Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

Arquivo para o mês “fevereiro, 2017”

Eu não pertenço a nenhum lugar

Existo. Vago pelas ruas calejadas de concreto e calor. Sinto a pele queimada pelo sol. Os cabelos mais compridos do que suporto, embolados ao redor da nuca. Uma febre interna que arde sem deixar rastros. Os passos. Ando, vazia, feito bolha de sabão. Carrego incertezas, indecisões, aquele sinal de pare ignorado, aquela curva na contramão. Busco. Procuro respostas nos rostos de desconhecidos, nas vozes dos que se importam comigo. Nada. Eu não pertenço a esse lugar. 

A casa encerada, com o sofá verde que um dia fora artigo de luxo, em L na sala, combinando com a mesa de centro em madeira lustrada. Eu pulava feito grilo encenando vidas que sequer imaginava, na flor-margarida da idade, pequenina e amarelada. Eu não pertenço a esse lugar. 

O teto de laje, liso feito papel manteiga, segurava o lustre dourado de três lâmpadas. O piso de lajota fria que recebia tapetes de crochê, chão de brincadeiras ilimitadas, em que caneta colorida virava gente e uma régua desgastada, professora. Eu sorria e sonhava. Eu não pertenço a esse lugar. 

O ventilador quebrado, barulhento como dentes em bruxismo, reverberava o calor. O quarto pequeno, abafado, cortinas pretas e velhas, os calçados em fuga como se a sapateira fosse um crematório. Lá fora, nada para chamar de meu. Eu rolava acordada na cama. Eu não pertenço a esse lugar. 

O carro ao léu, intempéries de sol e chuva, um dia de verão. Uma tonelada de aço quente sobre a cabeça. As janelas fechadas, o mormaço corando as bochechas. Uma gota de suor escorreu do pescoço ao cóccix. Eu respirava fundo para sentir que estava viva. Eu não pertenço a esse lugar. 

A areia mole, o mar desvairado, o sol e a infinitude. Ondas suaves e quentes contrastando com o gélido e calmo fundo do oceano. Um mergulho, outro, boiando e encarando as nuvens, com os olhos meio fechados. Eu ia sem perceber que não dava mais pé. Eu não pertenço a esse lugar. 

Tragédias, dores, destruição. Os jornais apodrecidos, as conversas insanas, os pensamentos mais secretos enraizados na penumbra do que é o ser humano. A boca fala o que o coração pensa. Medo. Eu desistia de ler as notícias e suportar o insuportável. Eu não pertenço a esse lugar.

Existo. Mas não pertenço.

Se um dia, um OVNI aparecer sobre mim, jamais vou perguntar: Por que você está aqui? Direi, ligeira e convicta:

– Leve-me.

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