Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “fevereiro, 2011”

Felipe.

Em conversa reflexiva com o menino dos coturnos e dos filmes que mais ninguém viu.

Ele ri.

– Não deveria contar, mas esse negócio de respeito vai ser difícil e vai demorar, hein. Infelizmente.

Eu me revolto.

– Por quê? Me dá uma razão!

Ele vai ao fundo.

– Porque esse tipo de respeito é algo ultrapassado. Hoje em dia, velho, muita pouca gente tem. Existem várias razões. Acho que a principal delas é porque a gente, no geral, se trata como mercadoria e objeto, em vez de seres tridimensionais, que reagem emocionalmente. Isso, porque é mais fácil ver as coisas desse jeito, em relações rápidas e superficiais e também porque a gente anda buscando auto-satisfação de uma forma egocêntrica, cada vez mais.

Suspiros.

Felipe de Souza estuda  jornalismo na Universidade Estadual de Londrina. Temos em comum o abandono do curso de psicologia para encarar o incerto. Fã de política, western e trilhas sonoras, às vezes se comporta como um ogro inveterado e, de repente, se transforma em pura fofura. Minha fonte inesgotável de livros e filmes emprestados, me diverte com frases arrogantes de impacto e me enche de referências que só ele tem. Amigo que vou levar enquanto suportar.

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Hoje acordei meio Darla. Leave me alone.

24ª Madrugada

O pesadelo matinal começou sufocante. Terminou tão bonito, que eu não pude acreditar. Acho que consegui controlar um sonho, afinal. Era como se eu não tolerasse mais aquele sofrimento, a angústia era tão chata, que foi muito mais simples sorrir. Eu estava ali, entre canaviais coloridos, com uma camisola dessas de avó e meus dentes se mostravam para o monstro. Diga adeus, fase ruim, estou indo embora de você.

Levá-lo ao aeroporto foi fácil. Difícil foi sair de lá sozinha. Chegar em casa, passar canais, constatar que não tinha mais cerveja e pimenta mexicana. Tive que jogar fora os últimos cinco marshmallows do saco, presentes dele. Um dia desses, espero, alguém vai me fornecer um ótimo argumento para esses meus ataques de alegria pervertida. Eu deveria estar triste, mas sentia aquela liberdade única, que nem sempre aparece. Vá para Barcelona, super affair, eu vou ficar por aqui me entupindo de referências que só o Richards pode me dar.

Lá pelas tantas, porém, um neurônio teimoso resolveu fazer zona, e os lapsos de solidão não programada me assolaram. Acho que é normal após despedidas. Acho que é muito óbvio após resoluções do tipo:

– Você vai? Então, fim.

Resolvi marcar um carteado em casa, mesmo que eu não estivesse disposta a jogar. Eu sequer estava disposta a estar. Mas senti que eu precisava encher a casa de pessoas queridas para amenizar a tristeza das paredes. Nós estivemos tateando todas, enquanto nos tateávamos, pela última vez, naquilo que se chama sexo bom. Muito bom. Oxalá.

– Você nem ficou triste do cara ir?

Olha, melhor amigo todo cinza e cheio de conselhos, não, eu não consegui ficar triste.

– É, eu sei bem o motivo.

Quando se existe essa coisa mal resolvida, essa coisa amarga, essa coisa que faz a gente molhar alguém na cama depois de andar chorando numa chuva…Quando existe isso: o que é tristeza? Ficamos todos com a dúvida no peito, os olhares uns nos outros para descobrir os blefes, as risadas explodindo o tempo todo em nossas consciências. Fomos felizes até às quatro e meia da manhã.

Eu, sozinha no quarto, recebi a mensagem de texto: Vou sentir sua falta. Na vitrola, Air. Aqui dentro, muito. Pra variar.

“Somewhere between waking and sleeping…down at the water’s edge. Somebody waits for me”.

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