Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “janeiro, 2011”

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Hoje acordei meio Maria Antonieta. ‘I wanna be forgotten and I don’t wanna be reminded’…A vida parece melhor.

23ª Madrugada

Calor. Por todos os poros, abertos, fechados, até mesmo os danificados. A necessidade de respirar livremente, sem pensamentos antigos quaisquer, aterrissou em meu ser. Podia chover. Podia nevar. Podia passar dois dias. Podia amanhecer primavera. Podia ventar dinheiro entre a escuridão. Eu precisava descer.

Na rua das pessoas carentes tudo estava lindo. Lindo no sentido mais feio da expressão. Era tanta beleza e pouca ação, que nada parecia estar no lugar. Uma desordem silenciosa, dentro da madrugada sem fim, eu, ali, doida para ser levada para longe, cheia de amor pelas folhas que voavam pelos meus cabelos. Nunca senti uma sensação de desapego tão grande. Era como se nada mais me pertencesse e eu beliscava a nuca, mordia os lábios. Eu não estava sonhando.

Sem precisar saber do tempo, continuei andando, sem rumo, mas certa de que estava chegando. Atravessei uns três bairros sem, praticamente, abrir os olhos. Pisando em um  chinelo velho, maior do que meu pé, herança de um pai que me ensinou a andar por entre trilhos, ao meio dia, sem queimar as solas. Eu só queria chegar.

Dobrei uma esquina e percebi que nunca tinha feito aquele trajeto. Mas eu estava ali. As luzes todas apagadas. As lembranças me apertavam com força. Eu tentei correr, mas fiquei estática, os sentimentos doíam, mas eu estava com um sorriso na cara. Uma droga de um sorriso na cara. Desses de denunciar apaixonados ou retardados.

Antes que eu piscasse senti as gotas elétricas. A chuva de verão caiu de repente, refrescou o  torpor que me corroia, me fez fechar os olhos bem forte, enxergar entre o escuro da alma o que me trouxera ali. Tateando a grande camisa xadrez que mal cobria minha cintura, percebi que trazia no bolso o meu enorme molho de chaves. Desde criança era assim: eu tinha acesso livre a todas as moradias de queridos. Não seria diferente com a casa amarelo raio de sol.

Com muito receio apalpei o cadeado. A chave dourada brilhava na mão, parecia nem receber os pingos da chuva. Com um clique enferrujado o portão abriu e eu tinha diante de mim todo um quintal, com nenhuma flor, nenhuma planta, muita saudade. A porta de entrada parecia me chamar. Mas não quis cometer esse delito. Eu iria pelos fundos.

As paredes agora tinham um desenho futurístico. Coisa de gente como nós – que evita crescer. Estava tudo limpo, com exceção de um canto cheio de latas vazias de cerveja. A porta dos fundos sempre apresentou resistência, mas dessa vez ela parecia estar aberta. Sem pensar, fui entrando pela dispensa, não acendi luz, era só percepção e no final do corredor, droga, ouvi dois passos. Com medo e a vontade de gritar resolvi ir mais longe.

Na ponta dos pés, prendendo a respiração, a blusa molhada quase correndo de mim, tamanha era a ousadia do ato, vi a luz do quarto dele acesa. Entre polícia e um empurrão porta de entrada afora, não pensei duas vezes. Que me algemem então! Corri todos os degraus em um cobiçado silêncio. Escorreguei quando cheguei à porta. Estava vazio. Passei os olhos pelas paredes – os mesmos quadros clássicos, a mesma prateleira com coisas legais – disputa nossa de quem conseguia soar mais interessante. Uma foto dele com a mãe e o irmão. Uma foto dele com dez anos. Uma foto dele com ela.

Quando a primeira lágrima ia cair dos meus olhos, já cintilando amargura, senti uma respiração atrás de mim. Se fosse fêmea,eu iria ter que me defender. Se fosse ele, talvez um desmaio repentino. Preferi não me mexer, até porque eu só conseguia enxergar a dama da noite, dentro de um vaso magnífico, mais bonito do que o que levei com a semente. Ela crescia ali, no antro de amor dele com outra. Mas era nossa.

