Arrepios

Arrepios, suspiros, verdades…

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Carta.

“Querido, analista. Estive aí na frente por mais de 15 minutos. Mas, de repente, começou a me dar uma tremedeira, olhei pra cima, vi que o tempo tinha fechado, não deu pra esperar. Eu sei que não era hoje minha sessão, mas eu acordei precisando falar com você. Eu poderia falar com meus amigos, mas eles têm se limitado a fingir que me ouvem, sem sequer saber sobre o que falo. Minha vizinha, Vitória, a bruxa, quer mais é que eu morra. No fundo, ela deve saber do interesse mútuo que eu e o loirinho dela nos nutrimos. Chegar perto dele pra contar problemas, você sabe que eu jamais faria isso. Mesmo sendo namorado da minha amiga vizinha, é um alvo em potencial. Aliás, assim que eu terminar isso vou chamá-lo para uma corrida, preciso emagrecer, hoje  a minha calça nova não entrou em mim, comprei um número menor pra evitar engordar, mas não deu certo. Pensei em cortar meu cabelo, mas aí me deu uma preguiça e aquela vontade de chorar e resolvi ficar com esse cabelão mesmo. Na verdade, não posso desperdiçar minha carta pra você, não vou te ver pelos próximos três dias. Ando sonhando, diariamente, com a minha mãe. Ela não existe mais aqui. Mas teima em aparecer, me dando os sermões de sempre. Como se tudo o que eu fizesse fosse horrível, como faço para superar mais essa bruxice da vida? Tente me responder, preciso conversar com alguém. Ainda ontem, um moço desconhecido que encontrei no bar me disse: Não sei como você pode estar sozinha, sem um namorado do lado. Respondi uma coisa que acho que você vai gostar. Eu disse: Mas se eu estivesse com alguém, como poderia dormir com você hoje? Mas, não, nem dormi com ele. Eu fui embora enquanto ele roncava. Homem que ronca jamais.

ps: me desculpe se você ronca.

Ass: Penélope”

Crise

– Eu só pedi cinco minutos de conversa diária e sóbria. É pedir muito?

– Arthur, eu não te entendo. Chego em casa todo dia, acendo um cigarro e pergunto sobre o seu dia.

– E aí você começa a beber e fumar e não ouve uma palavra. Minha próxima frase é: você tá viva, Vitória?

– Eu tô viva, caralho! Pra que me perguntar isso? Tô conversando com você.

– Tá vendo!

– Arthur…

– Eu sei que fica chato essa coisa de eu parecer carente e sei lá mais o que eu devo te parecer. Mas eu te amo, Vitória. Precisa de diálogo quando é assim. Só o sexo não resolve.

– Mas o sexo é tão bom…não é?

– Vitória?

– Hum. Nham. Ham?

– Vitória, fecha minha calça. Temos cinema em 15 minutos.

– Deixa pra amanhã.

– Amanhã é a minha apresentação.

– Então baixa no computador depois.

– Vitória?

– Hummm, nhaaaam, ham?

– Meu pau vai ficar mole.

– Cacete, por quê?

– Porque eu tô puto com você.

– Então me bate?

Arthur assistou a estreia sozinho e Vitória, bem, fumou um cigarro depois.

Diálogo.

– Esmalte fosco é uma bosta.

– Comprei um meio cinza, mas achei velório demais. Gosto dos mais claros.

– Esse cinza é bonito. Sabe aquele roxo da semana passada? Se quiser te empresto.

– Não, gosto dos clarinhos mesmo. Mas pra você ficou lindo.

– Puta que pariu, que sono.

– Tá bocejando de cinco em cinco e eu não te acompanhei. Viu como sou contrária ao universo?

– Penelope, o fato de você estar ligadona não tem nada a ver com simetria universal.

– Não tô ligada. Desde hoje cedo não tomo nada.

– Hora do almoço?

– Mas são horas!

– Vou desligar a  panela.

– Desligar a panela…pff.

Vitória desligou a feijoada branca, cuspiu na cumbica de Penelope e seu dia estava pronto pra começar.

– Gente chapada é uma desgraça mesmo. Taí sua sopa.

Penelope respirou fundo.

– Sopa…depois eu que tô chapada.

Diálogo.

Ele largou o pincel no chão.

– Cansou?

– Eu acho que quero te pagar um aluguel.

– De onde veio isso?

– Estava sem fazer nada, vi um filme na tv. O carinha era pintor e não fazia merda nenhuma. A mulher trabalhava, toda arrumada, levava esporro de chefe e aquelas coisas de mulher adulta, como você.

Cigarro aceso.

– E daí?

– E eu me identifiquei.

– Ele pintava bem?

– Eu me identifiquei com um carinha da Sessão da Tarde!

– Se ele for bonito como você perdi um filmaço.

– Vitória…

– Oi.

– Você me ama tanto assim?

Cara de origami. Pausa dramática.

