Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

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Ângela.

Ela acordou logo cedo, com muita dor de cabeça, a barriga recheada de fome e uma amnésia que teve fim ao lembrar do longo sonho da noite anterior. Havia sido um longo dia, desses em que faz frio e calor, intermitentemente. Durante a madrugada, sonhou por uma vida, com bombas-relógio, prédios infestados de gente morta, presságios do apocalipse, sequestros, comidas, sentimentos esquecidos. Seus sonhos, sempre característicos, diziam muito sobre ela, sem que soubesse. Se parasse para analisá-los, de vez em quando, perceberia diversos padrões, que especialistas apontariam como obcecada pela morte, gulosa, terrível relação com a família. Mas ela não gostava de sonhar, tampouco de fazer esforço na manhã de um dia cheio pela frente, para lembrar o que havia “atrapalhado” seu sono. Ela gostava de dormir.

Tomou remédio, abriu as cortinas, abriu as janelas, cambaleou cozinha adentro, percebeu que a geladeira estava cheia de coisas que não serviam para sua fome, constatou que talvez fosse melhor fazer uma boa limpa naquilo tudo – afinal, pra que usaria os três potes praticamente vazios de maionese ou aquele pedaço de queijo, já preto de tão estragado? Encontrou no fundo do armário, um pacote de bolacha e voou para o sofá, pronta a destruir a guloseima. Não ligaria a televisão. Na verdade, lembrou-se de que existia um aparelho televisor na casa, tamanha quantidade de tempo que não o ligava. Há muito tinha perdido totalmente o interesse por aquilo que era transmitido a tantas pessoas, que,aparentemente, se viam obrigadas a entrar em contato com aquilo como se, ao não o fazer, estivessem por fora de uma grande bolha social. Ela não. A sua bolha era única, própria e de mais ninguém.

O dia se arrastava lento, os flashs do longo sonho invadiam seus pensamentos, em contraste com o mundaréu de indecisões que a acometiam. Era apenas mais um dia. Entre todas aquelas nuvens, que iam e vinham, escondendo o céu e milhares de segredos, ela se sentiu perdida, sabendo que era pequena demais para tudo o que existia. Ela gostaria de acordar sem dor, saciada com o hoje, mas sabia que estava muito aquém do que podia, mesmo que de certa forma ainda não tivesse descoberto o que fazer. Tinha sede de desvendar todos os mistérios, despir as pessoas de todas as suas caras repletas de falsidade e moralismos mil. Tinha toda uma ânsia revoltada, explodindo de seu peito. Queria que tudo mudasse, que as nuvens escapassem do céu, que as pessoas tivessem consciência de sua pequenez, que a bolha imensa explodisse, inundando casas, apagando vulcões em erupção, que a Terra não precisasse mais de rotação.

Terminou a última bolacha do pacote, virou para o lado e dormiu. Os sonhos, dessa vez, não seriam recordáveis. A revolta passava ao terceiro bocejo, constataram as nuvens.

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