– Como foi que você entrou?

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Hoje acordei meio ‘táuba de tiro ao Álvaro’: não tem mais onde furar.

Sobre o músculo involuntário que pulsa.

– Você tem um coração nas costas!

Também fiquei surpresa. Talvez essa tenha sido a afirmação mais interessante que já fizeram sobre minha anatomia.

– Um coração nas costas? Isso existe?

Disseram – porque são dessas pessoas de carinho – que era o mesmo coração da frente/meio do tórax. Ele só era maroto e grandão e ultrapassava os limites físicos naturais. Não acreditei nessa hipótese. Veio outra, mais pé no chão, e disse que tenho dois – e eles me enganam o tempo todo, um sabota o cérebro e o outro sabota as outras pessoas. Até que veio  um ser humano de sete anos de idade, com cheiro do hidratante da Barbie e calou a boca de todos:

– É que seu coração está no lugar errado, Dinda. Você não pode apanhar nas costas, entende?

Nada nunca me fez tanto sentido quanto isso. No meio de toda a bagunça em que vejo minha vida envolvida, órgãos em lugares errados me trazem boas perspectivas. E quer mais filosofia (desculpe filosofar) do que não poder apanhar pelas costas?

O coração sempre foi pauta recorrente nas longas conversas com a minha avó materna, Lia. Ela dizia que no coração ninguém manda e que um dia meu topete (eram chuquinhas, na época) iria cair por eles, os meninos. Teimei enquanto pude. Teimei e disse que o cérebro manda em tudo, inclusive no coração e que ele só pulsa, contrai e relaxa, não modifica nossas atitudes, não nos faz agir, simplesmente. Continuo com essa ideia, mas ela é uma apaixonada pelo coração. E se entrega e canta versos e escreve versos românticos em folhas com números sorteados na Tele Sena e diz:

– Tá vendo, Lelê, é o coração!

E eu tenho um fucking coração nas costas! Muito drama pra carregar, disse meu pai. Eu rebati dizendo que drama é herdado. Ele disse que é resquício da infância. Minha mãe veio com a história da necessária solidão:

– Precisa gostar de ficar sozinha assim?

Preciso. Meu segundo amigo imaginário, Eduardo, o gato, me ensinou a ser sozinha. A estar sozinha. A precisar da solidão. Se o coração mandasse em algo, ele não me permitiria ter a maior parte da minha vida sem os delírios do amor de amantes, por exemplo. Nem me faria, às vezes muito fria, desconfiada, dramaqueen do cerrado que fosse. Isso é coisa da cabeça.

Mas o coração não dispara, não mata, não dói? Sim, todas as alternativas estão corretas. Seria hipocrisia dizer que nunca pensei que o meu fosse explodir em mil caquinhos de vidro. Quando decidi que era hora de buscar a indiferença pelo menino das camisetas listradas – que agora pode, sim, dizer que falei dele neste espaço cibernético – teve dor, dor dessas de fazer arder o peito, corroer o estômago. Teve, também, a minha vizinha querida que morreu de saudade no coração. É um involuntário encardido.

Acho que toda vez que saio de casa correndo depois de um banho rápido, com fome na barriga, os pés machucados e toda uma dúzia de coisas boas e ruins se batendo na balança do cotidiano (im)perfeito, tenho vontade de escrever. Não é inspiração, porque ao longo do tempo desacreditei do termo, mas é uma vontade de respirar mais fundo, sentir o coração batendo  entre as vértebras e no buraco vazio, então, do peito de quem tem órgãos, sonhos e muitas ideias fora do lugar, sobra a vontade.

De amar o rosto que vejo no espelho, a cachorra que me mata de ternura, a família que me faz ser eterna criança, os amigos que tomam e devolvem minhas forças, os dias bons, os dias ruins, os estranhos que as contingências trazem sem fim.

Se for bater, bate de frente, vida. Parece que estou pronta pra encarar.

Essa sou eu e meu coração nas costas.

Cheiro do milho.