– R$ 150,00

– Quê?

– É o que me deve. Aluguel e tal.

Cigarro apagado.

Pré-saída da porta verde e suas histórias…

– Mas que se danem os outros. O inferno são eles. Nem precisava ler o que Sartre, brilhantemente, escreveu.

– Você sabe que eu também não sou muito dos outros. Sou mais meu, minha cara, meu jeito.

– Eu só acho que tá muito curto. Não sei se vai ser uma boa experiência,Vitória. É como se você fosse um poço de sofreguidão sexual.

– Sofreguidão! (risos) Esse garoto usou um termo excepcional como esse. Sofreguidão! (risos)

– Qual é o problema? Não posso usar essa palavra só porque não tenho seus 76 anos de idade?

– Droga, rasguei a meia bem onde termina a porra do vestido. Alguém me ajuda,  por favor?

– Não tenho 76 anos, meu jovem, mas adoraria, de verdade. Eu estaria menos cansado, pois faria menos coisas. Só tenho medo de já ter criado um câncer ou que a tremedeira aumentasse.

– E aí nada de cigarros, certo?

– Nada de cigarros. Me empresta o isqueiro?

– Puta que pariu, perdi minha outra meia preta. Alguém pode me ajudar, por favor?

– Como assim você não tem o Wish You Were Here?

– Que isqueiro bonito, comprou onde?

– Eu não tô achando meu sapato vermelho. Mas que cacete de dia.

– Ganhei do meu avô. Bonito, né? Acho classudo.

– Ah, se não tivesse o Squeeze eu deixaria de ser amiga agora mesmo.

– Falta um pé da porra do sapato. Alguém! Bando de vegetais.

– Você tem um quê de homessexual.

– Eu sei, mas é só o quê. Pego mais mulher do que você três vezes. (risos)

– (risos) – Eu ouvi isso, bonito. Gente, ela tem o Tommy original! Passei.

– Tô pronta.

Com uma meia-calça salmão, sapatos vermelhos, vestido ‘nude’, óculos escuros e os cabelos em um coque mal-feito. Vitória estava pronta. Loirinho pegou o isqueiro da mão do senhor e foi elogiá-la. O senhor achou a combinação estranha. Preferia Penelope, com os cabelos soltos, sem muita maquiagem, vestido preto e as pernas largadas entre os discos de vinil da vizinha.

Foram ao teatro, assistir um compêndio sartriano. O lugar nunca mais foi o mesmo. Nem eles.

A porta verde e suas histórias…

Dois dedos de sobriedade.

– Não gostei. Acho que A língua que não fala seria mais adequado.

– Vou fazer de novo.

Não! O loirinho estava exasperado. Não conseguia achar um nome para sua obra. E aquelas duas estavam a ponto de enlouquecer o novo artista. Vitória sempre soube que ele tinha arte nas veias. Pelo jeito de olhar pro seu rosto, como um medidor de formas. Pelo modo de tocar suas costas, como um texturizador de pele. Pelo modo de andar, como alguém que tem muito guardado dentro de si.

– Você não pode refazer um quadro. Ele já saiu.

– O título é secundário. Assim como a opinião da Penelope.

Era a morena, dona da casa, falando da morena, vizinha de porta amarela. Penelope era um furação. Parecia musa de algum cineasta. Mas algum alternativo o bastante para sombrear aqueles olhos grandes, doidos, doídos, possuidores. Ela tinha acesso diário à casa de Vitória, porque certo dia salvou o gato da vizinha de se afogar numa caixa d’água. Felipe, ou loirinho, nunca vibrou tanto com algo. Ela era heróina. Dava um pau em qualquer Tieta.

Ela riu do comentário, no minímo, maldoso.

– Felipe, meu lindo, faça como quiser. Eu vejo uma vontade imensa de gritar nesse quadro. E um silêncio forçado pelas contigências. Você decide. Só você, meu lindo.

Penelope era natural demais. Andava bonito e sorria quando dizia “lindo”. Falava aquilo pra qualquer pessoa, sem parecer vulgar ou forçada. Vitória, por sinal, reconhecia todas as qualidades da vizinha. Mas era ariana e não gostava daquela competição direta com o objeto de cobiça. Ela viu primeiro, era dela. Mal sabia que Penelope não tinha pretensão alguma de fisgar o loirinho-talento-mor. Pelo menos até aquele momento.

– Claro que ele vai fazer o que bem entender, Penelope. Mas está na cara que a energia do quadro é de recuperação. Ele tapa a boca com os dedos e não bebe mais. Fica nítido com a posição das garrafas…

– Gente, chega!

O loirinho não era de se exaltar. Era tímido de se esconder sozinho em casa. Mais difícil do que pintar aquela ou qualquer outra tela era ter que se relacionar, se envolver e se desligar daquelas duas mulheres. Vitória era sua inspiração. Amava aquela independência e como ela valorizava suas ideias, sustentava seu vício por sexo e cigarro sem nunca cobrar nada. Ele era apaixonado por ela, não tinha dúvidas. Mas Penelope…aquele trançar de pernas, aqueles olhos tão completos, com uma introspecção que parecia original demais pra ser real.

