Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “maio, 2012”

Bem feito.

– Bem feito!

Desabou de cara no chão. Perdeu o texto que escreveu com carinho. Deixou o molho de chaves cair no vão da cama que não se move. Bem feito! Parece elogio, mas é prefácio pra desgraça. Bem feito pra mim. Eu que deixei o molho de chaves desabar em um vão impenetrável, perdi aquele lindo texto que escrevi com carinho e cai de cara no chão. Doeu. Porque essas coisas doem. A dor me atinge com tanta força, que tenho preferido ignorá-la à, sei lá, chorar. Eu ainda não consigo parar de reclamar, porque essa crítica exacerbada faz parte de mim, mas consigo segurar as lágrimas, sempre que possível. Hoje não.

Essa é uma história sobre a minha vida que só descobri há algumas horas. Inédita pra mim, ela me doeu o coração.  Em um quadro negro, desses de aprender tabuada, eu fiz um gráfico. Linhas tortas, admito – a beleza dos traços nunca foi o meu forte. Nesse gráfico coloquei todo o meu futuro. Fiz a minha própria concepção daquilo que eu iria reproduzir, caracterizar, induzir e assimilar nessa vida. Eu precisei de legendas absurdamente grandes pra dar conta de explicar tudo à pessoa que mais importava. Eu. Eu mesma.

Eu me vi, com essa idade material, 23 arrojados anos, rosto mais bonito e cabelos alucinantemente brilhantes e compridos, as pernas mais cheias, assim como os seios. Um senso insaciável de liberdade em contraste com uma responsabilidade induzida pelo medo do inferno. Eu me vi sempre sorrindo, um sorriso de boca vermelha, usando botas pretas, de saltos finos, daquelas que vão até o meio da coxa. Me vi tão linda, que esqueci de qualquer outra coisa. Apaguei as legendas do gráfico com o suspiro do desejo. Desejo de ser desejada. Desejo de não sentir mais aquela dor. A dor que arde atrás dos olhos quando se olha no espelho e termina com um golpe furioso no estômago. A dor de não ser aquilo que se espera que seja.

A dor continuou em mim assim que abri os olhos. Tentei correr atrás das letrinhas se apagando, com o pó colorido daquele giz roubado da professora da segunda série, e todos os seus pontinhos esvoaçando e indo pra outro lugar. Eu sempre quis ser um daqueles pontinhos, que vão brilhando até onde dá e não se cansam de pular de parede em parede, de roupa preta em roupa preta. Deve ser incrível ser assim, até porque se sabe que a morte virá em forma de um pano úmido (ou nem assim). Não tem essa espera humana inconstante .

Eu não conhecia essa história. Descobri-a, hoje, enquanto olhava bem fundo meus olhos no espelho. Nunca gostei de espelhos, eles ainda me representam dor. A história me deixou triste por eu não ter aquela bota e ficar bizarra com a boca pintada de vermelho. Me deixou também frustrada, por não apontar com legendas super explicativas como faço pra superar essas dores. Como faço para me manter no equilíbrio almejado ou como posso suportar a dor de assistir a uma vida totalmente insuportável – a minha, mas principalmente a dos outros – que eu não desejei viver ou fazer parte, mas acabo por viver e consentir, todos os dias. Queria respostas.

Se você me perguntar agora o que eu quero amanhã, vou ser rápida em dizer: eu quero a cura para todas as minhas dores. Não quero mais, patologicamente, sentir vontade de morrer por causa de tanta dor. Não quero mais sofrer quando sinto que meu carinho ou amor não são correspondidos. Não, porque idealizo e ao idealizar e não obter, me dói muito. Dói dentro do ouvido. O zunido que diz: “Você não nasceu para amar. Nasceu para sofrer”. Eu iria pedir a cura para o sofrimento, que eu sei que não é nem o décimo do que um sofrimento de verdade chega a ser. Mas dói, hein. Como dói.

Sim, eu ia pedir e nessa de fragmentar minhas dores por medo de um colapso, vou acabar sem afeto para oferecer. Vou terminar com a convicção de que eu devo ser sozinha mesmo. Que nenhum outro ser humano precisa compartilhar das minhas dores. De cabeça, de garganta, de gastrite, de nervos, de sangue. Eu estou deixando de me sentir especial, pelos motivos que um dia coloquei em um gráfico e deixei que o vento levasse.

Se um dia meu pedido fosse atendido, o mundo teria que acabar. Explodir em pequenos pedaços de cristal. Ao fundo, as dores saindo, a vida esvaindo e passando por mim, feito um trator e as palavras me batendo, vibrantes, violentíssimas.:

– BEM FEITO! Você apagou o seu futuro bonito.

Por enquanto estou aqui, caída, de cara no chão.

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