Pense no “Cheiro do ralo”. O filme mesmo. Se você não assistiu, assista. Se assistiu, pode compreender o que estou falando. Porém, isso não tem nada a ver com cinema. É vida real mesmo. Sou obcecada pelo cheiro do milho.

Milho verde, milho cru, milho maduro, milho assado, milho na palha, milho cozido, milho na lata, milho no bolo, milho no sorvete. Na pamonha, no cural, na cobertura, no recheio, na farofa, na sopa. Todos os cheiros de milho do mundo.

Mas de todos os cheiros o que mais me fascina é o cheiro de milho na cerveja. Talvez porque não devesse existir milho nessa composição. Ou porque, juntamente com o álcool, a cevada (se tem milho, deve ter menos cevada) e a aquela coisa social-pessoal que a cerveja carrega, o cheiro do milho embriaga também.

Pode reparar. Entre goles, afagos, beijos e risadas. O cheiro do milho está lá. Na ressaca, em possíveis gorfadas, lembranças quaisquer da noite: o cheiro do milho.

Não que minha dependência cervejeira esteja totalmente relacionada a isso. Nem sou como o Lourenço que usa seu cheiro ‘favorito’ para viver. Mas sei que sorrio dentro da barriga a cada momento em que sinto o cheiro do milho. Ele fica aqui, enquanto saio de mim.

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Hoje acordei meio Fiona Apple “and I don’t go to sleep to dream…”

Wishlist #2

Eu quero o poder do teletransporte. Dane-se o clichê. Eu quero chegar a um lugar, perceber que não está legal e dar o fora dali num piscar de olhos. Quero abandonar o transporte coletivo, sem precisar ganhar na loteria pra comprar uma carteira de motorista, um carro ou pagar chofer. Quero economizar o dinheiro gasto com táxi, para aplicá-lo em coisas mais saborosas e interessantes, como Heinekens trincando, livros de sebos, filmes na promoção. Eu quero, de tempos em tempos, desaparecer. Quero acordar em Viena, chorar pitangas em Veneza, tomar vinho na França, assistir um festival de rock qualquer em qualquer lugar do mundo. Ser a capitã Kirk dos trópicos. Quero fugir.

Ser uma Jumper brasileira, criada a Doritos e Coca-Cola, que vai bisbilhotar sets do Allen e acordar na sala do Boyd. Felicidade. Seria o sentimento dominador. Nunca mais perder nada, absolutamente nada, do que dá vontade de assistir. Participar de tudo, abraçar o mundo, estrangular a malfadada frase que meus pais dizem desde que nasci: – Você precisa parar de inventar moda e de querer abraçar o mundo. Não, não vou parar. Sim, eu quero. Quero pegar meus braços com hematomas de origem desconhecida e apertar o mundo todo, comprimir contra os quadris, sorrir zombeteira nos quatro cantos desse globo bonito e ser feliz. Se, um dia desses, a rotina sentir minha ausência prolongada, pode chutar: Charles Xavier me adotou, passou os poderes do Noturno duplicados ao meu corpo – só que sem a religião e a feiúra. Sumi.

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Hoje eu acordei dormindo.

22ª Madrugada

Sono raso substituído por amargura profunda. O despertador perdeu toda a impertinência com o tombo – acidental só no Alabama – que levou. Não suporto mais o tic-tac. As horas passam em minutos sonolentos. O mundo dorme, os fracos sofrem. Eu sofro.

É engraçado como a inveja se manifesta de forma compensadora em cada um de nós. Sempre fui invejada por minha capacidade de esperar o sol nascer, na praia ou em qualquer lugar, em qualquer fuso horário, inclusive, enquanto todos os outros – pobres mortais – padeciam de um sono infinito e reclamavam no dia seguinte por perderem o espetáculo. Sempre me invejaram, no trabalho, por conseguir terminar prazos curtíssimos madrugadas afora, dias lotados de trabalho adentro. Eu nunca precisei do café.

Ao mesmo tempo, sempre invejei as pessoas que, cansadas, chegam em casa, tiram os sapatos, escovam os dentes, passam pelos canais malignos da TV aberta – ou os muitas vezes repetitivos da TV paga – e após nove minutos de resistência moral, fecham os olhos e se entregam à sublimação da alma em forma de sono. Dormem feito girassóis sem sol, descansam o corpo inteiro, respiram devagar, são felizes.