Não sei. É esse o nome do quadro.

As mulheres da vida do loirinho se olharam. Gargalhadas genuínas a seguir. Cigarros.

– Deixem os críticos se matarem para descobrir porquê.

Ele lavou as mãos, pegou o cigarro da boca de Penelope e foi beijar a nuca de Vitória.

Continua…

A porta verde e suas histórias…

Vitória mora em uma rua predominantemente amarela. Os postes são cinza em cima, amarelos embaixo. Os telefones públicos, os toldos das lojas, as lixeiras, os meio-fios, os quebra-molas, as faixas de pedestre…tudo amarelo. Mas, em um inverno desses mais gelados, fez o loirinho pintar sua porta amarela de verde. Cansou de ser igual a todo mundo.

Custou a perceber a influência daquela cor em sua vida. Mas a porta verde transformou tudo, mítica e meticulosamente. Ela passou de menina mimada e sem açúcar, para uma mulher madura e muito doce. Dos defeitos, o seu maior era o de não conseguir se apaixonar. Ela até tentava, fazia planos, mas era especialista em fuga à distância. Até que conheceu o loirinho.

Ele, como todo ser humano com sorte, tem nome e certidão de nascimento. Felipe é desses loirinhos de cabelo bem ensebado, que vestem roupas bem velhas de brechó e são bem intensos por natureza. Bem é uma das palavras mais usadas para qualificar esse tipo de gente. Se conheceram na fila da carne assada, na mercearia da esquina.

Vitória tem 25 anos, é formada em agronomia e trabalha numa floricultura. Quando o pai, neuro cirurgião, descobriu, quis mandá-la para a Europa, fazer coisas que gente rica faz quando vê uma crise, tentar curá-la. Ela se trancou e deixou um vaso de crisântemos roxos na porta verde.

Felipe tem 21 anos, mal começou a fazer medicina veterinária. Não tem carro, mora com os pais e nunca saiu do Brasil. Mas gosta tanto de Vitória que daria uma perna ou todos os seus discos do Pink Floyd pra passar uma noite inteira na casa dela. Não entende porque ela só quer passar algumas horas obscuras com ele. Nem que o maior problema dele tem nome:

Penelope.

Continua…

A porta verde e suas histórias…

– Não sei se gosto mais do meu irmão ou da minha mulher. É aquele tipo de constatação ridícula, profana, que não vai mudar nada, né não?

Ele, lourinho, olhou para a cara dela. Absorta em pensamentos indecifráveis, nem prestou atenção. A chuva lá fora.

– Ele está falando com você, Vitória.

– Oi.

Ela acordou do sonho dourado e olhou para o amigo.

– Era só um papo sobre essa loucura de amar.

– Pra mim amor é um cabide em que me penduro. Nesse caso, sou um casaco. Quando me envolvo com ele, o cubro, faço dele um abrigo. E quando me retiro dele, fecho a porta do armário, pra não o ver mais.

Risadas duplas. O lourinho sem piscar, chegou mais perto. A chuva lá fora.

– Essas suas constatações são mais ridículas que as minhas. Campeã.

– Superação também é minha palavra.

O lourinho resolveu passar o braço por sua cintura. Ela olhou de canto pra ele. Tão bonito o rapaz. Camiseta suja e meio rasgada, aquele cabelo grunge, parecia um bastardo de algum Nirvana. Não do Colbain, que era estimar demais a magrelice dele. Se bem que não era tão magrelo…Suspiros e uma mordida de excitação no lábio inferior. O amigo atento:

– Bom, vejo que vou sobrar nesse amor cotidiano e tenso de vocês.

– Mas tá chovendo ainda.

– Vitória, minha querida, sei bem o que é uma chuva dessas para um casal em ebulição.

Ele abriu a porta verde.

– Volta amanhã?

O lourinho entregou os cigarros e um guarda-chuva bicolor.

– Volto e trago o seu livro, como combinado.

Três segundos de porta fechada. Nada mais, nada menos. O lourinho já estava sem a camisa suja e meio rasgada. Vitória não tinha mais blusa. Calças abertas. A chuva lá fora.

– Você não pretende me amar então?

Vitória revirou dois olhos, de vontade e de sarcasmo.

– Aproveita enquanto está no armário. Qualquer dia posso te colocar na geladeira.

O lourinho, apesar do medo e da vontade de mandá-la se foder, resolveu fazer isso ele mesmo. Mas não sabia que para ela era difícil dizer o quanto queria amá-lo. Os pensamentos pecaminosos e nada mais. 11 minutos de puro e devasso prazer.  E a chuva lá fora…

Continua.


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