Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “julho, 2012”

27ª Madrugada

Incrível como as coisas vêm e voltam na mesma, ou talvez até em melhor, intensidade. Vem tristeza, vai saudade. Vem alegria, volta desespero. As coisas estão sempre rodeando a todos, como se pudessem moldar coisas novas, além daquelas a que já estão predestinadas – elas, todas as coisas.

Ao mesmo tempo em que a menina do quarto 3 chora e grita com os pais, que não devia estar aqui, que tem tentado lutar pra continuar, a menina do quarto 4 se preocupa se vai ter que levar guarda-chuva ou não: está tudo muito bonito pra ela. Mas não dá pra esquecer, que há menos de dois meses, ela estava gritando por dentro, que não devia estar lá, que estava tentando mesmo continuar. Fases.

Dessa fase de bonança, de adaptação, de “não consigo ir à cozinha, porque está sempre cheia de estranhos”, vão ficar, possivelmente, algumas das memórias mais marcantes da minha vida. Eu que sou a menina do quarto 4. A solidão e o desconhecido trabalham juntos para que novas coisas, sentimentos e rotas sejam descobertas, sentidas e traçadas.

Se ontem eu não sabia o que tinha na quadra acima da que estou agora, hoje já sei exatamente o que tem em volta de mim. Fico triste pelos gritos de choro da menina do quarto 3. Queria dizer pra ela, quem sabe colar um post-it na porta: hoje vem desespero, amanhã volta alegria.

A alegria, essa pequena semente que habita dentro do meu nome, está aqui. Que delícia sentir que mesmo só, mesmo longe, você pode ser (e talvez realmente ser) a pessoa que você é.

É muito consolador.

Hoje eu comi sozinha, enquanto me enchia de coragem pra cuidar direito de mim. E sozinha, ainda, é muito mais fácil identificar as coisas que você realmente gosta, ama, sente saudade, sente vontade…

E nessa de solidão enquanto todos bebem em um bar, tive a companhia de grandes homens que admiro. De Kubrick a George R.R. Martin. De John Frusciante (a melhor companhia no momento, diga-se de passagem) a Patrick Dempsey. Eles cuidaram de mim, se importaram, fizeram hora comigo e estiveram quase dispostos a me ouvir – se pudessem, acho que realmente o fariam. Ah, fariam!

“You don’t need anyone. Just hold on to the end and you don’t even have to look good…”

 

O vento

No primeiro dia queimei as bochechas. Claro, elas não podiam ficar de fora da festa. Queimei como se elas fossem se escaldar. Queimei e senti pena de nós três. Eu e as bochechas. Depois veio a gélida impressão de que os meus ossos iriam quebrar, eles que já são tão frágeis. Em seguida, o calor: ei, alguém tira esse monte de blusas de cima de mim? Então a chuva, os cabelos acompanhando a direção das gotas, a sensação de que se poderia voar do meio da rua para a lua. Logo senti o calafrio, o cheiro do medo, vontade de sair correndo. Então a paz, a calmaria, o vento…

Seis dias em Curitiba hoje, nem uma semana. Seis dias e já consigo imaginar um ano inteiro.

A espera.

Ela chegou mais cedo, sentou em um banco vazio, apoiou a testa nas coxas, os cabelos deixaram a nuca à mostra para que o vento assoprasse seu espírito: era sua posição de conforto. Assim, sempre ouvia os pensamentos, além de descansar do peso que sentia por ser quem era, mesmo não sendo ninguém.

Com paciência, esperou durante muito tempo, esfregou as unhas compridas nos tornozelos, desenhou mapas no ar com a ponta dos dedos. Esperou, cantou mentalmente, ouviu os suspiros da natureza ao redor, amarrou e desamarrou os cadarços até perder a conta.

Estava desolada por fora e muito compreensiva por dentro. Tinha isso consigo. Não demonstrava emoções facilmente, nem conseguia manter aparências a longo prazo. Estava cogitando levantar e correr pra longe, mas estava confortável demais para isso. Manteve-se ali.

Estática. Frágil. Tranquila. Um sossego pra chamar de seu, um banco pra guardar de recordação, o vento pra acariciar e oferecer sua pele macia. Um mundo infinito de possibilidades assim que abrisse os olhos. E a espera. E a espera.

Quando não pôde mais, ergueu a cabeça, ajeitou os cabelos, verificou se os cadarços estavam no lugar, abriu um sorriso, levantou-se em um segundo e caminhou, calma e silenciosamente, como se estivesse predestinada ao que a esperava, àquilo a que tanto esperou.

Caminhou até chegar ao ponto de partida. O viu forte por fora e desesperado por dentro. Sem saber se poderia confiar no que via, não pestanejou. Ajoelhou ao seu lado, colocou uma mão sobre a dele, que estava em cima do joelho. Respirou fundo, um último olhar para decorar o seu rosto, a invisibilidade que chega com os olhos cheios de lágrimas…

– Nós vamos ficar bem.

Deixou a última declaração de amor ao lado de seus pés de calçados sem cadarços. Um minúsculo coração feito com capim dourado, numa tarde ensolarada de inverno.

Ela estava em movimento outra vez. Não precisava esperar por ninguém, por sentimentos, por aventuras, palavras ou atitudes. Sozinha.

Em si ela sempre confiaria.

“My breaking heart and I agree
That you and I could never be
So with my best
My very best
I set you free”. 

Navegação de Posts