Nesse momento taciturno, daria o pote de sorvete de uva com creme que me conforta e todas essas roupas amontoadas no pufe, para conseguir dormir. Eu sei que meu amor pelas madrugadas vai além do poder de descobrimento pessoal que só esse horário permite. Aquela emoção de tocar cada poro do corpo em sintonia com os berros dos grilos pendurados na janela semi-aberta. Aquele sentimento de que se é o contrário das leis naturais.

Estranho. Bocejei forçosamente e fiz dois estralinhos com a língua. Minha percepção de mundo sorriu marota como se quisesse me enganar. Não sei de mais nada. Os meus dias são preenchidos com ocupações, belas amizades e noites eternizadas por suspiros múltiplos, sempre novos, nunca os mesmos. Repetições inéditas. Os paradoxos me preenchem. No buraco vazio dos momentos de solidão: sai saudade. E da vontade: sai meu grito de chamada.

Ele pode ter dormido na cozinha, enquanto derretia chocolate para colocar nos marshmallows que comprou pra mim. Sinto o seu cheiro na fronha grossa e lilás, que minha meninice não ousa se desfazer. Sinto carinho por ele. Que agora ronca mansinho, enquanto engordo, acordada, mais um pouco de delícia.

Boeing 747-400

Eu nem acho clichê fazer um post final com o balanço do ano. Acho legal e sempre faço um texto assim, mesmo sem publicá-lo, como nesse ano passado – e eu não acho, mesmo, que o meu 2010 seja publicável. Enfim, eu simplesmente não iria fazer nada parecido com isso. Mas abri o Gmail – meu email favorito (não sei como tem gente que não consegue gostar) – e me deparei com a alegria dos duendes do WordPress, dizendo que eu enchi uma porção de Boeings 747s comparando com as visitas que o blog recebeu. Sei lá. Me animei pra voltar aqui, pois eu tinha decidido, já, que não postaria mais.

O Arrepios, pra mim, é um blog muito querido e especial. Não é nenhum sucesso da internet – ainda bem, porque malemá reviso alguma coisa que escrevo aqui e ele entraria em algum hall de blogs muito mal escritos – não fala sobre nada específico, nem me apresenta como a próxima Lispector – e que pena que nossos maiores nomes tenham caído numa roda de ‘qualquer um pode ser eles’; não digo nem pela popularização, porque literatura é pra ser lida mesmo, apreciada, construir pessoas melhores e a nossa, especificamente, é grandiosa em quase todas as fases; a questão é que as pessoas utilizam frases, parágrafos inteiros desses gênios, como se fossem deles. Todos poetas da alma, escritores que colorem a vida. Tenha dó.

Sentiu a pontuação maluca e a falta de revisão? Comecei a escrever no Arrepios por precisar de um meio termo entre descarrego de emoções e o que considero, realmente, interessante. Muita gente sabe, que isso aqui no blog é brincadeira perto de muitas outras coisas que escrevo e reviso (reviso mesmo, por isso não sobra tempo praqui), de muitos outros projetos. Isso aqui fica como um termômetro. E tive ótimas surpresas ao longo do ano – até mesmo com pessoas que se encaixaram aqui e quase cobraram direitos de aparição. Ó, o mundo da ficção.

Neste momento, as pombas voam perto do meu quarto andar. Uma quase entrou pela janela e vejo o reflexo do meu ombro e  uma ponta do meu cabelo, agora mais curto, levantada. Vejo o céu nublado, lindo, desejado quando fechei os olhos nessa última madrugada cheia de caseirice. A imagem mais bonita que vejo, da nuvem mais recheada, está sobre o botão ‘publicar’. Obrigada por ter me lido ou por ter guardado suas pedras quando leu algo que não gostou. Na real, é aquela coisa: o blog é meu, as histórias são minhas e eu enfio seres, palavras e vírgulas onde (minha preguiça) bem entender.

Publicado sem revisão.

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