cantantes. Meu grande plano de vida é morar num lugar que me traga tudo isso em segundos. É incrível constatar como algo assim, aparentemente, tão simples, é o que me faria muito feliz. Isso e aquele pouquinho de bônus de vida.

Ok, agora está registrado. Nas minhas melhores previsões, meus amigos estarão sentados, em uma mesa bem grande, cheia de bons petiscos, uma música incrível de fundo, rindo das banalidades do cotidiano que arrasta e contemplando a natureza. Todos ali, na minha casa no campo.

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Wishlist #2

Eu quero o poder do teletransporte. Dane-se o clichê. Eu quero chegar a um lugar, perceber que não está legal e dar o fora dali num piscar de olhos. Quero abandonar o transporte coletivo, sem precisar ganhar na loteria pra comprar uma carteira de motorista, um carro ou pagar chofer. Quero economizar o dinheiro gasto com táxi, para aplicá-lo em coisas mais saborosas e interessantes, como Heinekens trincando, livros de sebos, filmes na promoção. Eu quero, de tempos em tempos, desaparecer. Quero acordar em Viena, chorar pitangas em Veneza, tomar vinho na França, assistir um festival de rock qualquer em qualquer lugar do mundo. Ser a capitã Kirk dos trópicos. Quero fugir.

Ser uma Jumper brasileira, criada a Doritos e Coca-Cola, que vai bisbilhotar sets do Allen e acordar na sala do Boyd. Felicidade. Seria o sentimento dominador. Nunca mais perder nada, absolutamente nada, do que dá vontade de assistir. Participar de tudo, abraçar o mundo, estrangular a malfadada frase que meus pais dizem desde que nasci: – Você precisa parar de inventar moda e de querer abraçar o mundo. Não, não vou parar. Sim, eu quero. Quero pegar meus braços com hematomas de origem desconhecida e apertar o mundo todo, comprimir contra os quadris, sorrir zombeteira nos quatro cantos desse globo bonito e ser feliz. Se, um dia desses, a rotina sentir minha ausência prolongada, pode chutar: Charles Xavier me adotou, passou os poderes do Noturno duplicados ao meu corpo – só que sem a religião e a feiúra. Sumi.

Wishlist. #1

Quero um telefone com secretária eletrônica. Sim, mais do que querer, preciso. Agradeço aos telefones celulares que me permitem ouvir recados que as pessoas – cientes de que não adianta ligar de novo, meu celular deve estar longe de mim, no silencioso, jogado no fundo de uma bolsa perdida – já deixam por precaução. Esses dias meu pai me deixou um recado lindo, porque eu precisava falar com ele, mas só vi o celular tocando naqueles últimos segundos do Nokia Tune. O recado era assim:

“Letícia, minha filha, saudades, venha nos visitar. Aretha voltou a comer, mas sente sua falta. Eu também. Me avisa quando vier, para eu fazer janta. Beijo. Te…”

Acho que acabou o tempo. Ele falou rápido, mas cheio de vírgulas vocais e eu o amei ainda mais depois desse recado. O único problema foi a dificuldade de ouvi-lo, já que estou ficando (pasmem!) surda. É o meu maior exercício físico. Me desdobrar para encontrar uma posição em que eu consiga comprimir os músculos do ouvido para escutar qualquer coisa que venha da linha. Eu não consigo.

Rádio, TV, música no computador, qualquer coisa sonora: ouço numa boa e, se muito alto, me incomoda. Agora o som que vem do celular: pff. Não se torna aparente. Engraçado, que você pode me dizer: aumenta o som do celular. Ele é uma porcaria, compra um Iphone. Gente, pode ser o celular que for, eu posso até escutar, mas não sem o máximo de esforço possível. Em casa, no silêncio, até vai. Mas em locais agitados, povoados e estridentes é uma missão impossível.

Volto para o meu pedido: quero um telefone com secretária eletrônica. Nem é pelos seriados americanos, em que as mensagens sempre deixam os protagonistas comédinhas em maus lençóis. Nem é pra causar depressão caso eu passe uma semana sem receber ligações. É apenas para ter a oportunidade de ouvir o que as pessoas têm a dizer, no calor da hora, naquele momento. Tá e confesso que sou louca pra gravar uma mensagem daquelas:

“Você ligou para a Letícia! No momento eu não estou ouvindo o telefone chamar, mas quando estiver de bobeira, vou pegar o celular, ver as mensagens, ligações e recados perdidos e retornarei. Paciência é virtude. Beijos, deixe sua mensagem!”

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