Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “junho, 2011”

Carta

“Ei,

Saudade de você. Daquelas tardes lindas, em que nos abraçávamos bem quentinhos no frio que escalpelava a pele, sem nem sentirmos. Estávamos sempre ao sol, deitados como reis de um planeta inteiro e o nosso mundo se resumia àquela grama verde, cheia de pavões imaginários que sentiam inveja da nossa pele colorida.

Nós éramos duas criaturas sinceras, dentro de nossas convicções nunca planejadas, sempre desejadas, que por acasos abismais caiam nos nossos colos. A gente ria tanto daquele resto de vida que flutuava ao redor… Parecia, mesmo e muito, que o céu só pertencia a nós dois, que as nuvens estavam destinadas a serem nossas camas, ou uma cama só, bem grande, porque gostávamos da proximidade, dos olhares intensos, da surrealidade que emanava de cada gota de suor do dia mais quente na praia.

O nosso inverno era verão, o nosso verão era uma constelação de estrelas cadentes que iluminavam as madrugadas. Não havia amanhã. Nós cantávamos as músicas em ritmos distintos, não sabíamos como acertar melodias. Nós compusemos aquela letra absurda, em que eu cantava sobre a indecisão e você sobre a despedida.

E naquele dia cheio de riscos de fumaça no teto, quando você decidiu abdicar do cigarro em prol dos meus cabelos sempre cheirosos, naquele dia em que você buscou a pipa pro meu primo caçula no telhado, mesmo dia em que quebrou a perna e eu tive que escrever um parágrafo do meu novo livro no seu gesso novo em folha, nesse mesmo dia eu descobri que te amava muito. Descobri que a sua ausência me traria sofrimento mesmo se não fosse prolongada.

Entendi que o nosso encaixe não era apenas físco-lúdico-social, era amoroso. Naquele dia fiz um laço com uma fita de cetim amarela, lembra? Fiz aquele laço bem mal feito entre nossos dedos cruzados e lembro que nunca falei nada tão difícil quanto aquilo, mas disse com um sorriso de orelha a orelha. Disse e não quis voltar atrás, disse e repeti ao longo daquele ano tão bonito que tivemos. Disse e falaria alto e em bom som pela eternidade.

Mas a vida é feita de ‘mas’. E nesse mas nos desencontramos pelo caminho sempre tão cheio de escolhas. Nos perdemos no labirinto de nossos desejos individuais, nas nossas metas distorcidas e irrelevantes. Eu não voltei atrás. Não me arrependi. Mas…sinto saudade.

Saudade dos seus cabelos sacolejantes, do seu rosto com algumas espinhas, dos olhinhos contornando a aura toda. Saudade de tudo aquilo que vivi ao seu lado e de tudo o que não tive tempo de estabelecer como prioridade à nossa vida perfeita. Enquanto jovens. Enquanto juntos. Enquanto juramos aquele amor eterno, que assim o foi enquanto a chuva que caía em nossos pés não era ácida como eu.

Da menina que colocava flores coloridas no cabelo bagunçado, que te acordava com o espanador de pena de avestruz sem pó,

I”.

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